Publicidade

Ilustrada
30/11/2008 - 09h42

"Quem tem medo da Flora deve é ter medo de mim", diz autor

Publicidade

LAURA MATTOS
da Folha de S.Paulo

É João Emanuel Carneiro, e não Flora, o verdadeiro vilão de "A Favorita". Estreante no horário nobre, o escritor afirma ter se inspirado em si próprio para criar a perversa personagem da novela das oito da Globo e brinca: "Muita gente me fala que tem medo da Flora. Deviam ter medo é de mim!".

Rafael Andrade/Folha Imagem
João Emanuel Carneiro, autor de "A Favorita", diz que Flora é inspirada nele
João Emanuel Carneiro, autor de "A Favorita", afirma que a vilã Flora é inspirada nele

Em entrevista à Folha, ele faz uma análise sobre sua vilã, interpretada por Patrícia Pillar ("No fundo, ela se considera aleijão"), e afirma que escrever as famosas frases e expressões cruéis da personagem funciona para ele como fazer psicanálise.

Folha - Como define a Flora?

João Emanuel Carneiro - A Flora é uma figura trágica. Como o Ricardo 3º [rei inglês do século 15, famoso por sua ambição e métodos cruéis para garantir a coroa], ela é um ser que ainda não se "individuou". No fundo, ela se considera um aleijão. Não tem auto-estima. É incapaz de despertar o amor em alguém: no pai, num homem, na filha. Em seu discurso, ela se coloca como eterna rejeitada, como vítima.

A maneira de preencher esse imenso vazio é o poder. Mas mesmo o poder nunca vai ser suficiente para satisfazê-la, para tapar esse buraco. Do outro lado, temos a Donatela, que é querida. Flora é simbiótica com Donatela. Como Flora não é nada, ela quer ser a outra.

Folha - De onde tirou inspiração para criar alguém tão mau?

Carneiro - De mim mesmo, ora. Todos nós temos um lado sombrio. O bom de escrever novelas é que você pode exorcizar esse lado sombrio na ficção. Vale por uma psicanálise.

Muita gente me fala que tem medo da Flora. Deviam ter medo é de mim!

Folha - Você faz psicanálise?

Carneiro - Faço psicanálise há quatro anos.

Folha - E para inventar aquelas frases e expressões engraçadas que Flora diz? Quais são suas favoritas?

Carneiro - É uma coleção de atrocidades. Umas eu invento, outras escutei alguém dizer.

Sem dúvida, o que mais pegou foi Flora chamar a filha de "purgantezinho": "Ainda vou enquadrar aquele purgantezinho". As coisas que a Flora diz são coisas que qualquer um com superego não se permite nem pensar, quanto mais dizer em voz alta. Por isso chamam tanto a atenção.

Folha - Existe gente como a Flora?

Carneiro - É claro que existe. É só você abrir os jornais. Uma crítica recorrente à minha novela é que ela mostra maldades demais. Mas eu estou com a Maria Clara Machado, que sempre defendia as bruxas e vilões nas suas peças e teatro.

A criança, assim como o espectador de televisão, precisa da bruxa para trabalhar os seus fantasmas, as suas sombras. Sem a bruxa a história da Branca de Neve seria uma chatice absoluta, não acha?

Folha - Criar uma vilã tão clássica, uma verdadeira bruxa das fábulas, é uma forma de brincar com os clichês da teledramaturgia?

Carneiro - Flora não é uma vilã clássica. Ela passou 56 capítulos defendendo uma possível heroína. Essa é a novidade da novela. "A Favorita" é uma fábula sobre a dúvida, sobre o julgamento que fazemos das pessoas, sobre as falsas aparências.

Folha - Mas a própria fábula da dúvida que diz ter criado com a Flora, de certa forma, não foi um jeito de jogar com os clichês da teledramaturgia, de fazer algo que não é óbvio com as obviedades --vilões muito maus, mocinhas muito boas-- das telenovelas?

Carneiro - Você tem razão. É claro que essa idéia da ambigüidade da Flora e da Donatela foi uma maneira bastante ousada de brincar com os lugares comuns da teledramaturgia.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca