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Ilustrada
25/11/2008 - 14h43

ILUSTRADA 50 ANOS: 2007 - Laerte e os "Piratas do Tietê"

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"O velho pirata", assinado por Marco Aurélio Canônico, foi publicado originalmente quarta-feira, 29 de agosto de 2007.

Laerte Coutinho tem olhado para trás nos últimos tempos. Com dois livros ligados a seu passado chegando às livrarias, o cartunista, colaborador da Folha, diz se sentir velho, aos 56 anos. Os lançamentos são "Laertevisão", uma coletânea dos cartuns que publica aos sábados na Ilustrada, baseados nas memórias de sua infância, e o primeiro dos três volumes de "Piratas do Tietê - A Saga Completa", que reeditam sua criação mais célebre.

Mas Laerte tem mirado o futuro também. Quem o vê falar dos projetos em que está envolvido -uma animação dos Piratas, um filme da personagem Suriá, um desenho dos Tres Amigos para a TV, um livro inédito- fica intrigado com a fase de crise que diz atravessar.

A verdade é que a vida do cartunista tem passado por drásticas mudanças. Foi para ouvi-lo sobre tudo isso que a Folha foi até sua casa, em São Paulo. Veja a seguir o resultado.

FOLHA - Nos últimos anos suas tirinhas mudaram radicalmente.
LAERTE - É, porque eu perdi o jeito de um monte de coisas, de modos de fazer humor que eu tinha, de usar personagens. Tudo isso ficou esquisito, então passei a outros procedimentos. Em busca disso, passei dois anos fazendo uma tira absolutamente sem norte.

FOLHA - E por que você perdeu o jeito, como diz?
LAERTE - Cansou, por um monte de motivos, ficou... [pausa] Bom, é uma explicação que tem de passar pela morte do meu filho também [em um acidente de carro, em 2005], isso foi um divisor. Passei a ver e pensar as coisas de outro jeito, uma série de procedimentos começou a perder o sentido ou ganhar outros. Muito do que consistia a natureza das minhas tiras era um tipo de prestação de contas, como se eu as estivesse fazendo para algum juiz, era um modo extenuante de trabalhar. Passei a não achar mais graça no tipo de humor que fazia, não me identificava mais com aquele modo de fazer, então resolvi deixar de lado os personagens.

FOLHA - Para sempre?
LAERTE - Não, não quer dizer que eu os matei, só que fui atrás de outra coisa, fui buscar um modo de fazer que eu tinha aos 17 anos, algo bastante livre, indagativo, experimental, porra-louca. Fui atrás desse espírito.

FOLHA - Porque nessa fase você ainda não tinha o tal "juiz", é isso?
LAERTE - Sim, claramente foi começar a trabalhar que desenvolveu isso. Quando eu comecei a desenhar, não tinha muito claro que seria humorista, desenhista. Eu queria ser músico, jogador de futebol, fazer teatro, tudo isso de uma maneira muito aberta e sem expectativa. Eu tentei ir atrás disso, trabalhar a linguagem de tiras em outro contexto, fazer pequenos contos, cada tira sendo uma peça autônoma. Abandonei padrões gráficos, procedimentos humorísticos que eu tinha e parti em busca de outras narrativas.

Reprodução
Piratas do Tiete - Laerte
Piratas do Tiete - Laerte

FOLHA - Tornou-se mais fácil, então, criar as tiras?
LAERTE - Não, não facilitou. Abriu possibilidades, mas era muito mais complicado, eu demorava mais para fazer as tirinhas. Aí, no fim do ano passado, cansei, fiquei sem rumo novamente e passei a republicar o material do Classifolha, os cartuns livres, achei que dava para tirar um ano sabático. Não que isso seja livre de trabalho, eu pego as tiras e reorganizo num tamanho diferente, o que às vezes implica em construções diferentes.

FOLHA - Por que esse novo estalo?
LAERTE - Porque até essa linguagem nova chegou a um ponto em que eu não sabia bem o que fazer. A isso, somou-se meu acerto com a editora Desiderata para produzir uma história longa, de 96 páginas, e inédita. Passei seis meses fazendo um roteiro e concluí que ele não funcionava, voltei à estaca zero, vamos ver se um dia frutifica.

FOLHA - Em que fase você está atualmente?
LAERTE - Estou "Laerte em crise". Mas não é o fim do mundo, é um momento. Estou trabalhando nesse roteiro, acho que o resultado dele vai ser informativo para mim. Talvez eu volte a fazer as tiras como eu fazia, dentro do conceito aberto de pequenos contos.

FOLHA - Você já teve uma crise anterior, quando largou um casamento, um emprego formal e foi fazer quadrinhos. Elas se assemelham?
LAERTE - Sim. Na verdade, um pouco antes do acidente com meu filho, eu já estava mudando de rumo, já apontava o esgotamento da linguagem. Nesses momentos, é muito legal estar num jornal como a Folha, dois outros deixaram de publicar a tira porque ela ficou estranha, não tiveram paciência.

FOLHA - Alguns leitores reclamaram da mudança de estilo.
LAERTE - Teve desde a perplexidade positiva, uma curiosidade com vontade de ver mais, até gente que achou que não era mais a praia deles, além de leitores que se revoltaram contra algumas tiras específicas, como a que o personagem jogava golfe com a cabeça de um poodle.

FOLHA - Com essa mudança de foco, você passou a se importar menos com o julgamento dos leitores?
LAERTE - Sim, um pouco menos. Não tenho nenhum desprezo pelo leitor, mas passou a ter um peso diferente. É uma opinião, não quer ler, não quer renovar o contrato, tudo bem, acontece.

FOLHA - Seus dois lançamentos e sua tira na Ilustrada são relacionados ao seu passado. Você está em uma fase revisionista?
LAERTE - É uma pergunta capciosa. Alguém que produz um livro de memórias não está fazendo uma coisa passadista, está usando como matéria-prima o que ele tem de experiência de vida. Mas eu acho que é verdade sim, não sei muito falar de projetos futuros, cheios de energia. Tem o longa-metragem dos Piratas, por exemplo [dirigido por Otto Guerra, que também fez "Wood & Stock", de Angeli].

FOLHA - Qual seu envolvimento?
LAERTE - É grande, eu fiz o argumento e estou trabalhando no roteiro com o Gilmar Rodrigues. Vamos começar a fazer desenhos de produção, cenários, vou meter a mão.

FOLHA - E como é o roteiro?
LAERTE - É uma história inédita, na qual os Piratas ficam de posse de um documento assinado há 400 anos entre o dono do terreno onde fica São Paulo e uns bandeirantes, que alugam a área por todo esse tempo. Quando o contrato acaba, a cidade precisa ser devolvida aos herdeiros do dono, que são os Piratas.

Reprodução
Piratas do Tiete - Laerte
Piratas do Tiete - Laerte

FOLHA - Os Piratas são seus personagens que mais se destacaram?
LAERTE - Sim, acho que são os mais claros, têm mais peso. São um achado muito bom, estavam prontos como personagens, são auto-explicativos, misturam um fenômeno histórico que foi a pirataria com a visão romântica dela, que foi construída depois, no século 19.

FOLHA - Você fez pesquisa para chegar neles?
LAERTE - Sim, eu gosto do assunto. E os personagens se encaixam perfeitamente numa história urbana brasileira crítica e atual. Todo dia vemos exemplos de como nós, enquanto cultura, somos flexíveis ao ponto da pirataria em relação a regras e normas. A pirataria é algo muito compreensível para qualquer um no Brasil.

FOLHA - No editorial da revista "Piratas" nº 1, em 1990, você perguntava qual era o plano geral do povo brasileiro. Já temos um hoje?
LAERTE - Naquele tempo eu tinha algum tipo de opinião nessa área, hoje eu tenho bem menos. Acho que é um autodesencanto, meus pontos de vista vão se comprovando errados à medida que o tempo passa. Já fui do Partido Comunista e tinha um código muito nítido de concepções, mas, com o tempo, fui perceber que eu não acreditava ou não entendia direito o que era aquele negócio. Fui largando coisas e minhas percepções estão cada vez mais líquidas. Não tenho mais uma opinião sobre o povo brasileiro.

FOLHA - E sobre o presidente Lula, que você conheceu na época em que trabalhava com os sindicatos?
LAERTE - Eu acho que ele é um cara legal. Não sei se é um bom presidente, o governo dele é bastante estranho, a diferença entre as coisas em que ele um dia acreditou e afirmou e o que ele pratica hoje enquanto presidente é bastante grande. Um dos problemas sérios do Lula foi que o partido [PT] que todos achávamos que existia junto dele não existia. Mas eu o conheço, votei nele e ainda o acho uma pessoa muito interessante, perseverante. Mas político é político, é outra estrada.

FOLHA - Num cartum de "Laertevisão" você diz que foi um adolescente "parnasiano". Que tipo de adulto é hoje?
LAERTE - Não sei te dizer. Acho que sou um adulto contemporizador, que põe panos quentes.

FOLHA - Você quase foi um coroinha quando criança e depois largou a religião. Mais tarde, transformou Deus em personagem. Qual sua relação com Deus hoje em dia?
LAERTE - Eu gostava das tirinhas de Deus, mas elas eram atéias. Não fiz as tiras para discutir religião, acho um tema empolgante, mas gosto de tratá-lo fora da fé. Gosto da mitologia que as religiões propõem, acho um modo muito criativo de ver a vida, não quero discutir se aquilo é mentira ou verdade. De certa forma, quando eu faço o personagem Deus, estou me colocando ali. Assim como o Deus do Allan Sieber é ele também, um sujeito com aquele nível de aguerrimento, bravo.

FOLHA - Falando em Sieber, uma boa parte da geração dele enfatiza a dureza da profissão de cartunista, a pobreza. Muitos tiveram origens humildes, enquanto você veio de uma família de classe média alta. Isso fez diferença na sua obra?
LAERTE - Acho que sim. Vivíamos bem, sempre tivemos carro, bife na mesa, essas coisas. Eu nunca precisei trabalhar e sempre tive liberdade total para escolher o caminho que quisesse. Mas muitos dos cartunistas que eu conheço tiveram problemas de sobrevivência. O Angeli, por exemplo, foi trabalhar, foi office-boy, era um menino que trabalhava e foi para a via do cartum com uma gana diferente da minha, era mais punk, um cara da classe operária. Eu fui porque gostava da coisa, não queria ser um diletante, mas minha posição sempre foi muito mais cômoda.

FOLHA - E como você vê a profissão de cartunista hoje em dia?
LAERTE - Está mais difícil, porque o preço caiu muito. O que se pagava pelo trabalho de humorismo gráfico na década de 1970 era claramente superior, assim como o espaço que essas linguagens ocupavam na mídia. Por exemplo, a "Playboy" era uma maravilha para ilustradores, hoje não dá mais para contar com ela. Por outro lado, existem muito mais publicações, então pode-se dizer que o campo abriu bastante. Fora isso, os avanços tecnológicos, como programas de animação, colocaram linguagens que eram só sonhos, hoje são concretas. É possível uma pessoa como Sieber fazer um filme quase sozinho. Mas ainda é difícil ganhar a vida.

 

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