Ilustrada
21/11/2008 - 12h00

"Não tenho lido as críticas publicadas", diz Selton Mello

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DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online

Estréia do ator Selton Mello na direção, o filme "Feliz Natal" chega nesta sexta-feira aos cinemas depois de fazer carreira no circuito de festivais.

"Feliz Natal" mostra um homem com fortes traumas reavaliando pontos de sua vida e seu contato com personagens do passado agora envoltos em sérios problemas. Veja no Guia da Folha Online onde assistir o filme em São Paulo.

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Atriz Darlene Glória como personagem Mércia no longa-metragem "Feliz Natal", estréia do ator Selton Mello como diretor no cinema
Atriz Darlene Glória como personagem Mércia no longa-metragem "Feliz Natal", estréia do ator Selton Mello como diretor no cinema

Selton conta em entrevista à Folha Online que se identifica com o diretor Fernando Meirelles e evita ler críticas sobre seu trabalho.

"Li algo do Fernando Meirelles que não leu as críticas do 'Blindness' ['Ensaio sobre a Cegueira'] e me identifiquei com isso e não estou lendo também. Se ela é ruim você se sente a pior pessoa do mundo, se ela é maravilhosa você acha que é a reencarnação do Orson Welles", brinca.

Sobre a "suposta polêmica" envolvendo cenas de nudez em seu filme, iniciada após um manifesto do ator Pedro Cardoso, Selton afirma que "esse assunto é passado".

O ator-diretor também afirmou que gostaria de adaptar "O Alienista", de Machado de Assis, para o cinema, mas que certamente este não será seu segundo projeto como diretor.

Leia abaixo trechos da entrevista concedida por e-email.

Folha Online - Selton, você acredita que o público vai receber "Feliz Natal" tão bem quanto a crítica e as fatias mais seletivas da audiência (como os freqüentadores da Mostra de São Paulo)?

Selton Mello - Não sei. Sinceramente. Público de cinema é uma incógnita. Os festivais são nichos onde está o consumidor apaixonado de cinema, claro. Mas acho que funcionam para esquentar os tamborins. Meu filme é denso, mas não hermético. Tenho viajado por festivais pelo país e o público reage muito bem ao filme. Acabamos de levar nove prêmios no Festival de Goiânia, incluindo melhor filme, direção, atriz (para Darlene Gloria), roteiro, fotografia... Foi bem emocionante o reconhecimento.

Eu tive ótimas críticas e outras nem tanto, ou até duras, e confesso que não tenho lido as críticas publicadas, boas e ruins. Li algo do Fernando Meirelles que não leu as críticas do "Blindness" ("Ensaio sobre a Cegueira", em português) e me identifiquei com isso e não estou lendo também. Se ela é ruim você se sente a pior pessoa do mundo, se ela é maravilhosa você acha que é a reencarnação do Orson Welles (risos). Para se manter vivo e alheio a isso tudo, você tem que estar em paz com o filme que realizou. E durmo tranqüilo, com a consciência de ter feito um belo primeiro filme, com qualidades e imperfeições, como a vida.

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Leonardo Medeiros interpreta o personagem principal Caio, que vai ao Rio e tenta acertar contas consigo e os outros em "Feliz Natal"
Leonardo Medeiros interpreta o personagem principal Caio, que vai ao Rio e tenta acertar contas consigo e os outros em "Feliz Natal"

Folha Online - Apesar do tema "natalino", o filme é bastante forte e foge do clássico que as famílias procuram perto da festa. Foi uma decisão estratégica a estréia cerca de um mês antes do Natal, para driblar a concorrência com os filmes-família típicos da época?

Mello - Acho que filmes típicos de Natal já têm aos montes. Todos muito felizes, animados e esperançosos. E acho ótimo. Mas o Natal tem várias vertentes. Quis filmá-lo porque é um momento que as pessoas estão no limite, qualquer comentário pode virar uma explosão de constrangimentos. Coisas que estavam guardadas há anos. Há uma espécie de jogo oculto, umas simulações de afeto, umas forçadas de barra, regadas a peru, arroz de forno e batatas.

Acho o Natal bem melancólico. Não seria um filme meu se fosse uma festa de Papai Noel com presentes e renas de nariz vermelho.

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"Feliz Natal" ganhou nove prêmios em Goiânia e disputa competição em Huelva, na Espanha; filme chega nesta sexta-feira aos cinemas
"Feliz Natal" ganhou nove prêmios em Goiânia e disputa competição em Huelva, na Espanha; filme chega nesta sexta-feira aos cinemas

Folha Online - Você pretende dirigir mais? Já tem algum projeto em vista? Você acredita que, em geral, atores podem se tornar bons diretores?

Mello - Fiquei fascinado com a direção. Quero dirigir muito mais. Acho que atores podem ser bons diretores sim, porque já têm experiência do outro lado. Olha o Matheus Nachtergaele, Sean Penn, Clint Eastwood. E quando dirigimos, passamos a compreender melhor o processo todo. Eu me sinto um ator muito mais consciente agora. Dirigir é visceral, doloroso, solitário e altamente apaixonante.

Penso em filmar "O Alienista", de Machado de Assis. Mas, definitivamente não será meu segundo filme, mas já trabalho no roteiro com meu parceiro Marcelo Vindicatto. Me agrada a idéia de levar para as telas essa história que mostra o limite tênue da razão e da insânia.

Folha Online - Você acredita que a crise possa, a um curto prazo, afetar o mercado cinematográfico?

Mello - Acho que pode afetar tudo, inclusive as artes. Fiquemos atentos para o que está por vir...

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Mello em "Meu Nome não é Johnny"; mais de 2 milhões de espectadores é pouco para ator
Mello em "Meu Nome não é Johnny"; mais de 2 milhões de espectadores é pouco para ator

Folha Online - Quanto à meia-entrada, você é a favor de algum tipo de restrição em relação ao benefício?

Mello - Sinceramente, acho que a meia-entrada deveria ser revista. Os valores aumentaram depois que isso virou lei. E se formou um sistema vicioso: quem não é estudante não consome cultura tanto quanto gostaria. E qual foi a solução, para parte desse grupo? Falsificar carteirinha. Isso, para ter acesso a uma coisa que poderia pagar, se fosse mais barato. Mas, se for mais barato, nada de lucro para as empresas (porque tem a meia-entrada).

Loucura, não? Tostines vende mais por quê? Mas uma coisa é certa, os ingressos de cinema são muito caros e afastam o publico. "Meu Nome não é Johnny" é o grande sucesso do ano, com 2,5 milhões de espectadores. Muito? Acho pouco. Se custasse mais barato faríamos 12 milhões de espectadores. Alguma coisa tem que ser revista.

Folha Online - E a pirataria? Qual é a sua posição a respeito?

Mello - Tem a ver com a resposta anterior. Sendo mais barato, ninguém precisaria de ver um filme com a qualidade debilitada.

Folha Online - Quanto à nudez, por quê você acha que o filme gerou tal polêmica? A discussão já está resolvida?

Mello - Não sei o motivo da polêmica, meu nome e meu filme não foram citados diretamente. Foi tudo uma série de suposições. E não me interesso por suposições, e sim por cinema como uma forma de poesia. Mas penso que esse assunto é passado, assim como o a morte de Kennedy e o desaparecimento do menino Carlinhos (risos).

 

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