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Ilustrada
30/10/2008 - 09h05

Série "Ó Pai, Ó" estréia na sexta-feira com o Bando de Teatro Olodum

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo

Em 2000, o ator Lázaro Ramos deixou o regime de dedicação exclusiva a seu grupo de teatro em Salvador, o Bando de Teatro Olodum, para encenar a história de um jovem que traz o mundo aos pés da amada para que ela não parta --"A Máquina", peça que o lançaria à fama.

Márcio Lima/Divulgação
Cena da montagem de "Sonho de uma Noite de Verão" pelo Bando de Teatro Olodum
Cena da montagem de "Sonho de uma Noite de Verão" feita pelo Bando de Teatro Olodum

Seis anos depois, trilhou a rota inversa: com o filme "Ó Paí, Ó" (baseado em peça homônima que o Olodum montara em 92), levou o Bando ao mundo.

O reencontro se estende à TV a partir de sexta-feira (31), quando estréia na Globo (às 23h20) a série em seis episódios "Ó Paí, Ó". No programa, Lázaro e os antigos companheiros de palco atualizam o cotidiano dos habitantes de um cortiço à la "Balança, mas Não Cai" do Pelourinho, no centro histórico da capital baiana.

Muito mudou por ali desde a concepção dos personagens, nos anos 90: "A série já traz esse Pelourinho de mercado, mais prostituído, onde foi feita uma limpeza étnica. Os moradores, que eram a vida daquele lugar, foram expulsos, e se criou uma Disneylândia colonial para turista", diz Marcio Meirelles, co-criador e diretor do Bando, que iniciou a preparação do grupo para a série, mas se afastou do projeto ao assumir a Secretaria de Cultura do Estado.

Com 18 anos de estrada e quase 25 montagens no currículo, o Bando vai bem além de "Ó...". Já visitou Büchner ("Woyzeck"), Heiner Müller ("Medeamaterial"), Brecht ("Ópera dos Três Mirréis") e Cervantes ("Um Tal de Dom Quixote"), sempre buscando interfaces com ritos, danças e ritmos da cultura negra -matriz de todos os integrantes.

No Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, cuja primeira edição termina amanhã, o coletivo mostrou sua reinvenção em technicolor de "Sonho de Uma Noite de Verão", de Shakespeare. A peça integra, com "Ó...", "Áfricas" e "Cabaré da Rrrrraça", a mostra de repertório que a companhia faz no Rio, em novembro.

Polêmica

De 97, "Cabaré" marcou uma virada na dramaturgia do Bando, até então voltada para figuras marginalizadas. "Cheguei para o elenco com a pergunta: qual é o personagem que pode aparecer na revista "Raça" que você gostaria de fazer? Pela primeira vez, mostrávamos a moda, o glamour, um novo negro brasileiro", lembra Meirelles.

À época, a decisão do grupo de oferecer meia-entrada a negros causou celeuma: "Virou um escândalo nacional, mas gerou exatamente o que queríamos: aumentar o número de pessoas negras na platéia de teatro na Bahia. Havia uma pesquisa que indicava que, naquele período, somente 1% do público de teatro baiano era negro, ainda que 80% da população de Salvador fosse dessa raça. Hoje, temos quase 60% de platéia negra", diz o diretor.

Para ele, esse descompasso tinha a ver com a dificuldade da população negra em se ver refletida em cena. Daí o estímulo para fundar o Bando: "Sentia um grande vazio de representação negra no palco brasileiro. As religiões de matriz africana são tão ricas cenicamente e dramaturgicamente que me perguntava por que isso nunca virara teatro. O rito do candomblé, as festas em homenagem aos orixás são, tirado o caráter sagrado, espetáculos."

Essa matéria-prima, no processo de criação da companhia, dá origem a improvisações do elenco, que deságuam em personagens e cenas mais tarde editados por Meirelles. Na preparação para a peça "Ó, Paí, Ó", em 91, a fórmula quase desandou. "O elenco brigou comigo, disse que estava louco, que queria ridicularizá-los", recorda Meirelles. Mais um pouco e o mundo não via o Bando.

 

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