21/07/2004
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05h05
crítica da Folha
Morreu ontem Antonio Gades, o mais célebre dos bailarinos e coreógrafos espanhóis de sua geração. Aos 67, Gades estava hospitalizado há semanas num hospital em Madri, devido a um câncer (não divulgado o tipo) que se manifestava há anos.
Antonio Esteve Ródenas nasceu em 1936, em Elda, província de Alicante. Sua dança deixou marcas inesquecíveis em quem o viu: uma sensação fortíssima de inquietude e brio. Seus passos foram imortalizados nas telas por Carlos Saura, em "Bodas de Sangue", "Carmem" e "Amores Bruxos". O corpo magro pulsa no ritmo intenso dos pés, numa dança carregada de energia, que sobrepuja a técnica. No flamenco de Gades, valem os encantos populares revitalizados, do flamenco como dança do fogo, que acende e consome as paixões.
Gades começou a trabalhar cedo para pagar seus estudos de dança. De 1952 a 61 foi bailarino da companhia de Pilar Lopez, que seguia os passos da famosa La Argentinita, unindo elementos do folclore espanhol com técnicas de balé e teatro. Completou sua formação na Itália, com Anton Dolin, e foi convidado pelo compositor Gian Carlo Menotti para participar em Spoleto do Festival de Balé, onde dançou numa produção da ópera "Carmem".
De volta à Espanha, dança no cabaré Los Tartantos, em Barcelona, e se torna coqueluche dos intelectuais catalães (entre eles o pintor Joan Miró e o poeta Joan Brossa), que lhe incitam a se apresentar na Exposição Universal de Nova York em 1964.
Foi o começo de sua consagração, coroada numa trilogia coreografada e estrelada por ele (com a bailarina Cristina Hoyos): "Bodas de Sangue" (73), "Carmem" (83) e "Amores Bruxos" (86). As adaptações cinematográficas, feitas por Saura, renovariam o interesse pela dança flamenca. Gades montou e dirigiu o Balé Nacional da Espanha, de 1978 a 80, quando criou sua própria companhia.
Em 2003, o Balé Nacional apresentou no Brasil "Fuenteovejuna", que já havia sido apresentada aqui pela companhia de Gades em 1995. Em entrevista à Folha, Gades afirmou que "nunca quis inventar uma dança". Era, isto sim, "uma questão de visão. Sinto o flamenco de uma forma severa, mais sombria que outros artistas. Cultivo o silêncio e a concentração, talvez isso faça a diferença nas minhas coreografias".
Em "Bodas de Sangue", a dança flamenca se torna a expressão de sentimentos simples e elementares, teatralizados em seqüências de dança que recriam a ambiência de um casamento popular. O tema da família dividida, em contraponto com uma guerra civil, define dramaticamente a trama, cujo emblema corporal é a batida desafiadora do pé no chão.
Também a ópera "Carmem", de Georges Bizet (1838-75), foi montada por Gades como um retorno à origem popular da história. Feita de contrastes de sombra e luz, a peça alterna tragédia, paródia e humor, num espírito barroco. Gades reinventa o mito de Carmem, com atualizadas doses de sensualidade.
Gades elimina o supérfluo: a essência das coisas vêm à tona, num sentido quase literal. Reinventada por Gades, essa dança tem agora uma nova introversão, que se concentra no dinamismo do sapateado, ecoando nos braços e nos movimentos de rotação do corpo. É o canto que define e orienta os matizes da dança, da mais ligeira à mais grave, da mais picante à mais sombria e fatal. Toda uma rede de tensões amorosas se faz ver na tensão angulosa dos gestos, acentuados por afetos incompreensíveis, controladamente descontrolados.
O mínimo que se pode dizer, em suma, é que Gades foi um dos principais responsáveis pela evolução moderna da dança flamenca. E este flamenco não é mais da Espanha, ou não só: recriado por ele, pertence agora ao imaginário de todos nós, onde se encarna para sempre a figura do bailarino.
Especial
Arquivo: veja o que já foi publicado sobre Antonio Gades
Aos 67, Antonio Gades morre na Espanha
INÊS BOGÉAcrítica da Folha
Morreu ontem Antonio Gades, o mais célebre dos bailarinos e coreógrafos espanhóis de sua geração. Aos 67, Gades estava hospitalizado há semanas num hospital em Madri, devido a um câncer (não divulgado o tipo) que se manifestava há anos.
Antonio Esteve Ródenas nasceu em 1936, em Elda, província de Alicante. Sua dança deixou marcas inesquecíveis em quem o viu: uma sensação fortíssima de inquietude e brio. Seus passos foram imortalizados nas telas por Carlos Saura, em "Bodas de Sangue", "Carmem" e "Amores Bruxos". O corpo magro pulsa no ritmo intenso dos pés, numa dança carregada de energia, que sobrepuja a técnica. No flamenco de Gades, valem os encantos populares revitalizados, do flamenco como dança do fogo, que acende e consome as paixões.
Gades começou a trabalhar cedo para pagar seus estudos de dança. De 1952 a 61 foi bailarino da companhia de Pilar Lopez, que seguia os passos da famosa La Argentinita, unindo elementos do folclore espanhol com técnicas de balé e teatro. Completou sua formação na Itália, com Anton Dolin, e foi convidado pelo compositor Gian Carlo Menotti para participar em Spoleto do Festival de Balé, onde dançou numa produção da ópera "Carmem".
De volta à Espanha, dança no cabaré Los Tartantos, em Barcelona, e se torna coqueluche dos intelectuais catalães (entre eles o pintor Joan Miró e o poeta Joan Brossa), que lhe incitam a se apresentar na Exposição Universal de Nova York em 1964.
Foi o começo de sua consagração, coroada numa trilogia coreografada e estrelada por ele (com a bailarina Cristina Hoyos): "Bodas de Sangue" (73), "Carmem" (83) e "Amores Bruxos" (86). As adaptações cinematográficas, feitas por Saura, renovariam o interesse pela dança flamenca. Gades montou e dirigiu o Balé Nacional da Espanha, de 1978 a 80, quando criou sua própria companhia.
Em 2003, o Balé Nacional apresentou no Brasil "Fuenteovejuna", que já havia sido apresentada aqui pela companhia de Gades em 1995. Em entrevista à Folha, Gades afirmou que "nunca quis inventar uma dança". Era, isto sim, "uma questão de visão. Sinto o flamenco de uma forma severa, mais sombria que outros artistas. Cultivo o silêncio e a concentração, talvez isso faça a diferença nas minhas coreografias".
Em "Bodas de Sangue", a dança flamenca se torna a expressão de sentimentos simples e elementares, teatralizados em seqüências de dança que recriam a ambiência de um casamento popular. O tema da família dividida, em contraponto com uma guerra civil, define dramaticamente a trama, cujo emblema corporal é a batida desafiadora do pé no chão.
Também a ópera "Carmem", de Georges Bizet (1838-75), foi montada por Gades como um retorno à origem popular da história. Feita de contrastes de sombra e luz, a peça alterna tragédia, paródia e humor, num espírito barroco. Gades reinventa o mito de Carmem, com atualizadas doses de sensualidade.
Gades elimina o supérfluo: a essência das coisas vêm à tona, num sentido quase literal. Reinventada por Gades, essa dança tem agora uma nova introversão, que se concentra no dinamismo do sapateado, ecoando nos braços e nos movimentos de rotação do corpo. É o canto que define e orienta os matizes da dança, da mais ligeira à mais grave, da mais picante à mais sombria e fatal. Toda uma rede de tensões amorosas se faz ver na tensão angulosa dos gestos, acentuados por afetos incompreensíveis, controladamente descontrolados.
O mínimo que se pode dizer, em suma, é que Gades foi um dos principais responsáveis pela evolução moderna da dança flamenca. E este flamenco não é mais da Espanha, ou não só: recriado por ele, pertence agora ao imaginário de todos nós, onde se encarna para sempre a figura do bailarino.
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