Ilustrada
27/11/2008 - 09h04

Michel Gondry traz cultura da reciclagem a SP

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ADRIANA FERREIRA SILVA
editora do Guia da Folha

Michel Gondry, 45, está entre nós: amanhã, um dos mais criativos cineastas da "geração videoclipe" participa da abertura de uma exposição no MIS, que tem o mesmo título de seu filme mais recente, "Rebobine, por Favor", cuja pré-estréia ocorre no sábado --a estréia será no dia 12.

Divulgação
Vistante em exposição de Michel Gondry em NY manuseia dispositivo com carrinhos em miniatura usado para criação de filmes amadores
Vistante em exposição de Michel Gondry em Nova York manuseia dispositivo com carrinhos

As filmagens amadoras são o tema do longa, uma comédia estrelada por Mos Def e Jack Black, e da mostra, onde o público poderá fazer seus próprios filmes. Em entrevista à Folha, o francês detalhou os dois trabalhos.

FOLHA - Sob o título "Rebobine, por Favor" você fez livro [lançado no exterior], exposição e filme. Os trabalhos são sobre o mesmo tema?
Michel Gondry - Escrevi o livro para conceituar minha idéia de criar conexões entre comunidades diferentes a partir da produção de filmes amadores -o que fiz na exposição e, em parte, durante as filmagens. Já o filme é puro entretenimento. Quis fazer uma comédia popular, que atingisse o maior número de pessoas, mas não estouramos nas bilheterias...

FOLHA - De onde vem a idéia de fazer filmes amadores?
Michel Gondry - É uma utopia que tenho desde a adolescência, em Paris. Naquela época, queria "reciclar" cinemas antigos, exibindo filmes feitos pelas pessoas do bairro, que atuariam e seriam totalmente responsáveis pelas películas. Seria um sistema independente. Isso nunca ocorreu, mas veio daí o conceito para "Rebobine".

FOLHA - Os personagens de Mos Def e Jack Black refilmam principalmente blockbusters norte-americanos. Seria possível fazer o longa em outro país que não os EUA?
Michel Gondry - Claro. Se eu o fizesse no Brasil, teria uma lista dos filmes mais alugados nas locadoras para reproduzi-los. Mas tenho certeza de que a maioria seria de filmes norte-americanos. Eles têm uma indústria agressiva, que predomina em outros países e afasta as obras que vêm do exterior, já que os americanos praticamente não assistem aos longas feitos fora dos Estados Unidos.

FOLHA - Como foi a seleção dos filmes que seriam recriados em "Rebobine, por Favor"?
Michel Gondry - Não planejei ou pensei muito. Eram basicamente os filmes que vinham à minha cabeça. Mas havia uma limitação: só podíamos refazer as obras lançadas em VHS. É por isso que "Rebobine, por Favor" é bastante voltado aos anos 80. Queria usar a versão de Peter Jackson para "King Kong" [2005], por exemplo, mas ele não existe em VHS. Também quis "reciclar" os filmes que a maioria das pessoas já assistiu. E fiz algumas paródias: "Os Caça-Fantasmas", primeira fita que eles refazem, fala sobre três caras começando um negócio, o mesmo que Mos Def e Jack Black estão fazendo.

FOLHA - Houve algum método para recriar esses longas?
Michel Gondry - Pedi aos atores para não reverem os filmes. Jack Black, por exemplo, nunca assistiu a "Conduzindo Miss Daisy". As interpretações eram baseadas na memória que as pessoas têm das obras. Também era preciso mostrar as limitações para refazer aqueles filmes, recriados em um jardim e numa oficina mecânica. Para isso, os personagens tinham de ser bastante criativos. Resgatei a maneira como eu e meu irmão brincávamos: como não tínhamos muitos canais de TV ou videogames sofisticados, construíamos os carros com mesas, cadeiras...

FOLHA - O filme também é uma metáfora para esse momento, em que qualquer um pode filmar, mostrar na internet...
Michel Gondry - Claro. Não é uma novidade o fato de que a tecnologia transforma a arte. Sempre houve uma interação entre as evoluções tecnológicas e o entretenimento. E o filme acompanha grandes mudanças: ao mesmo tempo em que aquelas pessoas utilizam diversos truques para recriar os filmes, elas mostram como as tecnologias já estão muito diferentes hoje.

FOLHA - Quando você começou a preparar a exposição?
Michel Gondry - Tive a idéia antes de fazer o filme e, em parte, a coloquei em prática durante as filmagens, quando convidamos os moradores da comunidade de Passiac [Nova Jersey] para atuar no curta dirigido por Mos Def e Jack Black. Quando os vi assistindo, felizes e orgulhosos, percebi que meu conceito funcionava no mundo real.

 

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