"Capitu luta para ser feliz", diz Maria Fernanda Cândido
SARA UHELSKI
da Folha Online
Em "Capitu", minissérie que a Globo exibe em cinco capítulos a partir do próximo dia 9, Maria Fernanda Cândido interpreta a personagem título na fase adulta. Dividindo o papel com a estreante Letícia Persiles, a atriz conta que continuar um personagem que uma colega já começou foi um grande desafio.
| TV Globo/Divulgação |
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| Na minissérie, Maria Fernanda Cândido interpreta a personagem Capitu na fase adulta |
Em entrevista à Folha Online, Maria Fernanda fala sobre sua participação no especial, a preparação de sua personagem e sua relação com a obra de Machado de Assis.
Leia abaixo a entrevista.
Folha Online - Seu trabalho em "Capitu" vai ser dividido com a atriz Letícia Persiles. Como é interpretar uma outra versão de um personagem? Você prestou mais atenção na interpretação dela ou mesmo combinou algumas coisas para não fugir de um padrão?
Maria Fernanda Cândido - Fazer a Capitu adulta foi um grande desafio. Porque uma coisa é você começar a fazer uma personagem, a outra é continuar o que uma colega já começou. Mas eu acompanhei muito de perto o trabalho da Letícia, fizemos exercícios juntas.
Para a composição da Capitu menina a Letícia montou uma caixinha com antigas cartinhas da adolescência dela, eu participei com ela dessa caixinha, a gente abriu essa caixinha juntas. Estive do lado assistindo às cenas dela com Bentinho.
Fizemos juntas as aulas de dança, de movimentação, nos espelhávamos uma na outra, mas não com o compromisso de fazer igual e dar continuidade aos gestos dela. Isso não foi uma exigência: "ah, ela faz a mãozinha assim, então tenho que fazer também". Porém, a gente precisava estar afinada na questão dessa alma feminina. O trabalho teve esse direcionamento.
A gente não tinha que se "imitar", não era a proposta e não tinha nenhuma técnica específica. Mas a caixinha da Letícia era minha também. A lembrança toda da adolescência de Capitu estava ali, então, ela era importante para a Capitu adulta também.
Folha Online - Você já interpretou uma versão da Capitu nos cinemas, no filme "Dom". A receita para fazer o personagem é a mesma ou dessa vez sua concepção é outra?
Maria Fernanda Cândido - O filme e a minissérie são obras com concepções diferentes. O filme foi uma livre inspiração, os diálogos são outros, não é fiel ao livro, conta uma história contemporânea. A minissérie tem uma outra abordagem, outra leitura. Nesse trabalho do Luiz [Fernando Carvalho, diretor da minissérie] a gente tem uma adaptação muito fiel ao livro. Machado de Assis está realmente presente, as falas são de diálogos que estão de fato no livro.
Fizemos um laboratório de quase três meses que foi bastante denso, profundo. Ficávamos o dia inteiro mergulhados, estudando, tivemos uma boa aproximação com a obra. Estudamos realmente todas essas relações familiares, as questões políticas da época, as críticas aos costumes e à elite branca da época, um pouco dessa relação entre mãe e filho, Dona Glória e Bentinho, e como tudo isso possivelmente poderia ter afetado na formação da personalidade desse homem.
Tivemos várias palestras incríveis com profissionais de diferentes áreas, psicanalistas, historiadores. Tudo amplia muito sua visão, você consegue abordar a obra por vários ângulos. Minha composição foi um mosaico. Esse trabalho não é realista. Capitu é uma personagem mítica. Quais são os mitos dessa mulher? O que ela representa? Qual é seu arquétipo? Tudo isso foi utilizado para a composição da personagem.
Também acho que o trabalho físico teve uma importância fundamental. Gravamos em um grande espaço em ruínas, os cenários não eram realistas, a gente tinha apenas alguns elementos das casas dos personagens. Então, a tradução desses personagens tinha muito que estar no nosso corpo, no nosso movimento. O trabalho físico foi mesmo de extrema importância nessa composição.
Folha Online - Como é viver uma personagem de Machado de Assis?
Maria Fernanda Cândido - A obra de Machado de Assis que é uma preciosidade da literatura brasileira e, para mim, uma fonte de estudo inesgotável. O Machado tem muita sensibilidade.
Folha Online - Como leitora, você já se interessava pela personagem antes mesmo de ser cotada para interpretá-la?
Maria Fernanda Cândido - Recebi o convite para fazer Capitu com muita alegria, muito prazer. Eu fiquei realmente lisonjeada, porque Capitu é mesmo a grande personagem da literatura brasileira. Capitu é uma mulher muito cheia de vida, uma pessoa que luta para ser feliz, muito otimista, muito positiva em relação à vida. É uma mulher que cria saídas para as dificuldades, não é uma pessoa que se acomoda em um momento difícil ou diante de um obstáculo que aparece na frente dela. É criativa, inventiva.
Folha Online - Qual a diferença entre fazer um papel em uma novela e em uma minissérie?
Maria Fernanda Cândido - Capitu é um trabalho muito mais artesanal, manual, muito diferente de se fazer uma novela.
Folha Online - Pra você, Capitu traiu ou não Bentinho?
Maria Fernanda Cândido - Esse foi o terceiro momento que tive contato com "Dom Casmurro", especificamente. O primeiro foi aos 18 anos, depois aos 27 e agora aos 33. Tive impressões muito diferentes em cada uma dessas fases, e foram muito interessantes todas elas.
Nesta fase da minha vida, em que me aproximei novamente dessa obra, percebi que a traição não é a questão essencial do livro, e sim a dúvida. A dúvida é o tema central de "Dom Casmurro". Então, acho que é uma questão aberta, que não tem resposta e deve continuar assim. E a série respeita o Machado de Assis no sentido de que Luiz Fernando fez realmente um grande tratado sobre a dúvida.
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