Ilustrada
26/11/2008 - 14h25

ILUSTRADA 50 ANOS: 2008 - Edson Celulari completa 50 anos

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"Mocinho cinqüentão", assinado por Laura Mattos, foi publicado originalmente quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008.

Ele será mocinho de novo na novela, mas, na vida real, Edson Celulari neste ano se torna um cinqüentão e completa três décadas de televisão.

A partir da próxima segunda, seus famosos olhos azuis serão de Guilherme Medeiros, engenheiro mulherengo, mas romântico, protagonista de "Beleza Pura", novela das sete da Globo. À Folha, o ator fala sobre o novo papel, a vida aos 50, a opção por peças menos comerciais e o sonho de ter um espaço para reciclar atores.

FOLHA - Em 50 anos de vida e 30 de TV, qual foi o maior mico que já pagou, seu melhor e pior momento?
EDSON CELULARI - O mico foi a primeira e única peça que escrevi. Tinha 16 anos e precisava convencer meu pai a me deixar fazer a EAD [Escola de Artes Dramáticas da USP]. Escrevi um monólogo, dirigi e atuei.
Era horrível, mas convenceu meu pai. Penso que ele me amava muito. E já foram alguns [melhores] papéis e momentos também: Calígula, "Asa Branca", "Don Juan", Vadinho, Ciccilo Matarazzo, "Don Quixote", "Inocência", "Decadência", "Ópera do Malandro". Do pior, já não me lembro, tenho memória seletiva.

Divulgação
Edson Celulari entre Christiane Torloni e Carolina Ferraz, em cena da novela "Beleza Pura"
Edson Celulari entre Christiane Torloni e Carolina Ferraz, em cena da novela "Beleza Pura"

FOLHA - Seu nome não costuma estar vinculado a questões políticas. Por que prefere não se envolver?
CELULARI - Arte e política se atraem, mas não combinam, são água e óleo. O melhor para o artista é crer nas suas utopias.

FOLHA - Aos 50, o assédio das mulheres é maior que aos 20, 30 e 40?
CELULARI - Diferente, ainda bem. Porque 50 anos com tudo igual seria monótono. As mulheres estão mais ousadas, com mais atitude. O assédio é mais consistente, os personagens ganham mais visibilidade. É igual Mega-Sena: tem a acumulada.

FOLHA - Você e a Cláudia [Raia] discutem sobre como lidar com o jornalismo de celebridades, se devem ou não ir a festa, ilha de "Caras"?
CELULARI - Recebemos muitos convites para esse ou aquele evento, essa ou aquela ilha. Nunca fomos. Nosso tempo é usado para o nosso ofício e nossa família. Nada contra. Quem sabe, um dia, vamos poder estar de pernas para o ar num desses paraísos e cercados por camarões por todos os lados.

FOLHA - Você é metrossexual?
CELULARI - Não tenho pudor em dizer que tento me cuidar, mas confesso que me falta disciplina e paciência. Vivo da minha imagem, preciso ter a capacidade de mutação até do meu "visual". Mudo a cor do meu cabelo há muitos anos e nunca escondi isso. Quero poder exercitar o camaleônico, todo ator gosta disso e precisa ter fôlego para suportar tanta exposição.

FOLHA - Lamenta o fato de Manoel Carlos não ter levado adiante a idéia de tornar Silvio, seu personagem em "Páginas da Vida", em bissexual? Não seria enriquecedor para um currículo dominado por mocinhos?
CELULARI - O que enriquece um ator é um bom personagem. Não vejo meus personagens como arquétipos simples: esse é romântico, esse é vilão cômico. Seria muito sem graça. A novela do Manoel Carlos foi mais uma experiência. Será que o fato do Silvio ser ou não gay mudaria a minha carreira? Acho que não.

FOLHA - Guilherme, seu personagem de "Beleza Pura", vai "bombar" como tio Glauco de "América"?
CELULARI - Guilherme Medeiros é um cara muito bem sucedido, atrapalhado, desligado, muito ego centrado. É aquele cara que não se permite errar, solteirão, mulherengo, meio mal-humorado, encrenqueiro, de pavio curto, impaciente, machão. E tudo isso faz dele um homem muito divertido, um sujeito moderno e infantil muitas vezes. O personagem é maravilhoso. Agora, se vai ou não "bombar", o público vai definir.

FOLHA - Você costuma optar por um teatro menos convencional e, curiosamente, Cláudia tem a imagem ligada a musicais da Broadway.
CELULARI - No teatro, posso ter meus projetos artísticos realizados. Na TV e no cinema, sou contratado, recebo convites.
No teatro, arrisco, quero outras linguagens. Quero ir além do meu público de TV. O teatro no Brasil vive um momento de reconhecimento. Tem coisas novas, como os musicais chegando, com grande força comercial e competência, e tem esse outro teatro das tais "palavras', do pensar, que fica com um espaço cada vez mais específico.
O teatro independente vai sobreviver a espaços cada vez mais raros, infinitos meio-ingressos, violência, flanelinhas?
Temos hoje uma platéia cada vez mais definida para o teatro entretenimento. Isso é ruim?
Sim, se não existirem as outras tantas possibilidades que o teatro, como meio de modificação social, pode oferecer. Quero poder provar de tudo um pouco. O que não posso fazer na TV, como linguagem, faço no teatro. Já a Cláudia tem como história os musicais. Começou cedo e faz com muito talento e alegria. É uma das poucas brasileiras que fazem bem o dançar, cantar e interpretar. Comediante, faz graça com competência e sem pudor, e trabalha com disciplina. Quem sabe um dia, ela queira fazer seu primeiro clássico e eu meu primeiro musical? Se formos tentar fazer sem preconceito, teremos chances de nos divertir.

FOLHA - Tem daqueles sonhos de escrever livro, construir um barco?
CELULARI - Adoraria ter um estúdio para exercícios, ensaios, experiências. Um espaço para a reciclagem, pré-produção do ator. É assim que me vejo até o fim: ator. Que não esperem de mim esse negócio de livro, árvore, morar longe, isolado. Preciso de pessoas, cúmplice, audiência. Meu trabalho é coletivo. Se sobrar um tempinho, construo um barco. Pode ser um teatro flutuante que pararia em cada porto por esse Brasil afora. Tudo é possível, principalmente quando você também se interessa pelos gigantes, além dos moinhos.

 

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