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21/07/2004 - 09h14

Will Eisner investiga a vida e a morte de uma metrópole

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DIEGO ASSIS
da Folha de S.Paulo

Nascida em Nova York, em 1870, descendendo de holandeses, ingleses, irlandeses e italianos, Dropsie foi testemunha dos principais acontecimentos do século 20: viu as casas surgirem, a eletricidade chegar e os trilhos de trem sendo erguidos; sobreviveu ao crash de 1929, às duas guerras mundiais e ao fiasco no Vietnã. Cem anos depois, sucumbiu à especulação imobiliária. Dropsie era uma avenida.

Personagem principal da história em quadrinhos homônima de Will Eisner, 87, o endereço fictício de um nem tão fictício assim bairro do Bronx, onde nasceu o autor, acaba de ser transportado para o Brasil pela editora Devir, que lança a obra, originalmente de 1995, pela primeira vez no país.

"Avenida Dropsie: A Vizinhança" vem somar-se a outras novelas gráficas de Eisner, como "Contrato com Deus", "O Edifício" e "Nova York", que têm a cidade, e não apenas os seus moradores, como protagonista da história.

O assunto, longe de ser um mero artifício estilístico, é também tema do debate "Will Eisner e a Arquitetura nos Quadrinhos", que a editora promove amanhã, na Fnac Paulista, com a presença do professor da USP Waldomiro Vergueiro, dos quadrinistas Lourenço Mutarelli e Gualberto Costa e do jornalista Sidney Gusman.

"Tentei narrar a vida e o envelhecimento de uma vizinhança", disse o autor à Folha, por telefone. "Todas as grandes cidades do mundo passam por isso. Estão em um movimento constante, sempre crescendo e mudando."

Assim, ao longo de 176 páginas de quadrinhos, acompanhamos não só a evolução --e a conseqüente destruição-- dos edifícios da avenida Dropsie, mas também a sua ocupação por diferentes grupos étnicos e sociais.

A intolerância, claro, não tarda. "A grande questão entre pessoas que vivem em uma área populosa, como uma cidade, é disparada por um conflito em geral baseado em diferenças religiosas, étnicas ou econômicas", destaca o artista. "As soluções políticas não têm que vir para resolver um medo imediato. Precisa de bases mais duradouras. É um assunto de educação social, realmente."

Conflitos? A avenida Dropsie é repleta deles: "malditos ingleses", para os holandeses; "novos ricos que não se enxergam", dos ingleses sobre os irlandeses; estes não aceitam a chegada dos "chucrutes" alemães, que também não toleram os "carcamanos" italianos; por sua vez, avessos a judeus, negros e latinos...

"Os imigrantes são parte da estrutura dos Estados Unidos. No início, sua chegada era encorajada. Mas, depois de um tempo, as pessoas se estabeleceram e começaram a se preocupar com o que os próximos imigrantes supostamente poderiam lhes tirar", afirma Eisner, ele próprio filho de um imigrante austríaco e de uma mãe nascida no navio que transportava sua família ao Novo Mundo.

Criado num cortiço do Brooklyn, em NY, Eisner fez sua estréia nos quadrinhos em 1936, desenhando tiras para jornais americanos. Três anos mais tarde, após recrutar ilustres desconhecidos como Bob Kane e Jack Kirby --nomes que mais tarde viriam a ser considerados "monstros" dentro do gênero de super-heróis--, o artista criou o detetive Spirit, publicado até a década de 60, e até hoje um de seus mais reconhecidos personagens.

Em seguida, já no final da década de 70, cunhou o termo arte seqüencial para diferenciar as tão antigas quanto banalizadas tiras de quadrinhos de humor, os "comics", de um gênero que só então começava a tomar forma: narrativas complexas e de temática adulta ilustradas com desenhos e balões de diálogos.

Em 1978, assinou "Contrato com Deus", considerada oficialmente a primeira graphic novel moderna, ambientada nos anos 30 e assumidamente autobiográfica. "Só escrevo sobre aquilo que conheço." E muito bem.

AVENIDA DROPSIE: A VIZINHANÇA
Autor:
Will Eisner
Editora: Devir
Quanto: R$ 35, em média (176 págs.)

Mesa-redonda com o tema "Will Eisner e a Arquitetura nos Quadrinhos"
Quando:
amanhã, às 19h
Onde: Fnac Paulista (av. Paulista, 901, SP, tel. 0/xx/11/2123-2000)
Quanto: entrada franca

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