Michel Gondry traz cultura da reciclagem a SP
ADRIANA FERREIRA SILVA
editora do Guia da Folha
Michel Gondry, 45, está entre nós: amanhã, um dos mais criativos cineastas da "geração videoclipe" participa da abertura de uma exposição no MIS, que tem o mesmo título de seu filme mais recente, "Rebobine, por Favor", cuja pré-estréia ocorre no sábado --a estréia será no dia 12.
| Divulgação |
![]() |
| Vistante em exposição de Michel Gondry em Nova York manuseia dispositivo com carrinhos |
As filmagens amadoras são o tema do longa, uma comédia estrelada por Mos Def e Jack Black, e da mostra, onde o público poderá fazer seus próprios filmes. Em entrevista à Folha, o francês detalhou os dois trabalhos.
FOLHA - Sob o título "Rebobine, por Favor" você fez livro [lançado no exterior], exposição e filme. Os trabalhos são sobre o mesmo tema?
Michel Gondry - Escrevi o livro para conceituar minha idéia de criar conexões entre comunidades diferentes a partir da produção de filmes amadores -o que fiz na exposição e, em parte, durante as filmagens. Já o filme é puro entretenimento. Quis fazer uma comédia popular, que atingisse o maior número de pessoas, mas não estouramos nas bilheterias...
FOLHA - De onde vem a idéia de fazer filmes amadores?
Michel Gondry - É uma utopia que tenho desde a adolescência, em Paris. Naquela época, queria "reciclar" cinemas antigos, exibindo filmes feitos pelas pessoas do bairro, que atuariam e seriam totalmente responsáveis pelas películas. Seria um sistema independente. Isso nunca ocorreu, mas veio daí o conceito para "Rebobine".
FOLHA - Os personagens de Mos Def e Jack Black refilmam principalmente blockbusters norte-americanos. Seria possível fazer o longa em outro país que não os EUA?
Michel Gondry - Claro. Se eu o fizesse no Brasil, teria uma lista dos filmes mais alugados nas locadoras para reproduzi-los. Mas tenho certeza de que a maioria seria de filmes norte-americanos. Eles têm uma indústria agressiva, que predomina em outros países e afasta as obras que vêm do exterior, já que os americanos praticamente não assistem aos longas feitos fora dos Estados Unidos.
FOLHA - Como foi a seleção dos filmes que seriam recriados em "Rebobine, por Favor"?
Michel Gondry - Não planejei ou pensei muito. Eram basicamente os filmes que vinham à minha cabeça. Mas havia uma limitação: só podíamos refazer as obras lançadas em VHS. É por isso que "Rebobine, por Favor" é bastante voltado aos anos 80. Queria usar a versão de Peter Jackson para "King Kong" [2005], por exemplo, mas ele não existe em VHS. Também quis "reciclar" os filmes que a maioria das pessoas já assistiu. E fiz algumas paródias: "Os Caça-Fantasmas", primeira fita que eles refazem, fala sobre três caras começando um negócio, o mesmo que Mos Def e Jack Black estão fazendo.
FOLHA - Houve algum método para recriar esses longas?
Michel Gondry - Pedi aos atores para não reverem os filmes. Jack Black, por exemplo, nunca assistiu a "Conduzindo Miss Daisy". As interpretações eram baseadas na memória que as pessoas têm das obras. Também era preciso mostrar as limitações para refazer aqueles filmes, recriados em um jardim e numa oficina mecânica. Para isso, os personagens tinham de ser bastante criativos. Resgatei a maneira como eu e meu irmão brincávamos: como não tínhamos muitos canais de TV ou videogames sofisticados, construíamos os carros com mesas, cadeiras...
FOLHA - O filme também é uma metáfora para esse momento, em que qualquer um pode filmar, mostrar na internet...
Michel Gondry - Claro. Não é uma novidade o fato de que a tecnologia transforma a arte. Sempre houve uma interação entre as evoluções tecnológicas e o entretenimento. E o filme acompanha grandes mudanças: ao mesmo tempo em que aquelas pessoas utilizam diversos truques para recriar os filmes, elas mostram como as tecnologias já estão muito diferentes hoje.
FOLHA - Quando você começou a preparar a exposição?
Michel Gondry - Tive a idéia antes de fazer o filme e, em parte, a coloquei em prática durante as filmagens, quando convidamos os moradores da comunidade de Passiac [Nova Jersey] para atuar no curta dirigido por Mos Def e Jack Black. Quando os vi assistindo, felizes e orgulhosos, percebi que meu conceito funcionava no mundo real.


