Na reta final, Festival de Brasília discute mercado
SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo
A 41ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que termina hoje, com a entrega do troféu Candango aos vencedores, teve um painel heterogêneo de filmes e um público cindido na recepção a eles.
Houve evasão de parte da platéia em três dos cinco longas apresentados até domingo. O último concorrente, "Tudo Isto me Parece um Sonho", de Geraldo Sarno, seria exibido ontem à noite, após o fechamento desta edição.
Nos debates sobre os longas, discutiu-se se a acolhida do público é fator de legitimidade da produção nacional, amparada nas leis de renúncia fiscal.
"Pobre de um país que pensar que toda arte é destinada ao mercado. Então, quem não tiver mercado não tem direito de fazer cinema?", disse o cineasta cearense Rosemberg Cariry, cujo "Siri-Ará" registrou a maior das evasões.
Neste seu oitavo longa, Cariry aborda um mito fundador do Ceará, a partir de um duelo figurado entre uma banda de pífanos e um grupo de reisado.
O diretor chamou "Siri-Ará" de "cinema figural" e se postou à contracorrente. "O cinema que se faz hoje no Brasil é realista, naturalista. Tenho o direito de pensar, sonhar e exercitar uma poética que o país não conhece", afirmou.
Aplausos
A sessão de "Nhande Guarani (Nós Guarani)", de André Luís da Cunha, também teve desistência de espectadores, embora tenha terminado sob intensos aplausos.
Produção estimulada pelo Ministério Público, em atenção a uma reivindicação de comunidades guarani protocolada em audiência pública em 2007, o longa se assenta em depoimentos e busca, segundo Cunha, "mostrar o outro lado de uma questão [a batalha pela demarcação de terras indígenas] que não tem sido bem retratada na mídia".
Parte do público também deixou a sessão de "Filmefobia", de Kiko Goifman, que terminou sob aplausos e vaias.
Tiveram recepção calorosa os documentários "O Milagre de Santa Luzia", de Sergio Roizenblit, sobre a presença da sanfona no Brasil, e "À Margem do Lixo", que o diretor Evaldo Mocarzel define como um filme "que tenta focalizar a indústria da reciclagem a partir do ponto de vista do catador".
Exibido na noite de domingo, "À Margem do Lixo" foi dez vezes aplaudido em cena aberta e terminou sob ovação.

