ILUSTRADA 50 ANOS: 2001 - Pirataria domina mercado brasileiro
"Espécie em extinção", assinado por Pedro Alexandre Sanches, foi publicado originalmente quarta-feira, 25 de julho de 2001.
Desespero é hoje palavra de ordem entre as grandes gravadoras do Brasil. Reunidos pela Folha em entrevista conjunta, presidentes de quatro das seis multinacionais em ação no país e um representante da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD, a instituição que os congrega) são unânimes em admitir que sua área de atuação vai ladeira abaixo com a rapidez de um apagão.
O motivo da aflição dos tubarões é a pirataria, que, segundo dados deles, ocupava 3% do mercado em 97 e hoje ascendeu à média de 50%. Ferozes na autodefesa, os peixões se tornam bagres ensaboados na hora de falar dos altos preços e da baixa qualidade dos produtos que fabricam.
| 03.nov.2007/Fernando Donasci/Folha Imagem |
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| CDs, DVDs e fitas são destruído em ação contra a pirataria, um problema já em 2001 |
Folha - Procede o boato que corre na indústria de que a pirataria já toma 70% do mercado nacional?
Márcio Gonçalves - Na verdade, são estimativas. O número que estamos usando hoje, que acreditamos ser o mais próximo da realidade, é de 50%, só em CDs. O mercado de cassetes hoje é 100% pirata e, se fizermos a soma dos dois, vai dar em torno de 70%. Mas há produtos mais populares e algumas épocas do ano em que há maior quantidade de pirataria. Em 97 a pirataria de CDs era de 3% e estava focalizada em bootlegs (registros clandestinos de shows) e compilações. De 97 para 98, já pulou de 3% para 30%.
Folha - Por que vocês perderam o mercado de fitas cassete?
Marcos Maynard - Isso é normal acontecer no mundo inteiro. Historicamente, o produto brasileiro era o vinil. O cassete era subproduto. Com o advento do CD, o produto nobre e, por consequência, o subproduto desapareceram.
Folha - Vai acontecer com o CD?
Maynard - É a tendência natural.
Gonçalves - Se não houver uma política para impedir...
Folha - Vocês são representantes de uma espécie em extinção?
Aloysio Reis - Não necessariamente. Mas, se nada for feito, se não houver uma vontade política de acabar com a pirataria, sim, você está falando com membros de uma espécie em extinção.
Folha - Há um descontrole policial ou o controle nunca existiu?
Maynard - O bolo era pequenininho, hoje é gigantesco. Hoje 2.000 pessoas já foram detidas por pirataria, mas não há nenhuma presa. Como se vai fazer num país em que não há poder policial e judiciário que façam cumprir a lei?
Maynard - Antes, quando a tecnologia não era tão avançada, se você bloqueasse portos aéreos e marítimos de entrada, tecnicamente estava bloqueando a pirataria. Era muito mais fácil. Hoje, a maioria já é feita localmente.
Niemeyer - O Brasil tem problemas tão sérios e grandes que a coisa da pirataria acaba entrando lá atrás na fila das prioridades. O importante nem são as gravadoras. A música brasileira vai para o saco. Quem vai descobrir novos talentos? Estamos nesse negócio para ganhar dinheiro, sim. Quando parar de dar dinheiro, acabou.
Folha - Desde o estouro do sertanejo e do axé vocês não colocaram qualidade lá atrás na fila das prioridades, não sonegaram o papel educativo que tinham antes?
Maynard - É natural assim. Você potencializa o axé, não pode fazer nascer o axé. Ele nasce no povo. Olhei e vi. O funk pode ser música de pior qualidade ou não, mas é uma manifestação popular. Não inventamos nada daquilo. Às vezes é necessário que as companhias criem produtos de marketing para suprir a falta e a lacuna de artistas criadores que não estão bons para criar naquela hora.
Reis - O mercado está diminuindo de maneira absurda. O problema da pirataria é objetivo: fecha portas para novos criadores. Todas as gravadoras têm produtos de alta, média e baixa qualidade. É como supermercado, que não pode vender só sabão em pó, ou não sobrevive.
Folha - Num governo que é em certa medida internacionalista não se pode pensar que o descaso possa ser intencional?
Maynard - No frigir dos ovos, estamos vendendo o mercado nacional: o artista brasileiro, a música brasileira, o autor brasileiro, os estúdios brasileiros, os músicos brasileiros, até as lojas brasileiras. É isso que estamos defendendo. Gravadora não tem cara.
Reis - Um supermercado vende uma porção de coisas. Se nesse supermercado não dá para ter mais música brasileira, não dá. Sabe o que acontece com o apagão? Descobriram que acabou a energia e a qualquer hora vão descobrir que acabou a MPB. O que a gente quer é avisar que isso aí é verdade, que não é alarmismo. Estamos mandando artista embora, deixando de contratar artista. Quando acabar, 'ih, acabou', não vai dar para consertar.
Maynard - O mundo teve várias eras românticas, esta de agora não é. Nos anos 60 e 70 as multinacionais ganhavam tanto dinheiro lá fora que podiam perder aqui. Jogaram dinheiro fora. Aí acabou a era bonita, fecharam a torneira. A crise foi mundial, vai fazer o quê? Tem que dar conta do óbvio.
Folha - Por que essa era romântica, de prejuízo, rendeu o elenco que vocês usaram recentemente com a boca tampada para fazer propaganda antipirataria?
Reis - Provavelmente não vamos ter ninguém de boca tampada mais para a frente. Não vai haver nem boca para cantar.
Gonçalves - Alertou um pouco as autoridades. Era direcionada a elas, para mostrar que o problema é sério. Se deu bom resultado? Não deu, porque a pirataria continuou crescendo, e o governo não tomou as medidas que precisa tomar. Tomou, sim, a iniciativa de criar um Comitê Interministerial de Combate à Pirataria.
Reis - O problema é de lei. Aqui não há condenação social, se confunde a figura do pirata com o camelô pobrinho. Os piratas são poderosos, milionários. Aquilo ali é a ponta do iceberg na rua, vendendo CD pirata. Por baixo há uma estrutura de crime.
Maynard - Temos que lutar pela sobrevivência da música popular brasileira. Já que o governo se esqueceu do apagão, a sociedade brasileira está lutando por ela. Já que o governo não nos ajuda com isso, pedimos essa ajuda.
Folha - Vocês não oferecem música de muito baixa qualidade em troca desse pedido de ajuda?
Maynard - Isso depende do seu gosto.
Folha - Não depende mais, se o próprio mercado caiu 50% e ninguém mais compra disco.
Niemeyer - O mercado caiu por causa dessa pirataria louca.
Maynard - Nunca mais viveremos a bossa nova nem a jovem guarda. Não há jeito de viver de novo. Temos que entender que o mundo vai para a frente. As músicas podem se tornar mais simples numa época e mais complicadas em outra, vai depender muito do que o público queira.
Folha - O comitê já fez algo?
Gonçalves - Na última reunião, a idéia que surgiu foi montar um seminário em setembro para discutir o assunto e elaborar um plano. Ficamos frustrados, porque até setembro a gente está morto.
Folha - O que define o preço médio de um CD, de R$ 25?
Niemeyer - Vendo um disco ao lojista por R$ 14. No mundo inteiro colocam no máximo 35% a 40%. No Brasil, colocam até 50%.
Folha - Quanto se gastou para fazer um CD vendido por R$ 14?
Niemeyer - Tenho que pagar o custo de fabricação, o direito artístico, o direito autoral, fabricação, impostos, a distribuição, o vendedor, o marketing...
Reis - [Interrompe] Posso fazer um custo médio, arredondando? De R$ 14 foram R$ 12,50.
Folha - E tem que pagar o jabá?
Niemeyer - Não, não existe mais.
Maynard - É promoção. Jabá acabou, não existe mais para nós.
Folha - Esse problema não preocupa então?
Todos - Não.
Folha - De todos os problemas discutidos, vocês nunca assumem para vocês as responsabilidades. É possível algum nível de autocrítica nessa discussão?
Maynard - [Indignação geral] O problema é impunidade, ilegalidade. Toda pessoa sã sabe que pirataria é ilegal.
Reis - Teremos que falar em administração, sobretudo. Autocrítica minha? Faço discos ruins? Posso fazer. Faço produtos comerciais? Posso fazer. E aí?
Folha - O problema da pirataria não é também a ponta de um iceberg que é a própria indústria?
Reis - Ela é hoje o maior problema. Lei é lei, crime é crime. Quando o criminoso é privilegiado quem paga imposto está ferrado.


