ILUSTRADA 50 ANOS: 1983 - Ana Cristina Cesar é enterrada no Rio
"Ana Cristina, o salto da poesia para a morte", assinado da sucursal da Folha no Rio, foi publicado originalmente segunda-feira, 31 de outubro de 1983.
Foi enterrada, ontem, no cemitério São João Batista, Ana Cristina César, considerada uma das maiores autoras de poesia da "geração 80", como definiu, no seu velório, o teatrólogo Mário Prata. Ana Cristina, que tinha 31 anos e passava por uma crise emocional, morreu sábado, depois de atirar-se de uma das janelas do apartamento de seus pais.
Para Mário Prata, Ana Cristina César era uma representante muito lúcida da cultura dos anos 80, "uma cultura nova que não tem nada a ver com a poesia da década de 70". Na sua opinião, Ana era "um dos grandes poetas contemporâneos". Eles se conheceram há dois anos, quando Prata começou a pesquisar o novo movimento poético, e nesse período devem ter-se visto uma dezena de vezes. "Mas --lembra ele-- foi um relacionamento intenso porque Ana era uma pessoa rica, fantástica. Eu a definiria como um rima e por isso é difícil dissociar sua poesia de seu texto".
| 07.mar.1983/Lewy Moraes/Folha Imagem |
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| Poeta carioca Ana Cristina Cesar se atirou do 7º andar em 1983 |
Armando Freitas Filho --a quem Ana Cristina dedicou seu último livro último livro "A Teus Pés", publicado em novembro do ano passado--, era seu melhor amigo. Falou com ela, pelo telefone, 40 minutos antes de sua morte, quando Ana lhe confessou que se estava sentindo "emparedada" e que gostaria que o médico lhe receitasse algo que a fizesse chorar. Falou também de seu desânimo em continuar vivendo. Armando tentou reanimá-la, mas achou-a irredutível. Mas, como ela estava sob tratamento médico e com a presença constante de um enfermeiro a seu lado, Armando achou que, aos poucos, a crise poderia ser superada. Os dois eram amigos há dez anos.
"Ana Cristina prefaciou meu livro, 'Longa Vida'. Éramos muito unidos e há três meses sentia-se que suas condições psicológicas se deterioravam. Para mim, é o melhor poeta de sua geração. Não há ninguém que lhe faça sombra. E a principal característica de seu texto é, na minha opinião, a capacidade de reunir, através de profundo conhecimento literário, várias técnicas do verso moderno. Isso dá a sua poesia um clima de seca paixão, uma paixão sempre tensa, mas contida."
Para a escritora Márcia de Almeida, Ana Cristina e sua poesia eram bastante parecidas. "Ambos concisos, ambos muito cristalinos, precisos e sozinhos. E, por isso, de uma beleza enorme". Para Márcia, Ana morreu porque "a violência com que a geração que tem agora 30 foi forjada confundiu-a e ela achou que não era mais forte que a última crise". Márcia e Ana Cristina começaram a traduzir juntas o "Relatório Hite Masculino", mas abandonaram o serviço antes do final por não concordarem com a maneira como o trabalho estava sendo desenvolvido. A noite de autógrafos do novo livro de Márcia --"Casulo das Águas"-- no próximo dia 10 será dedicada à amiga.
Heloísa Buarque de Hollanda foi uma das primeiras pessoas a reconhecer o valor do trabalho de Ana Cristina César. Para ela, não há, na poesia brasileira, nada parecido com a linguagem de Ana, "um trabalho com um traço diferente, extremamente pessoal, que não dá para classificar como marginália ou algo parecido". Para Heloísa, em termos de literatura voltada para a linguagem feminina, a obra de Ana é a mais importante: "Nesse sentido, sua poesia é mais importante até que a de Cecília Meireles, por exemplo". A característica principal da poesia de Ana Cristina é, segundo Heloisa, "a coisa do segredo, da intimidade, do mistério, que faz lembrar uma carta". Para ela, a melhor definição de Ana Cristina César é "a escritora brasileira mais importante surgida nos últimos tempos".


