Ilustrada
30/11/2008 - 13h21

Colecionador reúne 20 mil discos, de música clássica à "black music"

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FERNANDO MASINI
da Folha de S.Paulo

Os vinis de Marcelo Di Giacomo ficam guardados na vertical, com o plástico de boca para cima, em prateleiras com fundo de isopor. Tudo para evitar a entrada de pó. Há ainda um climatizador no ambiente e um spray apropriado para limpá-los.

Beatriz Toledo/Folha Imagem
Marcelo Di Giácomo, proprietário de 20 mil discos; colecionador diz que seu gosto musical equivale ao de uma pessoa de 60 anos
Di Giácomo diz que seu gosto musical equivale ao de uma pessoa de 60 anos

O colecionador tem 12 pares de caixas, seis vitrolas e amplificadores. Diz que cada estilo de música exige um equipamento diferente. Trata o ouvido com respeito. "O som do vinil não cansa como o do CD. É mais próximo do evento gravado no estúdio", afirma.

São 20 mil discos. A variedade de gêneros vai de música clássica e "big bands" à trilha de filmes e "black music". Hoje, com 44, Marcelo gosta de falar que seu gosto musical equivale ao de uma pessoa de 60 anos. Ouve pouco rock e jazz. Prefere melodias menos agitadas.

Como um aplicado pesquisador, muita coisa da coleção não o agrada musicalmente. Mesmo assim, ele reconhece o valor histórico das obras. É o caso do primeiro álbum de Roberto Carlos, "Louco por Você", de 1961.

"O disco é uma mistura de ritmos. O Roberto não sabia se queria fazer rock ou bossa nova. Tinha receio de ser reconhecido como cover do João Gilberto", diz Marcelo, sobre a obra rejeitada pelo próprio rei.

Por causa de desavenças entre o cantor e o produtor Carlos Imperial, o disco teve um lançamento acanhado. A gravadora tinha como abre-alas o cantor Sérgio Murilo. "O álbum ficou dez anos no ostracismo. Só na década de 70, com o advento das lojas e dos colecionadores, tornou-se raro", conta Marcelo.

É o único disco que não traz a imagem do cantor na capa. Reproduziram a imagem de um casal apaixonado, trocando olhares, que foi usada pela mesma gravadora no álbum do organista Ken Griffin. A?lial brasileira aproveitou a foto e trocou o nome de Griffin pelo de Roberto Carlos.

O disco não fez sucesso, e o rei encasquetou que teria desafinado ao cantar um bolero. Talvez isso explique por que ele nunca autorizou o relançamento da obra.

"Com uma boa campanha de marketing, se esse disco fosse relançado hoje, venderia facilmente um milhão de cópias", acredita Marcelo. O colecionador conseguiu sua amostra de "Louco por Você" ao comprar o acervo completo de uma emissora de rádio. Conta que teve de engolir muita coisa enfadonha junto. O disco é um dos mais bem cotados no mercado de vinil e chega a custar R$ 3.000.

Beatles raro

Para conseguir uma raridade do quarteto de Liverpool, Marcelo foi mais longe. Viajou aos EUA e vasculhou uma feira de discos, com a idéia fixa em mente: achar o disco proibido dos Beatles, "Yesterday and Today", de 1966. Ao mostrar a capa com os quatro integrantes da banda vestidos de açougueiros, no meio de bonecas decapitadas e manchas de sangue, Marcelo alerta para as marcas de cola.

Detalhe que faz diferença. A capa foi adulterada pela própria gravadora. A foto original, clicada pelo fotógrafo inglês Robert Whitaker, fazia uma alusão à carnificina da guerra no Vietnã. Era para ser recebida como uma sátira de conteúdo pop. Só que a imagem gerou confusão nos EUA. Diante da repercussão negativa, os exemplares foram recolhidos dias depois.

No lugar das bonecas destroçadas, a nova capa exibia os músicos em volta de uma caixa aberta, com um insosso fundo branco. Como as cópias já estavam prontas, os produtores resolveram colar a imagem mais suave por cima da capa original.

A versão nas mãos de Marcelo tem o desenho original, que foi coberto com a capa-adesivo. "É provável que o cara tenha colocado na água para remover a segunda capa. Por isso, ainda mais rara é a capa sem as marcas de cola", explica.

Marcelo cansou de correr atrás de discos. Hoje, chegam até ele. Há pouco tempo, viu um catador de papel carregando uma pilha entrar em sua loja, na rua Augusta. De cara, notou que a maioria das bolachas era descartável. Colocaria tudo no saldão por R$ 1. Ao examinar mais de perto, encontrou um disco raro do saxofonista brasileiro Meirelles, que tocou com os Copa 5.

O sonho de consumo de Marcelo são os discos prensados no Japão. São mais pesados que os normais, têm uma qualidade sonora melhor e apresentam encartes bem acabados.

Dois deles ganham destaque em sua coleção: a edição japonesa de "O Fino do Fino", de Elis Regina com Zimbo Trio, e um álbum duplo do Jorge Ben Jor, de 1973, com gravações inéditas de um show realizado por lá. Orgulha-se também de curiosidades: "Tenho também o Martinho da Vila cantando em portunhol e o Jô Soares numa banda de rock dos anos 60".

 

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