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Ilustrada
22/11/2008 - 08h03

Romance de Émile Zola encena o mundo do consumo e do supérfluo

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MARCOS FLAMÍNIO PERES
da Folha de S.Paulo, editor do Mais!

A carne é fraca, mas a roupa é mais ainda. Essa visão do desejo como mola propulsora da sociedade moderna está no centro de um dos romances mais fascinantes do século 19, o primeiro a colocar o consumo no primeiro plano narrativo.

Reprodução
Manequim de Coco Chanel, símbolo da moda
Manequim de Coco Chanel, símbolo da moda

Publicado em livro em 1883, "O Paraíso das Damas", de Émile Zola (1840-1902), descreve o surgimento da primeira loja de departamento da história e que dá nome ao livro --ela é inspirada livremente no "Au Bon Marché", que existe até hoje nos números 22 e 24 da rua de Sèvres, em Paris.

Entre frufrus dos vestidos das madames e a algazarra de um mercado persa, "O Paraíso das Damas" cria um universo novo de tecidos, cores, texturas vindos de toda parte do mundo, criados e desfeitos ao sabor do capricho de cada estação.

O mundo volátil do desejo e do supérfluo encontra sua primeira representação na história da literatura. Claro que antes houve Baudelaire, que definiu a modernidade como a combinação do efêmero e do perene, onde a moda ocuparia um lugar especial.

Vitrines de Zola

Mas, em Émile Zola, não se trata de especulação, mas de pura representação: em cada vitrine, em cada balcão, em cada prateleira de "O Paraíso das Damas", reencena-se, a todo o tempo, o grande palco da vaidade humana.

Seu fio condutor é a típica história de amor derivada do gênero mais popular do século 19: o romance de folhetim.

Denise, a humilde órfã que chega à cintilante capital em busca de sustento para si e para o irmãozinho, em pouco tempo se torna balconista da maior sensação da Paris de então.
Logo desperta o interesse do patrão, Mouret, jovem ambicioso e dominador. Aos poucos, sua candura e dignidade amolecem o coração do jovem e, juntos, enfrentarão as contingências de renda e classe.

Vida injusta

Sabe-se que um escritor como Flaubert fez picadinho, em "Madame Bovary" (1857), desse clássico entrecho folhetinesco. Mas não era esse o objetivo de Zola. Mais que a busca do "mot juste", Zola sempre perseguiu a "vida injusta", sub-representada pela afirmação política, econômica e social da burguesia parisiense da segunda metade do século 19.

Isso se vê em obras clássicas como "Germinal", sobre a vida dos mineiros de carvão, ou ainda, "Nana" e, claro, "O Paraíso das Damas".

Pois a força de sua narrativa não vem da precisão obsessiva e quase árida que existe em Flaubert, mas, ao contrário, da exuberância das longas frases e de descrições cumulativas que hoje se poderiam chamar de barroquizantes.

Nova ordem

Aqui, em vez dos mineiros enterrados no norte da França, há a exploração das classes mais baixas emigradas do interior pobre e atraídas pela concentração de capitais da tardia revolução industrial francesa.

Ao mesmo tempo, o romance também traça o surgimento do grande comércio impessoal, que devorava, com os "dentes de ferro de suas engrenagens", o pequeno comércio de rua _as "boutiques" familiares e descapitalizadas.

E, na grande cidade, bairros inteiros de Paris vinham abaixo para dar espaço aos amplos bulevares concebidos pelo barão de Haussmann.

Como síntese dessas linhas de força concentradas em Paris, paira O Paraíso das Damas, "uma capela construída ao culto das graças da mulher".

Assim, no momento em que a sociedade de consumo apenas despontava no horizonte, Zola anteviu com precisão a nova ordem, descrita nas palavras de Mouret: "Eu tenho a mulher, pouco me importa o resto".

O PARAÍSO DAS DAMAS

Autor: Émile Zola
Tradução: Joana Canêdo
Editora: Estação Liberdade
Quanto: R$ 59 (498 págs.)
Avaliação: ótimo

 

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