"Romance" expõe conflito entre a arte e a indústria
SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo
O diretor Guel Arraes ("Lisbela e o Prisioneiro", 2003) está de volta ao cinema com um filme que tem o amor como tema e a televisão como alvo de uma paródia e uma crítica.
Em "Romance", que estréia na próxima sexta-feira, o amor de Pedro (Wagner Moura) e Ana (Letícia Sabatella) começa a desandar quando ela se torna estrela de televisão. Os dois se conhecem numa montagem de "Tristão e Isolda", que Pedro dirige e em que interpreta Tristão. Danilo (José Wilker), diretor de uma importante emissora de TV, identifica o talento de Ana e a escala para "a novela das sete". Por razões que cabe ao espectador descobrir, esse é o começo do fim do casal.
| Renata Dillon/Divulgação |
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| Cena de "Romance" com Wagner Moura e Letícia Sabatella e o diretor, Guel Arraes; filme usa amor para questionar padrões |
O roteiro de "Romance" foi escrito a quatro mãos por Arraes, que é diretor de um núcleo dramatúrgico da TV Globo, e pelo cineasta Jorge Furtado ("O Homem que Copiava", "Saneamento Básico"), que também realiza trabalhos para a emissora. A Globo Filmes é co-produtora do título.
"Nesse embate entre arte e indústria, evidentemente a gente escolheu o artista para ser o herói", afirma Arraes.
No entanto, o diretor relativiza a batalha --"Que não existe só entre teatro e TV; existe no próprio teatro e na própria TV"-- e a vileza do antagonista. "Não acho o produtor tão vilão assim. Como produtor, eu entendo e me identifico."
Ao longo da trama, Danilo contrata Pedro para dirigir um especial de TV que adapte "Tristão e Isolda" ao ambiente do Nordeste. Ambos discutem, quando Danilo exige que se mude o final trágico da história.
Praga do realismo
"Não acho que esse diálogo [arte/indústria] seja só destrutivo. Ali, está exagerado. Mas acho que possa ser às vezes criativo, inclusive a discussão sobre o final de uma história", afirma Arraes. "Claro que ali [no filme] é ridículo discutir isso. Mas vi várias vezes histórias que o diretor terminou mal só para parecer profundo", diz.
Furtado diz que "Romance" alfineta a TV e o cinema brasileiro ao se opor ao realismo. "Há quase uma praga do realismo. Tudo é a vida como ela é, de verdade! Isso pode ser interessante, às vezes, mas, como regra é um empobrecimento."
Mas o que o filme de fato quer discutir é a vigência (ou não) de um ideal de relação nos padrões de Tristão e Isolda. "No início do amor, todos somos Tristão e Isolda. Mas, no mundo contemporâneo, a questão do desejo por um outro [externo ao casal] tem que ser incorporada de alguma forma", diz Arraes. Furtado concorda que a característica de "Romance" mais propensa a inquietar o espectador está "na idéia daquele cara cuja mulher está com outro e ele diz: 'Eu agüento! Já te perdi uma vez por ciúmes, não vou te perder uma segunda vez'".
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