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Ilustrada
24/11/2008 - 03h07

ILUSTRADA 50 ANOS: 1997 - Morte de Chico Science põe fim nos anos 90

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"Morte encerra os anos 90 no Brasil", assinado por Pedro Alexandre Sanches, foi publicado originalmente terça-feira, 4 de fevereiro de 1997.

A dimensão da morte de Chico Science não é menor que a de tragédia para o pop brasileiro, comparável, por exemplo, à morte precoce de Dolores Duran ou ao abandono da cena pelo mutante Arnaldo Baptista.

O acidente de Chico faz lembrar que os anos 90 já vão acabando. E que, no Brasil, eles se encerram com três anos de antecipação.

Outros vão ficar, é certo, mas o único movimento musical que se pôde produzir aqui desde a tropicália --e lá se vão 30 anos-- acaba de ser abruptamente abortado.

30.mar.1994/Frederico Rosário/Folha Imagem
Cantor Chico Science morreu devido a um acidente de carro em 2 de fevereiro de 1997
Cantor Chico Science morreu devido a um acidente de carro em 2 de fevereiro de 1997

Ficam Fred Zero Quatro e seu Mundo Livre S/A, mas agora com o fardo por demais pesado de sustentar sozinhos a utopia da mangue beat.

Com Chico Science se vai o pedaço mais comunicativo, mais marketeiro, mais disposto a dialogar com as belezas e mazelas do pop nacional daquilo que se convencionou chamar mangue beat --e que durou poucos três anos.

Por um curto lapso de tempo, nos parecia que finalmente o trem da música popular voltava aos trilhos. Finalmente alguém prestava homenagem à revolução tropicalista tentando superá-la, admitindo que ela era coisa do passado.

Por esparsos instantes, nos parecia que o Brasil se engajava no bonde da história e embarcava na modernidade da descentralização, no reconhecimento da virtude da inteligência fermentada numa cidade excêntrica como Recife, num país excêntrico como o Brasil.

Por um pouquinho de tempo, parecia que o futuro existia, que uma história começava a ser contada, que essa história ia ser longa e ia mudar --para melhor-- o sentido das coisas.

Agora, da lama ao caos, tornam-se ínfimas de novo quaisquer expectativas, quaisquer esperanças. A ordem no caos se restabelecerá, que convulsão e desordem nunca fizeram bem ao Brasil.

Os talentos emepebísticos brilharão, sem o perigo da inteligência, até que surja outro Science. E o gênio de Fred Zero Quatro, agora, vai ter que agüentar a solidão.

Repercussão

Gilberto Gil, cantor e compositor - "Era, de certo modo, um tropicalista, porque buscava conciliar a tradição com a vanguarda. Líder nato, possuía profundo senso de responsabilidade em relação à comunidade. Morreu da mesma maneira que meu filho (Pedro) e no mesmo dia, só que sete anos depois. Nunca imaginei que poderia sofrer um acidente de carro. Velocidade não se casa com a imagem que tinha dele. Achava-o dócil, manso, suave. Não passava sensação de pressa".

Fernanda Abreu, cantora - "É revoltante o que aconteceu. Ele tinha uma presença de palco incrível. Chico era o Mick Jagger do mangue beat. O Chico já era uma figura importante para a música brasileira, mas ainda iria se tornar muito mais importante. Ele tinha consistência. O mangue beat foi um movimento importantíssimo em Recife, presente na música, literatura, cinema e jornalismo".

Herbert Vianna, guitarrista dos Paralamas do Sucesso - "Estou arrasado. Desde que fizemos uma turnê juntos com Chico Science e Nação Zumbi na Europa, passamos a tocar 'Manguetown' em todos os shows. Para mim, era a melhor música do ano passado. Junto com Carlinhos Brown, Chico era o farol da nossa galera. Eram os caras que apontavam para a frente, e o resto de nós vinha atrás".

Alceu Valença, cantor e compositor - "O Chico fazia um bate-bola entre o maracatu, o rap e o funk. Era um grande artista, com uma presença de palco muito forte, líder indiscutível do movimento mangue beat. É horrível, uma perda inestimável".

Roberto Frejat, cantor e compositor do Barão Vermelho - "Desde a primeira vez que eu ouvi o trabalho do Chico fiquei surpreendido e envolvido. Sempre gostei dele, dessa mistura da cultura popular forte, como o maracatu e outros ritmos, e o pop. Vai ficar um vazio grande".

Marcelo Frommer, guitarrista dos Titãs - "Estou chocado. O Chico e o mangue beat trouxeram novidade em meio à banalização da música baiana. Ele fez uma releitura da cultura do nordeste, redimensionando-a como uma coisa rica".

Jorge Mautner, cantor e compositor - "Estou tristíssimo com sua morte. Vai deixar saudade".

Siba, integrante da banda Mestre Ambrósio - "Chico representa um momento especial de redescoberta dos valores culturais. Devemos a ele o fato de que hoje, em Recife, qualquer garoto que tem o desejo de seguir caminho pela música pode acreditar que esse caminho é viável".

Carla Perez, dançarina da banda É o Tchan - "Fiquei triste, mas não era muito fã dele. Ele criticava muito a música baiana e o É o Tchan".

 

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