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Ilustrada
20/10/2008 - 09h36

"Noite Luz" submerge na solidão da cidade

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PEDRO CIRNE
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Uma cidade grande tem, sempre, muitas histórias. Algumas estão ao alcance de todos, mas outras jazem meio escondidas, silenciosas, e é preciso prestar atenção para poder reparar nelas.

Em seu primeiro livro solo (ele já participou de coletâneas como "Front" e "Graffiti 76%"), o quadrinista brasileiro Marcelo d´Salete apresenta seis exemplos dessas histórias urbanas e sombrias.

Reprodução
Cenas de "Noite Luz", de Marcelo d'Salete
Cenas de "Noite Luz", de Marcelo d'Salete

"Noite Luz", o livro, traz HQs ambientadas em uma cidade grande que não é definida e que têm em comum o ambiente. As histórias acontecem em um bairro de classe baixa onde fica a boate Noite Luz, que dá título ao livro. É nessa região que pessoas comuns protagonizam suas histórias cotidianas, que passam por desemprego, amor, decepção, medo e decisões difíceis.

"Havia um campo de histórias que não aparecia nas HQs que eu conhecia: a cultura urbana, inclusive os subgrupos dentro de uma metrópole", conta Salete. "Há muito o que fazer dentro desse campo."

As histórias foram criadas de 2002, quando a primeira HQ dessa série foi publicada em uma edição da "Front", até o ano passado. "Dentro dessa época, eu me interessei por muitas coisas, e isso me influenciou", diz Salete. "São histórias feitas em momentos bem distintos."

Os personagens de "Noite Luz" são mais do que só moradores de uma cidade grande. Parecem ser habitantes de longa data que já incorporaram características da região em que moram. São, em sua maioria, solitários, fechados, às vezes sombrios, que enfrentam problemas como violência, desemprego e falta de comunicação.

Os contos de Salete são propositalmente "silenciosos" --há pouco uso de palavras. Os personagens são quietos, e a narração é mínima. "Exige um pouco de atenção e calma para construir a narrativa na cabeça", diz o quadrinista.

Há a preocupação em não deixar o enredo "mastigado" para o leitor. "O que eu acho que a imagem tem de mais forte é o poder da sugestão", afirma Salete. "Por isso eu subtraio o texto. A cena deve valer por si e deixar que o leitor leia nas entrelinhas."

Em um dos contos, um menino vê seu amigo ser assassinado porque "dívida é dívida". Arrasado, volta para casa e, em vez de ser consolado pelos pais, é expulso do lar por "andar com trombadinha".

Não é um bom mote para uma HQ de humor, infantil ou de super-herói, mas cabe bem para uma história em quadrinhos que busca retratar o clima de uma metrópole.

 

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