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Ilustrada
11/11/2008 - 09h25

Milhares de registros de MPB chegam à internet

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SERGIO TORRES
da Folha de S.Paulo

Com o propósito de preservar --mesmo que a princípio só para ele e os amigos chegados-- um pouco da história cultural do Brasil, o compositor, escritor, produtor, diretor de espetáculos e pesquisador Hermínio Bello de Carvalho guardou em armários e gavetas um acervo de preciosidades que, agora, para espanto do próprio colecionador, estará disponível na internet.

O site www.acervohbc.com.br. entra na rede nesta terça-feira à noite. Traz mais de 10 mil itens armazenados por Hermínio nas seis últimas décadas. Com recursos do Programa Petrobras Cultural, o arquivo do múltiplo artista foi organizado, catalogado e digitalizado.

Reprodução
Hermínio (sentado à esq.), Nelson Cavaquinho (com o violão) e Zé Kéti (em pé) na casa de samba carioca Zicartola, em 1964
Hermínio (sentado à esq.) e Zé Kéti (em pé) na casa de samba carioca Zicartola, em 1964

Hermínio, 73, conta que, para poder consultar seu próprio acervo, terá que se adestrar na internet, ferramenta que afirma não dominar com precisão.

"Estou aprendendo com eles [os produtores do site]. Estão sendo colocadas em circulação coisas que eu, sinceramente, já não pensava que pudessem ser mostradas", diz Hermínio.

Uma das jóias do acervo é a reprodução, no original datilografado, da letra de Hermínio para uma melodia de Tom Jobim (1927-1994). Composta na casa em que o maestro morava em agosto de 1964, ambos estimulados por muito uísque, como lembra o letrista, a canção é absolutamente desconhecida. Não foi gravada e Hermínio não memorizou a melodia, não localizada até hoje nos arquivos de Tom.

"Essa melodia se perdeu. Mas isso já se passou comigo e com Cartola. Quando ele morreu [em 1980], tinha dado a letra de "Camarim". Tempos depois, numa fita deixada por Cartola, foi encontrada a música. Estava prontinha."

Da noitada de música e pileque participou até o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), possivelmente desperto pelo telefonema na madrugada. "Liguei para o Drummond a fim de apresentar o Tom a ele. Tom começou a dizer poemas de Drummond. Foi nessa noite que fizemos a canção, na euforia do uísque. E houve essa inconveniência de ligar para o Drummond", conta Hermínio.

O site

O site é dividido em itens de áudio, iconografia e texto. As gravações trazem registros caseiros de música e conversa, interpretações inéditas, shows e concertos que nunca viraram disco. São centenas de canções, com intérpretes de primeira linha, muitos já mortos --Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Donga, Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, João Nogueira. Entre os vivos, Paulinho da Viola, Elton Medeiros e João Bosco.

As fotografias servem como referência ao trajeto de Hermínio na cultura nacional. São centenas delas, que o mostram na companhia de dezenas de brasileiros e também da norte-americana Sarah Vaughan (1924-1990), que se tornou sua amiga quando visitou o Brasil.

O acervo reproduz desenhos, caricaturas e quadros pertencentes a Hermínio e assinados por artistas plásticos de destaque, como Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Nássara, Cássio Loredano, Chico e Paulo Caruso e Hermenegildo Sábat.

A área de texto divide-se em quatro: poesia, com trabalhos de Hermínio publicados em livros, inéditos e manuscritos originais; cancioneiro, com parte da obra musical em parceria com compositores como Cartola, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Paulinho, Elton, Sueli Costa, Ivone Lara, Martinho da Vila, Roberto Frejat, Ismael Silva e Ataulfo Alves; crônicas, ensaios e material jornalístico editados e inéditos escritos nos últimos 50 anos; e correspondência trocada com personagens como Drummond, Oscar Niemeyer, Isaurinha Garcia e Carlos Cachaça.

 

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