ILUSTRADA 50 ANOS: 1985 - A música deu o tom no Ibirapuera
"A música deu o tom no Ibirapuera", assinado por Marcos Augusto Gonçalves, foi publicado originalmente em 7 de outubro de 1985.
O "Happening Cage", apresentado ontem, foi a grande atração da mostra que recebeu mais de dez mil visitantes no fim de semana e foi marcada por alguns desentendimentos entre artistas e organizadores, a respeito da localização dos trabalhos
Um grande acontecimento --o "Happening Cage", realizado ontem--, algumas decepções --como a primeira apresentação do espetáculo "Cage e Campos", no sábado-- e o retumbante naufrágio, com poucos sobreviventes, do setor das artes plásticas, marcaram o fim-de-semana da 18ª Bienal Internacional de São Paulo (parque Ibirapuera, zona sul da cidade). Mais de cinco mil pessoas visitaram a mostra no sábado e, na tarde de ontem, os organizadores estimavam que o público do fim-de-semana ultrapassaria o número de dez mil visitantes.
| 03.out.1985/Avani Stein/Folha Imagem |
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| O músico norte-americano John Cage em São Paulo para participar da Bienal |
Uma grande feijoada oferecida a artistas e convidados abriu a programação de sábado, com ares de performance: rostos marcados pelas festas da véspera, mal disfarçados por óculos escuros, jovens artistas fazendo modelito transvanguarda, vestindo jeans manchados com tinta; garçons circulando entre imensas tigelas de lingüiça e feijão. Uma "body art" involuntária, com trilha sonora mixada em alemão, inglês, francês e português.
E muitos comentários. O mais insistente era sobre a suposta "arrogância" dos artistas alemães, que teriam ameaçado retirar seus quadros da mostra por terem sido dispostos ao lado de trabalhos que não estariam à altura desta nobre vizinhança. Na verdade, o protesto dos alemães foi contra a "Grande Tela" --um imenso corredor no segundo andar do Pavilhão da Bienal, que reúne representantes do neo-expressionismo.
A idéia da curadora Sheila Leirner era justapor os quadros de artistas de diversos países com uma distância de cinco centímetros entre um e outro. O que daria o efeito de uma única grande tela --um enorme painel da pintura gestual. Os alemães não gostaram. Os brasileiros também não. E os argumentos eram os mesmos: a "Grande Tela" transformaria tudo numa pasta indiferenciada, não permitindo a observação destacada de cada uma das obras. "Nós fizemos críticas a este projeto desde o início", diz Carlito Carvalhosa, 24, do grupo paulista Casa Sete, que participa da "Grande Tela".
As críticas não resultaram em nada. "Vocês pintam e nós organizamos a Bienal", ouviu como resposta. Mais ousados, os alemães não se limitaram às palavras. Mantido o projeto, retiraram alguns quadros e conseguiram criar um espaço mais arejado para seus trabalhos. "Foi uma semana de cão", admite a curadora Sheila Leirner, 36. "Houve muita pressão, especialmente dos alemães", diz. Sheila explica a insatisfação de uma maneira original: "Os alemães não querem o confronto". E contra-ataca: "Eles não querem um espaço não-acadêmico como o da 'Grande Tela', preferem uma disposição tradicional".
Na verdade, a questão em jogo na "Grande Tela" é menor do que a que Sheila propõe. Ou mais simples. O grande corredor cria, de fato, dificuldades para a observação dos trabalhos. Não há como fugir dos "ruídos" causados pelo excesso de informação visual concentrada nas paredes. O que desagrada qualquer artista. Especialmente os alemães, que se caracterizam por um forte sentimento de competitividade com os grandes centros --especialmente Itália e Estados Unidos. "Os artistas da Alemanha vieram com tudo", observa o jovem pintor carioca Daniel Senise, 29. "É uma verdadeira operação de guerra", diz.
Mas as confusões em torno da "Grande Tela" não foram as únicas. Na tarde de sábado, numa das rampas do Pavilhão, o artista brasileiro José Leonilson - escolhido para representar o Brasil na Bienal de Paris - reclamava com o presidente da Fundação Bienal, Roberto Muylaert, 50, e com o arquiteto Haron Cohen, um dos responsáveis pela montagem da Bienal, sobre a falta de segurança para as obras.
A discussão, a princípio amena, terminou de forma ríspida, com a retirada de Muylaert e um bate-boca entre Leonilson e Haron. "Tive um quadro quebrado duas vezes", queixou-se o artista. Ontem à tarde, Roberto Muylaert dizia que o problema já estava superado e que a segurança havia sido "triplicada".
A artista irlandesa Eilis O'Connell também tinha queixas a fazer. Ao chegar ao Pavilhão da Bienal, foi ver suas obras e decepcionou-se: estavam de cabeça para baixo, penduradas em ganchos. Rapidamente colocou-as corretamente e conseguiu suprimir os ganchos, que interferiam em suas peças de ferro, madeira e papel.
Eilis participa de uma delegação de quatro artistas, dois da República da Irlanda --Anne Carlisle e Felim Egan-- e dois da Irlanda do Norte --Mary Fitzgerald e a própria Eilis. A Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido, e é abalada por antagonismos entre a maioria protestante e a minoria católica. Mas na Bienal, por um entendimento entre os artistas, as delegações da Irlanda e da Irlanda do Norte foram unificadas.
| 03.out.1985/Claudomiro Teodoro/Folha Imagem |
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| John Cage foi a principal atração da Bienal de 1985 |
Se o setor plástico foi marcado por algumas confusões --e pela incapacidade de apresentar uma média razoável de qualidade-- o setor musical saiu-se melhor. Apesar das falhas do espetáculo "Cage & Campos", as apresentações do "Círculo Mágico Ritual", do uruguaio Conrado Silva e o "Happening Cage", realizado ontem, conseguiram dar vida à Bienal e alegrar um pouco o clima de funeral do neo-expressionismo que tomou conta do pavilhão.
A apresentação de "Cage & Campos" foi prejudicada por uma série de falhas e pela própria concepção do espetáculo --excessivamente "dramática" para o tom econômico da obra de John Cage. "Houve problemas com a iluminação, que prejudicaram a leitura dos poemas e das partituras, diz Teophil Mayer, o tenor alemão que acompanhou a cantora Ana Maria Kieffer no palco. Excessivamente longa --a ponto de provocar desistências, como a do poeta Décio Pignatari, que retirou-se no meio do espetáculo-- a apresentação foi também prejudicada pelo calor insuportável e pela quantidade de gente enfiada no auditório do Museu de Arte Contemporânea, que ultrapassou a lotação de quinhentos lugares.
De qualquer forma, o espetáculo teve bons momentos e boas idéias --como a utilização de instrumentos musicais insólitos e a própria utilização dos sons ambientais como parte da obra. John Cage --que antes do espetáculo autografou o livro "De Segunda a Um Ano" (Hucitec, Cr$ 90 mil), traduzido pelo maestro Rogério Duprat, com revisão do poeta Augusto de Campos - foi muito aplaudido quando entrou no auditório e ao fim do espetáculo. Divertiu-se com o público --que fez uma sinfonia de assobios e ruídos-- e gostou de algumas passagens.
Mais bem sucedido foi o "Happening Cage" --a melhor coisa que aconteceu na Bienal no fim-de-semana. Dispostos em pontos diferentes, pelos três andares do Pavilhão, grupos de música executavam, seguindo um cronograma previamente organizado, peças de Cage. Algumas aconteciam simultaneamente, criando um ambiente musical tipicamente cagiano, que ainda contou com uma orada "palestra", promovida por um grupo de quatro jovens, que liam ao mesmo tempo passagens do texto "Para onde estamos indo? E o que estamos fazendo?", extraído do livro "Silence", de Cage.
O compositor acompanhou o "Happening". Passou por todos os grupos, agradecendo aos músicos. Às vezes era interrompido, mas não estava disposto a conversar durante a apresentação. A um de seus interlocutores, que o interrompeu para comentários, respondeu apenas: "temos que escutar". De outro fã, o músico Mário Manga, 29, do grupo Premeditando o Breque, recebeu um pacote com cogumelos brasileiros: "Eu comprei na feira de Moema e achei que ele ia gostar", disse Manga.
Cage deu os cogumelos de presente para Augusto de Campos. Amanhã Cage estará no palco do teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 153, São Paulo), para sua única performance em São Paulo. O espetáculo será às 21h e o programa inclui "Cartão Postal do Paraíso", para doze harpas; "Music For", para um número indeterminado de instrumentos; "Myoyce", que é uma performance de Cage; e "Renga", para 78 instrumentistas, com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, regida por Julio Medaglia.
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