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19/03/2009 - 08h59

Autor desvenda conto "profético" de Machado de Assis em ensaio; leia trecho

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da Folha Online

Pestana era um músico de extremo sucesso. As polcas que compunha eram célebres nos saraus, salões, bailes e ruas do Rio de Janeiro. Mas ele nunca estava satisfeito. Sua ambição era compor obras eruditas, como aquelas dos mestres da música. Esta é a história narrrada por Machado de Assis no conto "Um Homem Célebre" (1888).

Reprodução
Livro tem como ponto de partida "Um Homem Célebre", de Machado de Assis
Livro tem como ponto de partida "Um Homem Célebre"

Para o ensaísta José Miguel Wisnik, o conto de Machado destaca um tema praticamente onipresente na cultura nacional: o embate entre o popular e o erudito. O ensaísta parte dessa premissa para analisar os muitos significados do conto "Um Homem Célebre" em "Machado Maxixe: O Caso Pestana", da Publifolha.

No primeiro capítulo do ensaio, que pode ser lido abaixo, Wisnik trata justamente da qualidade "profética" do conto. A partir da angústia de um homem, Machado aborda uma fricção que, para Wisnik, está não só na gênese da música popular urbana do Brasil mas também da própria cultura e identidade nacional.

Leia abaixo o capítulo de introdução do ensaio.

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Sucesso e Glória

À primeira leitura, "Um Homem Célebre" (Várias Histórias, 1896) expõe o suplício do músico popular que busca atingir a sublimidade da obra-prima clássica, e com ela a galeria dos imortais, mas que é traído por uma disposição interior incontrolável que o empurra implacavelmente na direção oposta. Pestana, célebre nos saraus, salões, bailes e ruas do Rio de Janeiro por suas composições irresistivelmente dançantes, esconde-se dos rumores à sua volta num quarto povoado de ícones da grande música européia, mergulha nas sonatas do classicismo vienense, prepara-se para o supremo salto criativo, e, quando dá por si, é o autor de mais uma inelutável e saltitante polca.

A discrepância entre o objetivo idealizado ("uma família de obras espirituais" de alta estirpe) e a natureza do resultado (a prolífica sucessão de sucessos como "Candongas Não Fazem Festa" e "Não Bula Comigo, Nhonhô") envolve a localização do drama num terreno ironicamente escorregadio: o das relações entre o popular e o erudito no Brasil. Machado de Assis já tinha tratado do assunto, de maneira inaugural, embora num tom tendente ao melodramático, no conto "O Machete", publicado em 1878 no Jornal das Famílias. Em "Um Homem Célebre" volta a atacar, agora comicamente, e com implicações completamente novas, a nossa velha e conhecida disparidade entre o lugar precário ocupado pela música de concerto no Brasil e a onipresença da música popular que repuxa e invade tudo.

O sucesso do compositor compulsório de polcas confunde-se inextricavelmente com o fracasso de suas ambições eruditas, e este, ditado ao que parece por uma imperiosa vocação do meio, não deixa de se metamorfosear no sucesso de polcas sempre renovadas, completando o círculo vicioso. O desejo irrealizado de glória, categoria ligada à imortalidade dos clássicos, contorce-se no giro perpétuo e torturante do sucesso, categoria afeita ao mercado e ao mundo de massas nascente. E aí balanceia o ponto insolúvel dessa singular celebridade: o sucesso é inseparável do fracasso íntimo, e tanto maior este quanto maior o seu contrário, já que, afinal, quanto mais mira o alvo sublime mais Pestana acerta, inapelavelmente, no seu buliçoso avesso.

Que verdade a polca devolve, então, ao infeliz compositor, como um segredo? Aqui reside o ponto de inflexão da leitura. Pois, em primeiro lugar, o significado da incapacidade de compor a obra almejada não se esgota, em "Um Homem Célebre", naquela impotência criativa que assombra, por exemplo, o esforçado Mestre Romão de "Cantiga de Esponsais" (Histórias Sem Data, 1884). Neste caso, o do modesto e admirado regente que não chega nunca a compositor, embora o queira mais que tudo, trata-se de uma daquelas "vocações sem língua", que não logram ultrapassar intimamente a barreira da expressão, numa "luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens". O horizonte dessa impossibilidade encontra-se nos desvãos insondáveis da psique, numa latência sem objeto, em suma, numa prisão interior cujas paredes a inspiração, "como um pássaro que acaba de ser preso [...] forceja por transpor [...], sem poder sair, sem achar uma porta, nada".1 Já a impossibilidade de criar sonatas, sinfonias e réquiens, em Pestana, não se resume na incapacidade de compor, mas corresponde a um deslocamento involuntário do impulso criativo em direção à língua comum das polcas, com espantosa força própria, o que faz do compositor não só uma individualidade em crise mas um índice gritante da cultura, um sinal da vida coletiva, um sintoma exemplar de processos que o conto põe em jogo com grande alcance analítico, e que são muito mais complexos do que a leveza dançante da narrativa faz supor de imediato.

Nesse sentido, seria estreito demais o entendimento do conto por meio de uma ironia reduzida a seu primeiro nível, lendo-se o eterno retorno da polca como uma simples evidência risível da condição menor do músico popular em face das exigências da cultura alta. Segundo essa ótica, o pianeiro celebrado pagaria a pretensão contida em sua incursão pela seara dos grandes mestres com a repetição estéril de seus esforços, terminados sempre com a queda no irrisório - a montanha sinfônica parindo um rato bailante.

Se somados a essa ilusão os interesses do mercado, que o conto satiriza com precisão hilariante, e que começavam a explorar, no fim do século 19, o futuroso filão da música popular urbana por meio do comércio de partituras, temos, mais refinada, embora ainda insuficiente, uma leitura que identifica no conto uma crítica pioneira da cultura de massas, e pela qual restaria ao artista o papel do peão impotente entre a alienação de uma arte que não descreve o meio em que atua e um mercado que instrumentaliza seus esforços vãos para os fins do lucro.

Sem negar valor a esse nível de apreensão, vale notar, no entanto, para abrir uma outra ordem de considerações com uma complicação a mais, que a "eterna peteca entre a ambição e a vocação", em cujo balanceio padece a alma de Pestana, segundo as palavras do conto, não gira só no vazio das impulsões não formadas e das produções goradas, simplórias e inautênticas. Pois a polca, que persegue o compositor como a maldição que o condena à vida rasteira dos bailes e "assustados" - os tradicionais arrasta-pés -, é ao mesmo tempo a propensão inata e inerente ao seu impulso composicional autêntico. Elementos do conto permitem insinuar ironicamente que essa propensão é não só congênita (ao vincular a criação musical ao tema da paternidade e da filiação, como veremos), mas também, e mais propriamente, o testemunho congenial de uma formação musical consistente - expressão, malgré lui, de um talento pessoal quintessenciado. Na cena notável em que o vemos compor a polca, inspirado involuntariamente pela "musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa", Pestana não pensa mais no público que o aplaude, no editor que a encomenda, nos vultos clássicos que admira, em suma, nos avatares da celebridade, do mercado e da Arte: "Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene".2

A passagem não deixa dúvida: a congenialidade daquelas peças dispõe do valor inestimável da espontaneidade, beirando enviesadamente o genial, como ficará claro, malgrado as alienações da publicidade, da mercantilização e da fetichização da arte, e para além da depreciação a que as submete o próprio compositor. Ao final, quando se dá o retorno tardio de Pestana à composição de polcas, depois de tê-las abandonado mais uma vez na esperança vã de compor o réquiem, é o texto que diz: "apesar do longo tempo de silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial".

A ironia sofre, portanto, uma outra torção: o sucesso popular galopante e onipresente, alimentado e realimentado pelo incipiente comércio musical - sucesso que é ao mesmo tempo o rotundo fracasso íntimo perante o ideal de arte e de glória almejado -, contém secretamente um outro sucesso de difícil apreensão, no sentido de um acontecimento praticamente inacessível ao entendimento do próprio compositor, assim como do insciente meio que o envolve: a graça e a novidade inerentes àquelas composições supostamente banais são índices de algo ainda não nomeado - que nos propomos a examinar aqui.

Mas é precondição desse exame suportar o fato de que o conto trabalha com a ambivalência do que podemos chamar de um logro - aproveitando o duplo sentido da palavra -, dado que nele se encontram e se cruzam, a um só tempo, engano, irrealização e conseguimento. Nesse sentido, fracasso e sucesso são aspectos de um mesmo processo, de um logro complexo a ser visto em outro nível de análise e sob múltiplos ângulos. Ao focalizar o balanço aparentemente insolúvel do fracasso-sucesso que se constitui para a personagem num doloroso imbroglio e, por vezes, num lancinante pesadelo, Machado fez, como veremos, uma curiosa e penetrante análise da vida musical brasileira em fins do século 19, armando uma equação nada simples, em cujas incógnitas se desenham precocemente linhas do destino da música popular urbana no Brasil, para dizer pouco.

Porque, entre outras coisas, em que se inclui a sinalização sibilina da transformação histórica da polca em maxixe, que então se dava, Machado acaba - se não revelando - resvalando em algo que nunca disse de si mesmo, em lugar nenhum: a condição do mulato.

1 Machado de Assis, "Cantiga de Esponsais". Em: Histórias Sem Data. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/ Brasília: INL, 1975, p. 83-7.
2 As citações serão extraídas de Machado de Assis, "Um Homem Célebre". Em: Várias Histórias (texto apurado pela 3ª edição, de 1904, e notas por Adriano da Gama Kury). Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Livraria Garnier, 1999, pp. 47-57.

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"Machado Maxixe: O Caso Pestana"
Autor: José Miguel Wisnik
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 22,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha

 

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