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29/10/2008 - 08h27

Jesus and Mary Chain promete mesclar todos os discos em show no Brasil

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THIAGO NEY
da Folha de S.Paulo

Você sabe que as coisas mudaram quando um dos músicos mais problemáticos, instáveis e irritados do rock pede desculpas por estar acordando. São 14h em Los Angeles, e William Reid atende o telefone com um bocejo. Se essa ligação tivesse ocorrido há 10, 15 anos, ele teria provavelmente atirado o telefone na parede.

"Desculpe, esqueci que tinha essa entrevista e ainda estou meio dormindo", diz o guitarrista do Jesus and Mary Chain, banda que desenha melodias perfeitas a partir de distorções barulhentas com guitarra.

Divulgação
A banda Jesus and Mary Chain, que se apresenta no festival Planeta Terra, em São Paulo, no próximo dia 8
A banda Jesus and Mary Chain, que se apresenta em São Paulo no próximo dia 8

William criou o Jesus and Mary Chain com o irmão, Jim (vocalista), em 1984, na Escócia. A banda existiu até 1998, quando William brigou com o irmão no meio de um show em Los Angeles e saiu do palco.

No ano passado, reuniram o grupo e voltaram a fazer shows, entre eles um no Coachella Festival, na Califórnia. Daqui a alguns dias, em 8 de novembro, os irmãos vêm ao Brasil, como atração do Planeta Terra, em São Paulo, ao lado de nomes como Bloc Party, Breeders e Kaiser Chiefs, entre outros.

A relação dos irmãos Reid entre eles mesmos, com outros músicos e com a imprensa é das mais turbulentas do rock. Ganharam destaque na mídia britânica em meados dos anos 80 por fazerem shows que duravam cerca de 10, 15 minutos, muitos deles virados de costas para o público. Vários desses shows terminaram em confusão generalizada e equipamentos destruídos.

Requisitados para entrevistas, costumavam zombar dos jornalistas ou responder às questões de forma lacônica. Pouca gente agüentava o humor dos irmãos Reid, tanto que o JAMC está centrado neles --a banda troca constantemente de baterista e baixista. Nem eles se suportam --pelo menos, não se suportavam. "Nós envelhecemos, a vida muda. Tivemos filhos. Não há mais tantas razões para brigar", conta William à Folha.

A boa relação entre os irmãos foi fundamental para a reunião da banda, em 2007. "Voltamos porque era a hora certa. Depois de todos esses anos, voltamos a nos dar bem e pensamos que seria uma boa idéia voltar a tocar juntos e a gravar um novo disco." Sobre esse novo álbum, ele diz já ter "quase um disco inteiro pronto" e que pretendem lançá-lo no ano que vem.

Velvet e Beach Boys

Apaixonados por Velvet Underground e Beach Boys, os irmãos Reid criaram uma música única ao unir a aspereza e a urbanidade do primeiro com o senso melódico do segundo.

Com "Psychocandy", o primeiro disco, de 1985, influenciaram toda uma leva de bandas, como My Bloody Valentine, Sonic Youth e Primal Scream. "Darklands" (1987), "Honey's Dead" (1992) e mesmo "Munki", de 1998, quando muitos não acreditavam mais no JAMC, são discos preciosos.

A influência do JAMC é latente no rock feito hoje: os ruídos e distorções característicos da música dos irmãos Reid podem ser ouvidos no Black Rebel Motorcycle Club, no Raveonettes ou mesmo no Interpol. Questionado sobre as bandas atuais, William diz que é fã mesmo do desconhecido grupo Republic of Letters.

Sobre o retorno ao Brasil (a banda já tocou aqui em 1990), o guitarrista afirma que a apresentação será baseada em músicas de todos os discos da banda. E, aqui, não deverão tocar de costas para o público. "Fazíamos isso no passado porque queríamos sentir o feedback dos amplificadores [de guitarra]", explica.

No Coachella, os irmãos Reid tiveram a companhia de Scarlett Johansson, que fez vocal de apoio na canção "Just Like Honey". "Ligamos para ela e perguntamos se gostaria de cantar com a gente. Ela esteve naquele filme em que tinha uma música nossa... [o filme é "Encontros e Desencontros", de Sofia Coppola, e a música que encerra o longa é "Just Like Honey']"

"O mais importante é criar uma boa canção", diz William, sobre as composições da banda. "Escrevo com violão porque, se ela ficar boa no violão, ficará boa com uma guitarra." E, após um bocejo, se desculpa novamente por estar acordando.

 

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