ILUSTRADA 50 ANOS: 1999 - "Sinfonia da Ressurreição" abre Sala SP
"SP ganha sua Prima-dona", assinado por Cassiano Elek Machado, foi publicado originalmente quinta-feira, 8 de julho de 1999.
Amanhã, quando os ponteiros de 50 kg do relógio inglês do Complexo Cultural Júlio Prestes sinalizarem 20h, os 1.509 presentes, entre eles Fernando Henrique Cardoso, presidente da República, e Mário Covas, governador do Estado de São Paulo, estarão começando a participar de um ritual de ressurreição.
Morre um salão vazio de uma velha estação de trem, nasce uma das salas de concertos mais modernas do planeta. Com mil metros quadrados, a Sala São Paulo será inaugurada com a "Sinfonia nº 2", de Gustav Mahler, que não por acaso é apelidada de "Sinfonia Ressurreição".
O renascimento não é só do espaço que servia de sala de espera na antiga Estação Júlio Prestes. A protagonista do espetáculo, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, conhecida por Osesp, é ela mesma ressurrecta.
Criada em 1953, a orquestra foi recuperada de uma situação de semi-abandono em 1996, quando o maestro John Neschling recebeu o convite para assumir a diretoria artística da instituição.
Depois de praticamente receber respiração boca a boca de Neschling, a Osesp cresceu até o ponto de se tornar uma unanimidade inteligente. Críticos de todo o país já apontam a orquestra como a melhor do Brasil.
A sina da Sala São Paulo tende a ser a mesma. Russel Johnson, conhecido como o "Magic Johnson" do design de casas de concerto, responsável pelo projeto do conceituado Morton Meyerson Symphony Center de Dallas, esteve lá terça-feira para conferir.
"É uma das salas mais bonitas do mundo e tem todos os atributos para se transformar em uma das melhores musicalmente do mundo", disse à Folha.
Segundo o engenheiro norte-americano, os ajustes para atingir a acústica ideal devem durar pelo menos um ano. Assim como as orquestras, a sala também precisa de tempo para ser afinada.
A menina dos olhos da Sala São Paulo, se é que existem olhos no teto, é um forro móvel que, composto por 15 placas de aço, de 7,5 toneladas cada, permite diferentes arranjos. O volume do ambiente pode variar de 12 até 28 mil metros cúbicos, tornando possível desde um concerto com os 95 integrantes da Osesp até pequenos recitais de câmera.
Envolvendo outros números colossais, como 15 mil metros cúbicos de concreto, mil toneladas de aço e 4,5 mil toneladas de areia, a sala custou cerca de R$ 44 milhões e levou 18 meses a ser feita.
Com todos esses algarismos, o Governo do Estado de São Paulo pretende conseguir algo maior do que a ressurreição musical. O objetivo é que a sala, incrustada no Complexo Cultural Júlio Prestes, seja o foco de recuperação de todo o centro de São Paulo, em iniciativa que envolveu também, entre outras, a restauração da Pinacoteca do Estado.
Por enquanto, e não é pouco, SP ganha sua prima-dona, nome como se trata a cantora principal de uma ópera.
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