Filme de Guel Arraes ironiza TV e faz referência à Globo
SILVANA ARANTES
Enviada especial da Folha de S.Paulo ao Rio
Em seu novo filme, "Romance", o diretor Guel Arraes ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o Prisioneiro") faz um ensaio sobre a representação dramatúrgica do amor, recheado de ironias aos cacoetes da TV e do cinema brasileiros.
Na primeira exibição pública do longa, anteontem, no Festival do Rio, a platéia riu mais do que o diretor gostaria. Antes da sessão, Arraes apresentara o filme como um romance com pitadas de comédia, distinguindo-o de seus trabalhos anteriores, que são comédias com pitadas de romance. "Se vocês rirem muito, vou ficar bastante preocupado", disse ele.
| João Wainer/Folha Imagem |
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| Letícia Sabatella durante filmagem de "Romance", de Guel Arraes, em São Paulo |
Recente pesquisa Datafolha encomendada pelo Sindicato dos Distribuidores para mapear os hábitos de consumo de cinema no país identificou que comédia é o gênero preferido do espectador quando se trata de filmes nacionais.
Não-atores
A platéia que lotou o Cine Palácio, no centro do Rio, para ver "Romance", riu ruidosamente de personagens como Orlando (Vladimir Brichta). Ele é um ator que ambiciona um papel num especial de TV a ser rodado no Nordeste, mas descobre que os testes serão restritos a não-atores da região --expediente que é voga no cinema nacional recente.
"Passei anos da minha vida me formando como ator e vou perder a melhor chance que tive até agora porque sou ator", conclui Orlando, que decide, então, fingir-se de sertanejo, para se submeter ao teste.
A escalação de Orlando para o papel termina acrescentando mais um vértice à relação do casal de protagonistas, formado pela atriz Ana (Letícia Sabatella) e pelo ator e diretor Pedro (Wagner Moura). Os dois se apaixonam durante uma montagem teatral de "Tristão e Isolda", matriz das narrativas do amor romântico.
O desempenho de Ana na peça chama a atenção de Danilo, diretor geral de uma emissora de TV cuja logomarca é prateada e esférica. Danilo é interpretado por José Wilker, com entonação, gestual e tiradas sarcásticas que remetem ao diretor Daniel Filho.
Alçada ao estrelato na novela, Ana vê sua relação com Pedro entrar em crise. Ele despreza a audiência de TV. Prefere a atenção atenta do restrito público de teatro a um espectador "que está me vendo por acaso, entre dois anúncios de detergente".
É uma escolha que a pragmática produtora Fernanda, vivida por uma Andréa Beltrão decalcada de Paula Lavigne, que produziu "Romance", é incapaz de compreender.
"Por que representar para 300 pessoas, se você pode representar para 30 milhões?" é uma das falas de Fernanda.
O roteiro de "Romance" foi escrito por Arraes, diretor de núcleo na Globo ao qual pertencem produções como "A Grande Família", e por Jorge Furtado ("O Homem que Copiava", "Saneamento Básico"), que também realiza trabalhos para a emissora. O título tem co-produção da Globo Filmes.
De Glauber a Manga
Resumindo sua trajetória profissional, anteontem, Arraes disse que, "em meados dos anos 70, queria fazer cinema como Glauber Rocha" e que, no início de sua "vida profissional na TV Globo", inspirado pelas chanchadas, "queria fazer comédia como Carlos Manga".
"Romance", segundo o diretor, filia-se "a uma terceira linha de cinema, que corresponde à nouvelle vague, na França, e, no Brasil, aos filmes de Domingos de Oliveira".
"Romance" estréia em 14/11, em aproximadamente 70 salas, segundo o distribuidor Rodrigo Saturnino Braga (Columbia). Antes, tem exibição na Mostra de São Paulo.


