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20/08/2004 - 09h37

André Abujamra toma coragem e vira artista solo

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PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

Em 16 anos de carreira musical, André Abujamra, 39, nunca havia assinado um disco apenas com seu nome. Protegia-se dentro da dupla Os Mulheres Negras, da patota Karnak, do pseudônimo Fat Marley... Recém-lançado, "O Infinito de Pé" é o primeiro disco individual e autoral em que salta à frente, com todas as letras, o batismo André Abujamra.

O artista confessa a dificuldade que sentia de fazê-lo. "É muita responsabilidade, eu não tinha coragem, não. Era superinseguro, mas acho que a experiência de ter de conviver com outros caciques me fez ter a coragem de ser um pouco egoísta", desampara-se.

Segundo descreve, a oscilação da "coragem" está ligada a uma trajetória individual, extramusical. "As pessoas têm preconceito contra gordo, já sofri muito com isso. Agora que sou mais velho, tenho família, filhos e amigos, acho que já posso falar isso. Antes não tinha coragem nem de falar."

Para "O Infinito de Pé", Abujamra reivindica a retomada de um lado seu que vinha encolhido atrás da postura bonachona (o termo é dele) e da obrigação constante ao bom humor que construiu em seus trabalhos coletivos.

"No Karnak eu sofria para cacete, falava coisas que achava bonitas e neguinho achava que era só circo", explica.

"Artista faz cocô, é normal, tem problema. A gente fica vendo os artistas e parece que são normais --não são. Acho legal você se expor, mas talvez pela falta de coragem de fazer isso demorei tanto."

A defesa da necessidade de mirar mais o todo das coisas que seus pedaços ou partidos ele desnuda em "70%", em que vai desfiando que "todo cordeiro tem um pouquinho de lobo", "ninguém é só alegria", "todo golfinho tem um pouquinho de tubarão", sinceras provocações.

Aprofunda explicações sobre o que quer dizer ali: "A gente tem preconceito --contra preto, gordo, puta, veado. É impossível não ter, utopia. Mas defendo muito a falta de radicalidade. Dentro do que você odeia deve ter algo legal. Não gosto da música de Sandy & Junior, mas adoro eles".

Fornece o contra-exemplo: "Acho que o Jota Quest é uma banda muito boa, competente, faz um pop intenso. Mas eles estão sempre felizes, dá até angústia essa coisa de ter que ser só feliz".

A desobrigação da alegria que ele procura redunda, por exemplo, no profundo lirismo de "Elevador" --que, aliás, nem é só triste, nem mais triste que bela.

O produto principal das novas opções e posturas, no disco, é a quilométrica faixa de encerramento, "Curriculum". Ali, Abujamra faz algo bastante incomum em música popular: por longos minutos de canto-fala, conta toda a história de sua vida, expressa seus sentimentos, rememora fracassos e felicidades. De cuecas em frente ao computador (segundo relata ter criado e gravado a faixa), emociona e elabora um momento raro da música pop.

Ácido de doçura, diz que isso é aceitável na era dos "reality shows". Mas faz algo que é próximo do oposto da cultura dos shows de realidade: expõe-se para confessar seus sentimentos, não para ocultá-los. Refaz sua própria história --e faz história.

"O Infinito de Pé"
Avaliação:
Artista: André Abujamra
Lançamento: independente
Quanto: R$ 30, em média

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