Mostra de sexo reúne arte e erotismo
SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo
Um rapaz recebe um jato de sêmen no rosto, que escorre como se fosse lágrima. Uma menina simula sexo oral com um bloco de margarina e acaba lambuzando até os cílios. São, na ordem, vídeos de Maurício Ianês e Marcelo Cidade.
E é uma mostra sobre sexo a que a galeria Vermelho, em São Paulo, abre hoje. Comparada a um encontro às escuras, já que "sexo não está na agenda da arte contemporânea", a coletiva de 17 artistas organizada pela curadora Luisa Duarte quer debater a forma como a cultura visual trata a sexualidade.
"Foi a constatação de uma ausência", diz Duarte. "A arte hoje tem questões de corpo, gênero, mas não algo que tange o ato sexual, que nunca está em primeiro plano." E esse "hoje" quer dizer agora: jovem em ascensão num círculo dominado por intelectuais de idade já avançada --Duarte tem 29 anos--, ela reuniu artistas da mesma geração, que, segundo ela, deixou passar batido o sexo.
Se a fotógrafa americana Nan Goldin, com seus diários visuais de libido exacerbada, é uma referência para artistas há tempo, a exposição atual tem como baliza algo mais pop, como os escritos da artista plástica e cineasta Miranda July, cujo livro dá título à mostra, e o seriado "Sex and the City".
"Uma característica dessa geração mais nova é uma troca muito grande entre curador e artista", afirma Duarte. "É esse laço que faz com que a gente possa se dar ao luxo de trabalhar às escuras, errar juntos."
As obras de artistas como Ianês, Cidade, Marilá Dardot, Gisela Motta e Leandro Lima, Cinthia Marcelle e Lia Chaia são todas inéditas, inspiradas pelos textos que a curadora distribuiu entre os autores. "Estamos tateando no escuro", diz Duarte, numa comparação entre erotismo e arte -ambos não têm finalidade aparente, a não ser "fazer com que o homem se sinta mais em casa no mundo".
Cumplicidade violenta
Num canto da galeria, a dupla de artistas Gisela Motta e Leandro Lima, um casal, tenta esclarecer essa falta de finalidade na arte e no sexo. Uma projeção dupla mostra um atirando facas no outro, como no número de circo. "O deleite é uma finalidade", diz Lima. "É uma cumplicidade, apesar da violência: quem recebe também atira."
Marilá Dardot encontrou nas bancas de jornal artilharia mais desigual. Numa apresentação de PowerPoint, ela compilou tudo o que foi publicado sobre sexo em revistas de comportamento, femininas e masculinas, ao longo de um mês. "Meu interesse era saber o que se fala sobre sexo fora da bibliografia de elite", afirma Dardot, que diz ter descoberto coisas absurdas.
Com pequenos espelhos dispostos no formato de uma vagina e multiplicados sobre um fundo vermelho, Lia Chaia parece reforçar alguns dos estereótipos que assustaram Dardot. Depois de estudar os "puteiros" da rua Augusta, Chaia fez o que chama de vaginas "geométricas". "É um gozo que vai reverberando no espaço."
Mas nem tudo é tão simplório. Num vídeo, duas correntes de ar criam figuras abstratas em fileiras de pó. É a interpretação mais sutil e poderosa de Cinthia Marcelle e Tiago MM sobre sexo e, quem sabe, amor.
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Quando: abertura hoje, às 20h; de ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h; até 16/11
Onde: galeria Vermelho (r. Minas Gerais, 350, tel. 0/xx/11/3138-1520; não recomendado para menores de 18 anos)
Quanto: entrada franca

