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14/10/2008 - 02h31

Novos elementos transformam quadrinhos online em "nova arte"

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CRISTINA LUCKNER
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Nem nanquim, nem papel. A nova geração de HQs utiliza-se de outros recursos. É como se um iluminismo digital surgisse, e um Rousseau cibernético declarasse: "as HQs nasceram puras e a internet as corrompeu".

Para Anselmo Gimenez Mendo, 42, autor do livro "História em Quadrinhos: Impresso vs. Web", com a popularização da internet, criou-se uma nova forma de se fazer quadrinhos. "A internet ajudou a criar uma nova arte", explica.

Os quadrinhos já haviam se apropriado da rede, até como uma alternativa a meios de distribuição e publicação. "A internet mudou o mercado", afirma Amauri de Paula, 33, editor do site Acervo HQ e presidente da Associação Cultural Nação HQ. No Acervo HQ, 70% dos trabalhos são especialmente desenvolvidos para a web.

Scott McCloud, 48, cartunista norte-americano e autor de livros sobre quadrinhos, diz que mais do que ter modificado a forma de produção de HQs, há mais oportunidades para os artistas e interação autor-leitor na internet. "A tela é uma janela, é mais do que uma página. As possibilidades são enormes."

As idéias de McCloud publicadas no livro "Reinventing Comics" (2000) --que analisa o potencial dos quadrinhos online-- foram consideradas "perigosas" por críticos. "Minhas idéias são estranhas e inusitadas e na época isso chateou muita gente. Continuo achando que há potencial para uma revolução nesse mercado."

Uma de suas publicações mais recentes --os quadrinhos do Google Chrome-- foi pensada especificamente para ser impressa, mas ficou muito popular na internet. "Irônico, não?", insinua McCloud.

Novos elementos

Alguns elementos diferenciam as HQs feitas para a internet das para versão impressa. "Animação, diagramação dinâmica, trilha e efeitos sonoros, tela infinita, narrativa multilinear, interatividade", enumera Edgar Silveira Franco, 37, autor do livro "HQtrônicas: do Suporte Papel a Rede Internet".

Para Franco, entusiasta das HQs eletrônicas (ou HQtrônicas, como prefere chamá-las), esse é um momento de "transição". "As HQtrônicas tiveram um período de muita experimentação no seu início e agora já começam a se aperfeiçoar."

Profecia

"A internet se tornou necessária para os quadrinistas mostrarem seu trabalho. Alguns alcançam boa repercussão e conseguem, por meio da divulgação virtual, trabalhos no mundo real", analisa Paulo Ramos, 36, editor do Blog dos Quadrinhos.

Foi assim para o desenhista Fábio Yabu, 29. Ele fez parte dessa geração inicial com os quadrinhos "Combo Rangers", sucesso na rede que chegou a ganhar versão impressa. "Fazia por diversão", conta. O site esteve no ar de 1997 a 2003.

Em 2005, Elias Martins, 30, e C.George, 36, também começaram a fazer quadrinhos para web. As HQs do ae comics foram criadas, escritas e produzidas por eles.

A dupla que fez história com as HQs eletrônicas diverge sobre os rumos dessa arte. "Sou radical. Como as HQs vão se adaptar à internet vai decidir a função dos quadrinhos e até sua própria existência", diz C.George. Para Martins: "É inevitável que apareçam novas formas de se ler e fazer quadrinhos, como para celulares".

Sobre o futuro, voltemos ao profético McCloud: "o processo de se fazer histórias em quadrinhos está na imaginação e isso nunca vai mudar".

 

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