Aos 53, Nina Hagen estrela programa na TV alemã e grava novo álbum
JOCA REINERS TERRON
da Folha de S.Paulo
A vida da maneira como era vivida em 1985 nos parece hoje em dia tão distante como o século 19 ou algo assim. Para testar tal afirmação, basta contar aos mais novos das dificuldades para se obter discos recém-lançados naqueles tempos, ou então lhes explicar como era complicado conseguir informações sobre a separação escandalosa de nossa banda predileta. Eles vão se surpreender.
| Leonhard Foeger/Reuters |
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| Considerada a "mãe do punk rock", hoje, aos 53 anos, Nina Haggen vive com o filho numa casa perto da praia em Los Angeles |
A coisa mais próxima da internet podia ser um amigo surfista que viajava bastante para disputar torneios internacionais ou o filho de um diplomata que habitava ares mais poluídos que os daqui. A palavra sitcom ainda não existia e a série de TV mais parecida com a idéia que fazemos do gênero atualmente era "A Gata e o Rato". Bruce Willis ainda tinha cabelo. Eu também. Escândalo total.
Mas daí surgiu a cara de Nina Hagen no "Fantástico" e tudo começou a mudar. Ela não estava sozinha: ao seu lado, todo pimpão, "pogava" o Supla. Pareciam duas raras araras fugidas de algum aviário punk. Os mais novos precisam entender que, em 1985, o punk rock ainda não havia chegado às butiques. Quer dizer, o modelito chegara ao guarda-roupa importado de Supla e olhe lá, mas os punks brasileiros "de raiz" ainda viviam nos subterrâneos do ABC.
Aquela aparição em rede nacional foi algo inaugural: naquele momento, em meados da década, os anos 80 pareciam enfim decolar. Graças às asas das araras punks e não só, como veremos.
Humanismo Divino
Eram os primeiros anos da anistia política, da constituinte e da campanha das eleições diretas para presidente. Existia certa eletricidade nas nuvens que, de alguma forma, era traduzida pela tanguinha de crochê usada pelo repatriado político Fernando Gabeira nas praias cariocas e pelo moicano verde e azul de Nina Hagen na TV.
E então veio o primeiro Rock in Rio. Nina arrebentou no palco e também com o coração de roqueiro de Supla, depois sumiu. Bateu asas e voou. A arara voltou ao ninho. E assim o Brasil descobriu que os punks também amavam e, afinal, a liberdade raiou no horizonte. Fim?
Mas para onde foi Nina? Nos anos 90, voltou à sua Berlim natal e viveu por anos em Paris. E agora, aos 53 anos, onde está? "Vivo com meu filho Otis numa casa pertinho da praia em Topanga Canyons, Los Angeles. Mas também vivo --não tanto quanto gostaria-- em minha "ashram" (local de retiro) em Herakhan, na Índia, onde construo uma casa movida a energia solar", diz ela à Serafina.
As vinculações místico-espirituais de Nina Hagen existem desde o início de sua carreira: considerada a "mãe do punk rock", ela sempre atribuiu características divinas à maternidade. "Fico extasiada em ser mãe. Meus filhos são Cosma Shiva, que tem 27 anos, e Otis, 18. Cosma é uma atriz muito, muito, muito boa e popular na Alemanha. Otis vai bem na escola e tem ótimo gosto para música e artes... Ambos são pessoas maravilhosas. Eu os amo demais e sinto muito orgulho deles."
Adepta de sincretismos religiosos que deixariam ruborizada qualquer Baby Consuelo, Nina mistura crenças cristãs com hinduístas e acredita ter ido ao inferno: "Não acho que minha religião seja peculiar. Eu morri em minha primeira viagem de LSD e percebi que não existe nada além da dor e do sofrimento. Tomei então minha decisão espiritual e me rendi a Deus.
Desde aquele dia --em Berlim Ocidental, quando tinha 17 anos-- sei que Deus nos ama mais do que jamais saberemos. Deus é Deus, independentemente de como cada um de nós o chama. Deus é 'menschlichkeit'", diz Nina, em seu "deutschenglish" selvagem. "Menschlichkeit" quer dizer humanidade em alemão.
Punk Democrata
Nos EUA, La Hagen não só encontrou Deus, mas também o Partido Democrata. Ela apoiou os deputados Mike Gravel e Dennis Kucinich à candidatura para a presidência nas prévias internas do partido, assim como apóia a "verde" Cindy Sheehan ao Congresso. "As grandes redes de TV simplesmente baniram Kucinich e Gravel do debate público e isso abalou minha confiança na democracia norte-americana, além de partir meu coração."
E é assim, quando surge essa questão de corações partidos, que aproveitamos a deixa: e o Supla, encontrou-o novamente? "Ah, 1985... O Rock in Rio e minha turnê pelo Brasil foram um ponto altíssimo em minha carreira. E não faço idéia de por que nunca mais toquei aí de novo. Supla veio a Berlim cerca de dois anos atrás filmar um clipe do qual participei. Sempre fico feliz em vê-lo e em tocar com ele."
Nós também gostaríamos de revê-la, Nina, e embora saibamos que os bons tempos não voltam mais, também sabemos que o lugar das araras punks é nos trópicos. Que tal então voltar ao Brasil? "Gostaria muito. Estou trabalhando em meu novo álbum e finalizei a produção de minha série de TV, "Ninavision" [programa de entrevistas que estreou em novembro na TV alemã]. Como meus dois filhos já são 'erwachsen' ("adultos" em alemão), em breve poderei fazer uma nova turnê mundial. IABADÁBADÚ!". Iabadábadú, Nina, estaremos esperando por você em Bedrock.


