ILUSTRADA 50 ANOS: 1969 - O silêncio desce sobre Cacilda
"O silêncio desce sobre Cacilda" foi publicado originalmente domingo, 15 de junho de 1969.
Cacilda Becker faleceu ontem, às 10 h, no Hospital São Luís onde estava internada há 38 dias, precisamente desde 6 de maio, quando fora acometida por um derrame cerebral num dos intervalos de peça "Esperando Godot", na qual fazia o papel principal. A noticia de sua morte provocou intensa comoção nos meios teatrais de todo o país e manifestações de pesar do governador Abreu Sodré e do prefeito Paulo Maluf. O corpo de Cacilda Becker --que nasceu em Piraçununga, há 48 anos-- está sendo velado na capela dos dominicanos, para onde foi levado às 14 h. Seu sepultamento será realizado hoje, às 11 h, no Cemitério do Araçá.
| Divulgação/Folha Imagem |
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| A atriz Cacilda Becker em cena da peça "Antígona", em 1952 |
Uma vida para o teatro
- Zimba, nós vamos ter um trabalho infernal.
Era assim que Cacilda Becker dizia para Ziembinski, sempre que se iniciavam os ensaios de uma peça. Zimba era o tratamento afetuoso para o ator e diretor, que a ajudou a se tornar a primeira atriz do teatro brasileiro.
- Ela dizia que teríamos um trabalho infernal mas dizia com um brilho de alegria nos olhos. Sempre teve um fogo sagrado ardendo dentro daquele corpo frágil, uma paixão mística pelo teatro.
A vida de Cacilda Becker foi a historia de uma vontade apoiada em nervos e coragem e inteligência. Sua carreira se confunde com a própria evolução do teatro moderno brasileiro, que ela enriqueceu com seu talento de atriz no impecável desempenho de papeis difíceis e na encenação de algumas das obras da dramaturgia contemporânea.
Uma mulher pertinaz, que levou ao palco a romântica Marguerite Gauthier, a "Dama das Camélias", a toxicômana Mary, de "Longa Jornada Noite a Dentro", a neurótica Marta, de "Quem tem medo de Virgínia Woolf", ela foi brutalmente surpreendida entre um ato e outro, no dia 6 de maio, de "Esperando Godot", na qual representava Estragon, ao sofrer um derrame cerebral.
Paulista de Piraçununga, Cacilda Becker nasceu em 1921. Cedo, conheceu a pobreza que não deveria abandoná-la durante anos. Ela e as irmãs Cleide e Dirce ficaram com a mãe quando os pais se separaram. Juntas, vieram para Santos, onde a vida era difícil. Mesmo assim, Cacilda conseguiu fazer os estudos de balé, sua primeira vocação artística. Antes do teatro, um diploma de professora e, em São Paulo, o emprego de escrituraria numa firma de seguros.
Com 20 anos, vai para o Rio disposta a iniciar a carreira de atriz. Supera as dificuldades, domina a própria fragilidade e conquista uma oportunidade no teatro, que só deixaria atingida pela adversidade. Do palco Cacilda só sairia, anos mais tarde, carregada de maca, para o hospital.
Cacilda Becker começa a afirmar-se como atriz em 1941, na companhia de Raul Roulien. Ela, Raul e Laura Suarez interpretam "Trio em Lá Menor", de Raimundo Magalhães Jr. Antes, por parte do elenco do Teatro do Estudante, na montagem de Hamlet, dirigida por Paschoal Carlos Magno.
Quando o teatro paulista começa a pretender profissionalizar-se, Cacilda Becker regressa a São Paulo em 1943 e integra-se no Grupo Universitário de Teatro, fundado por Decio de Almeida Prado.
Faz rádio-teatro para sobreviver mas é ao palco que ela entrega a força de sua excepcional capacidade de trabalho e sua viva inteligência. No GTU participa de três montagens: "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente; "Irmãos das Almas", de Martins Pena e "Pequeno Serviço em Casa de Casal", de Mario Neme. Regressa ainda ao Rio para trabalhar com "Os Comediantes", grupo responsável por uma verdadeira revolução no panorama teatral brasileiro. Com eles, dirigida por Ziembisnki, que a conhecia desde 1943, participa da remontagem da peça "O Vestido de Noiva", em 1946, no papel de Lúcia, ao lado de Olga Navarro e Maria Della Costa.
Ziembisnki evoca o entusiasmo de Cacilda:
"Lembro-me dela, uma moça que não comia, tinha a fragilidade de uma flor de estufa. Alimentava-se com um ovo cru e um pedaço de carne. Chegou a pesar 42 quilos. Ela nos preocupava. A Cacilda Becker que todos conheceram nos últimos anos era robusta perto daquela mocinha que conheci. Mas ela tinha a dedicação mais absoluta ao teatro, ao fenômeno de teatro, ao amor do teatro."
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| Cacilda Becker e Walmor Chagas em "Esperando Godot", dirigida por Flávio Rangel |
O salto
Em 1948, Ziembisnki passou a integrar o elenco de Maria Della Costa, que acabara de fundar seu Teatro Nacional Popular, no Rio. Cacilda veio para São Paulo onde duas iniciativas importantes davam novo impulso ao teatro: a fundação do Teatro Brasileiro de Comedia, resultado da fusão do Grupo Universitário de Teatro com o Grupo Experimental de Teatro, dirigido por Alfredo Mesquita que, no mesmo ano, fundou a Escola de Arte Dramática de São Paulo, estabelecimento pioneiro no ensino de teatro no Brasil. Cacilda Becker foi lecionar interpretação na EAD e entrou para o TBC como a primeira atriz contratada em caráter profissional.
O primeiro espetáculo do TBC foi "A Mulher do Próximo", de Abílio Pereira de Almeida. Iniciava-se um dos períodos mais fecundos do teatro paulista. Cacilda Becker ingressou no movimento interpretando o principal papel no espetáculo inaugural do TBC. Acompanhou toda evolução da nova companhia que se profissionalizou definitivamente graças ao industrial Franco Zampari que lhe imprimiu novo ritmo, realizando de quatro a cinco montagens por ano e contratando diretores estrangeiros que contribuíram decisivamente para a elevação do nível técnico e artístico do teatro paulista. Contratou ainda Zienbinsky como ator e diretor. Cacilda Becker esteve em quase todas montagens dessa época. Aparece em "Nick Bar", de Saroyan, em "Antigone", textos de Sofocles e de Anouilh, em "Dama das Camélias", de Dumas, e em "Gata em Teto de Zinco Quente", de Tennessee Williams.
Zienbinsky dirigia espetáculos que eram apresentados às segundas feiras. Em carreira normal, a semana inteira, seu primeiro espetáculo foi "Paiol Velho", de Abílio Pereira de Almeida, com Cacilda Becker. Mas, nas sessões das segundas a dupla criaria o espetáculo que se constituiria um dos maiores êxitos de suas carreiras: "Pega Fogo", de Jules Renard. A peça fez tanto sucesso que entrou em carreira normal e ficou em cartaz muito tempo. Anos depois, em 1960, Cacilda remontou "Pega Fogo", apresentando-se no Teatro das Nações, em Paris. A critica francesa apontou-a como uma atriz extraordinária.
O TBC entrou em declínio a partir de 1955. Os diretores italianos regressaram à Europa enquanto os atores mais famosos fundavam suas próprias companhias. Cacilda e Valmor Chagas alugaram o teatro da Federação Paulista de Futebol e inauguraram o Teatro Cacilda Becker. Estavam no elenco, Zienbinsky, velho companheiro e sua irmã Cleide Yaconis que também iniciara carreira no TBC e se firmava como atriz de talento. O novo grupo estreou com "O Santo e a Porca", de Ariano Suassuna. Cacilda ficou com um papel secundário para que a irmã fosse a protagonista. Seu repertório foi crescendo com as encenações de "Longa Jornada Noite a Dentro", de O' Neil; "O Protocolo", de Machado de Assis; "Maria Stuart", de Schiller, "Santa Marta Fabril", de Abilio Pereira de Almeida; "Raízes", de Arnold Wesker; "Oscar", de Claude Magnier; "Os Rinocerontes"; "A Visita da Velha Senhora", de Durremah; "Cesar e Cleopatra", de Bernard Shaw; "A Noite de Iguana", de Tenessee Willians; "Quem tem medo de Virginia Woolf?", uma das melhores interpretações de sua carreira'; "Isso Devia ser Proibido", de Braulio Pedro e "Esperando Godot", de Samuel Becket.
Ziembisnki rememora a fibra de Cacilda Becker em seus trabalhos:
"Ela era impressionante. Para fazer o garoto de 'Pega Fogo' enfaixava a região dos seios com tiras largas de esparadrapos. Depois de uma semana de representação, a pele saiu e ficou a carne viva. Ela teve de se enfaixar com tiras de pano. Cacilda sempre fez esses sacrifícios. Quando montamos 'Maria Stuart' sofreu dores nos rins porque a roupa era pesada demais e a peça durava 3 horas e 15 minutos. Aos sábados fazia três sessões e, no domingo, duas.
Exauria-se de cansaço. Representou 'Arsênico e Alfazema' gravida de sete a oito meses. Esta é a Cacilda Becker que conheço há quase trinta anos".
Um cargo difícil
Em 1968 Cacilda suspende as atividades da sua companhia para presidir a Comissão Estadual de Teatro, um cargo difícil, com implicações e problemas que desafiavam uma mulher que sempre se considerou atriz, e apenas atriz. Fez o possível para ser a mediadora entre classe teatral e o governo. Mas, nos momentos de crise, seu cargo, que desempenhou com inquebrável dignidade, não a impedia de ladear, com a mesma dedicação, os seus companheiros de profissão. Ficou no cargo até o momento em que julgou ter cumprido sua tarefa.
Voltou ao teatro, este ano, aceitando um novo desafio. Representar, sob a direção de Flavio Rangel, o vagabundo Estragon de "Esperando Godot". O papel exigia uma interpretação impecável. Cacilda superou-se a si mesma. Sua presença no palco, ao lado de Valmor Chagas e de seu filho Luís Carlos Martins, que estreava no teatro, era citada como um dos acontecimentos importantes da temporada teatral do ano.
Cacilda Becker foi a nossa primeira e grande atriz até a ultima fala do 1.o ato de "Esperando Godot", na tarde de 6 de maio. Não voltou para o segundo ato. Saiu do camarim carregada para o hospital. Só o derrame cerebral pôde vencer a força contida naquele físico delicado.
Resta o palco vazio, a cena cortada e a lembrança de uma atriz que mereceu o apaixonado elogio do critico francês Michel Simon ao vê-la em "Pega Fogo".
- Cacilda Becker vem de muito mais longe do que seus dez anos de aprendizagem em sua arte, porque é um monstro do teatro, como De Max, Gaby Morlay, Charles Chaplin, Jean Louis Barrault ou Charles Laughton. Ela é médium, mãe dos Santos, do orixá do teatro. Basta ela aparecer que a magia se opera. Pessoalmente tenho a pretensão de me haver tornado um duro, um empedernido, um desconfiado do palco. Conheço-lhe o mecanismo. Pois bem, chorei como uma Madalena arrependida assim que o pano se levantou e vi aquele rosto amaciado, aquele olhar em virgula (como nos desenhos de Poulbot), aqueles gestos pletóricos de garoto infeliz e arrogante. Ela ainda não tinha aberto a boca e eu já estava possuído ("como um rato na ratoeira", diria Sartre). Enfim, ela é Poil de Carotte. Poil de Carotte não pode ter mais, para mim e para muitos outros, de agora em diante, outro rosto senão o seu.'
Velório entre os dominicanos, seus admiradores
Às 14 horas de ontem, o corpo de Cacilda Becker é levado para o velório na capela dos dominicanos, que sempre foram seus admiradores.
Vinte minutos depois, o esquife é colocado na capela da rua Caiubi. As portas são fechadas para armas o velório. Na escadaria, parentes, gente de teatro e admiradores. Mais quinze minutos e chega o aviso de que todos podem entrar.
Nas primeiras cadeiras ficam Walmor Chagas, Maurice Vaneau, Luís Carlos Martins, Fredi Kleeman, Leonardo Vilar, Benedito Corsi e Flavio Rangel.
O silencio é quebrado quando chega da. Alzira Becker, mãe da atriz; amparada por Cleide Yaconis e Osmar Rodrigues Cruz, ela sobe a escadaria com dificuldade, sempre exclamando "onde ela está, onde ela está?"
Cantata de Bach
Da. Alzira só pode ficar alguns minutos junto ao caixão onde, de rosto tranqüilo e sem aparentar ter passado por sofrimento ou dor, está Cacilda Becker.
A mãe da atriz chora muito. Norma Grecco corre em busca de um copo de água com açúcar. Depois, todos da família acham melhor retirar da. Alzira do local. Ela se afasta após muita insistência. O diretor Maurice Vaneau põe em funcionamento a fita magnética com uma cantata de Bach. Musicas fúnebres prosseguem o tempo todo.
Abreu Sodré
O governador Abreu Sodré chegou ao velório às 17h30. Mais tarde, distribuiria a seguinte nota:
"Perco uma grande amiga. Os artistas perdem uma grande líder e o povo brasileiro uma grande interprete. Extingue-se um grande talento. Fica um grande exemplo."
O governador determinou que seja dado o nome de Cacilda Becker ao teatro-auditório da TV-Cultura.
Disse tratar-se de uma homenagem "à grande atriz do teatro brasileiro, cuja consciência profissional é exemplo de coragem, de lucidez e de intrépido espirito de defesa da nossa arte e da nossa cultura".
Afirmou ainda que ele e sua mulher, pessoalmente, perderam "a amiga de tantos anos a quem afetuosa e orgulhosamente, tanto admirávamos e estimávamos". Concluiu dizendo que com a morte de Cacilda "perdeu a cultura brasileira um de seus testemunhos de inteligência, arte e sensibilidade que se perpetuarão sempre na nossa lembrança e no nosso coração".
Klabin Segall
O presidente da Caixa Econômica Estadual, Oscar Klabin Segall, que acompanhava o governador, disse:
"Cheguei de viagem esta madrugada e fui, pela manhã, surpreendido com a triste noticia da morte de Cacilda Becker. Dias atrás, em Paris, os críticos franceses me perguntavam sobre o estado de saúde da atriz, cujo nome ganhou dimensões internacionais. Venho prestar minha ultima homenagem àquela que levou o nome do tetro brasileiro alem de nossas fronteiras e que era a grande representante da classe teatral".
Laudo Natel:
O ex-governador Laudo Natel disse:
"Venho prestar minha ultima homenagem à grande dama do teatro brasileiro".
Odete Lara:
"Tinha fé na recuperação de Cacilda. Aprendi a admirá-la por sua obra e por sua personalidade na vivencia que tivemos. A perda é irreparável".
Fredi Klemann:
"Cacilda morreu no palco como talvez ela quisesse. Trabalhei com ela 20 anos e com ela vai-se uma parte de nossa vida. Sua morte assinala o fim de uma época do teatro brasileiro: a época da renovação".
O sepultamento
Cacilda Becker faleceu aos 48 anos. Foi casada em primeira núpcias com o jornalista Tito Fleury, e atualmente estava separada de seu ultimo marido, o ator Valmor Chagas. Deixa a mãe Alzira Yaconis Becker (seu pai Edmundo Radamés Becker é falecido), o filho Luís Carlos, do primeiro matrimônio, e as irmãs Dirce e Cleide Yaconis, esta também conhecida atriz de teatro. Deixa ainda uma filha adotiva, Maria Clara.
Seu sepultamento dar-se-á hoje, saindo o féretro às 11 horas, da igreja de São Domingos, rua Caiubi, para o cemitério do Araçá.
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