Para artistas, pavilhão deve ser repensado
FABIO CYPRIANO
da Folha de S.Paulo
Afinal, há de fato uma crise nas bienais e, mais especificamente na Bienal de São Paulo, ou trata-se de um problema circunscrito, de gestão, e a "Bienal do Vazio" estaria apenas mascarando essa crise? "Crise? Acho que isto não afeta a Bienal de São Paulo porque ela ocupa um lugar histórico único que São Paulo e o Brasil não devem perder de vista", diz o curador Paulo Sergio Duarte.
Artistas e curadores ouvidos pela Folha não são consensuais em relação a uma crise de bienais, mas são consensuais no que diz respeito ao particular: "A Bienal de São Paulo tal como existe é uma instituição desqualificada", diz o curador Paulo Venancio Filho.
"A nossa crise específica é de gestão, a Bienal de São Paulo não foi capaz de criar um modelo de financiamento independente e transparente", diz o curador Luiz Camillo Osorio, um dos responsáveis pela mostra "MAM, 60", na Oca.
Para superar essa "crise", Solange Farkas, diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, propõe que a instituição tenha que "justificar e aprovar seu projeto diante de representantes da sociedade, de setores como educação e cultura".
"A crise não é da arte, é da instituição", diz ainda Marcio Doctors, que opina no mesmo sentido de Ana Maria Tavares: "A arte vai muito bem, obrigada". Para Tavares, que inaugura amanhã mostra na galeria Vermelho, "não há porque não fazer uma Bienal ou deixar de reconhecer sua importância. Todos nós precisamos dela, inclusive o governo, se souber entender o significado e o poder da cultura para o país".
A responsabilidade do poder público também é lembrada pelo curador do Masp, Teixeira Coelho. Para ele, a crise tem como um dos motivos "a falta de suficiente apoio do poder público, que ainda por vezes a assedia numa anacrônica disputa pelo controle da cultura, não raro de caráter ideológico."
Espaço
Também é consenso entre os entrevistados a necessidade de se repensar o uso do espaço no pavilhão, um dos temas de "Em Vivo Contato", que busca nem mesmo usar paredes para a mostra. Segundo Beatriz Milhazes, em cartaz na Estação Pinacoteca, "é pouco humano organizar uma mostra para um espaço dessa proporção".
Outra artista também em cartaz na cidade, na galeria Brito Cimino, Regina Silveira, repensa o espaço de forma um pouco mais radical: "Tenho pensado que se deveria terminar com a relação tão fechada e determinante que a Bienal mantém com aquele edifício de Niemeyer, um misto de cubo branco e grande vitrine que sempre afeta o seu conteúdo, sejam desfiles de moda, carros ou arte contemporânea."
E como pensar a crise das bienais em São Paulo? Para o curador Moacir dos Anjos, "esse desafio tem sido enfrentado desde as duas últimas edições, com o fim do núcleo histórico e das representações nacionais".
Não deixa de ser mesmo curioso que, nesta edição da Bienal, que pretende repensar o modelo, várias propostas da edição passada, chamada "Como Viver Junto", estejam sendo usadas, como as residências artísticas, os encontros e seminários paralelos e a inserção de artistas em publicações.
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