"A gente deu uma cansada de leve", diz Marcelo Camelo
WANDERLEY PREITE SOBRINHO
da Folha Online
O primeiro álbum solo do cantor e compositor Marcelo Camelo, "Sou", foi lançado há menos de um mês e já causa histeria entre os fãs do ex-vocalista dos Los Hermanos.
Com show marcado para São Paulo no Citibank Hall no final do mês, ele disse em entrevista à Folha Online que não gostou de sua apresentação no Tim Festival no mês passado e que pouco se importa se o novo trabalho é MPB ou rock.
| Sidinei Lopes/Folha Imagem |
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| Marcelo Camelo em apresentação no Tim Festival. Para ele "o pior show da turnê" |
Ele disse ainda que não gosta de literatura, que sua vida não é planejada e que a volta dos Los Hermanos é incerta. "Eu não consigo planejar nem o que eu vou jantar", disse.
Leia abaixo a entrevista.
Folha Online - Em seu primeiro show em Recife, os fãs ficaram histéricos. Choraram e cantaram todas as músicas do seu álbum solo. Isso te surpreendeu de alguma forma?
Marcelo Camelo - Eu sinceramente estava com uma expectativa totalmente em aberto. Não sei se me surpreendeu ou não. Fui limpo porque era o primeiro show desse repertório, mas as reações ainda variam de lugar para lugar. Em alguns lugares as pessoas optam por não cantar, preferem uma análise mais contemplativa.
Folha Online - Como você avalia a relação dos fãs com os Los Hermanos? Para alguns a banda é quase uma religião.
Camelo - Eu não consigo enxergar com essa frieza analítica. Essa parada não diz muito. Nossos fãs são chatos: se eles não gostam, eles falam. Não é uma fidelidade cega. Há uma identificação com as letras, melodia que se refaz a cada palavra, a cada nota. Se elas já carregam pela gente alguma estima, eles esperam que a gente esteja presente.
Folha Online - A crítica não foi unânime ao avaliar seu disco. Alguns dizem que ele ficou MPB demais.
Camelo - É muito plural a opinião do ser humano. Eu tenho muito respeito ao poder de cognição de alguns de nós. Tem gente que não se identifica [com a minha música] mesmo. Acho que tem a ver com nossa diferença social. Tem gente que acha que é a cara do Brasil ter uma música bunda mole. Tem quem ache que no Brasil se faz essa música dolente porque o país é subserviente, e que o rock, por ser mais contestador, imprime mais combatividade.
Folha Online - Mas você está mais MPB?
Camelo - Sei lá. Não ligo. Não estou nem aí pra isso.
Folha Online - Qual a importância de fazer um disco totalmente diferente do seu trabalho no Los Hermanos?
Camelo - A diferença principal foi o espírito que dá para empreender em um disco solo. Chamar as pessoas de acordo com seu interesse. Comigo foi assim: eu só chamei quem eu acho legal. Foi quase sem pensar.
Folha Online - Essa mudança de rota não te faz ter medo de perder fãs?
Camelo - Eu faço música para me entreter como ouvinte mais do que como executor. É lógico que eu me importo [com os fãs], é com isso que eu pago meu aluguel. Mas "pagar o leitinho das crianças" nunca vai ser a desculpa para eu fazer música. É algo que eu preciso pra respirar. Mas eu me preocupo um pouquinho.
Folha Online - Seu show no Tim Festival foi considerado morno. Você concorda com isso?
Camelo - Eu não gostei também. Foi o pior show de toda a turnê. A gente tocou bem, mas o show acontece com a platéia e o artista. Lá se configurou uma situação que não foi favorável. Foi pouca gente, não sei o que aconteceu porque disseram que os ingressos estavam esgotados. Foi o único show que não foi legal na turnê. Não chegou aos pés dos outros porque o show vai girando em torno das pessoas.
Folha Online - Então o que você espera do show em São Paulo no Citibank Hall?
Camelo - Eu espero que as pessoas que gostavam dos Hermanos e gostaram do meu disco possam ir e se divertir.
Folha Online - Mas você acha que esse show vai ser diferente do Tim Festival?
Camelo - Tenho total certeza. É um pouco menos prazeroso tocar as músicas quando você sabe que quem está te olhando está com expectativa diferente. A esperança, o meu querer é para que as pessoas estejam lá para curtir.
Folha Online - Você pretende tocar músicas dos los Hermanos?
Camelo - Pode ser. O repertório é muito solto, não tem obrigação de nada.
Folha Online - Você ouviu o disco do Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti (Strokes) pelo Little Joy ?
Camelo - Sim e gostei muito.
Folha Online - Mas era o que você esperava de um trabalho do Amarante longe dos Los Hermanos?
Camelo - Pra mim é difícil responder isso. Não fico esperando do Rodrigo alguma coisa. Ouvi sem nenhuma expectativa. Fui ouvir querendo gostar. Achei lindo o disco.
Folha Online - O que você tem ouvido ultimamente?
Camelo - Eu gosto muito de um disco verdinho da Guiomar Novaes [1894 - 1979]. Ela é pianista. O Monteiro Lobato se inspirou nela para criar a Narizinho, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. [O disco homônimo da pianista foi lançado pela Som Livre em 2006.]
Folha Online - E o que você está lendo no momento?
Camelo - Não gosto muito de literatura não. Leio muito pela internet. Agora estou lendo a biografia do Albert Einstein.
Folha Online - O que te atraiu na biografia dele?
Camelo - Ele diz que o que ele faz não é um fato conclusivo, mas uma hipótese que ajuda a entender a realidade. Às vezes um instrumento fala mais sobre si do que sobre a música que está tocando.
Folha Online - E sobre esse projeto de música experimental: Imprevisíveis. Existe a pretensão de lançar um disco, fazer turnê?
Camelo - Não tenho muitas expectativas. Mas se tiver de ter um disco, então tem. Não discuto com destino, o que pintar eu assino.
Folha Online - O tempo dado ao Los Hermanos tem o objetivo estratégico de não cansar os ouvintes para voltar forte no futuro? Vocês planejam voltar?
Camelo - Eu não faço nada assim na minha vida. Eu não consigo planejar nem o que eu vou jantar. A gente está vivendo a vida de verdade. A gente deu uma cansada de leve. Não tem nenhum subtexto. Às vezes um cachimbo é só um cachimbo. É a vida vivida.
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