ILUSTRADA 50 ANOS: 1984 - Jorge Luis Borges visita SP
"Jorge Luis Borges está em São Paulo", assinado por Junia Nogueira de Sá, foi publicado originalmente terça-feira, 14 de agosto de 1984.
"Agora é invulnerável como os deuses. Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, nem essa coisa branca, a lua, que já não tem que prender em palavras". (Jorge Luis Borges, in "Maio 20, 1928")
Quando os aplausos começaram, primeiros tímidos, depois sonoros e generosos, ele apenas baixou três vezes a cabeça de ralos e branquíssimos fios e agradeceu sorrindo. As faces rosadas, contrastando com a pele muito alva e o terno azul, um pouco folgado para a sua magreza forte de velho, faziam de Jorge Luis Borges um ser quase imaginário sobre a cadeira de rodas, recurso indispensável por causa do seu problema de visão. O poeta, contista, ensaísta, escritor e mestre de todos nós desembarcou ontem, às 22h30, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para uma estada de dois dias apenas. Foram promessas e mais promessas finalmente cumpridas. Ele atravessou a fronteira da sua Argentina, com destino ao Brasil, umas poucas vezes na infância, e apenas duas na idade adulta. Esta é a terceira. "Espero tudo desta viagem. Tudo". Foi a única coisa que respondeu aos repórteres.
| Divulgação |
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| O escritor Jorge Luis Borges durante viagem a Israel, no Muro das Lamentações |
A viagem demorou quatro horas, tempo demais para sua inquietude. Ele fez questão de não dormir. Jantou pouco, reclamou do cansaço - o vôo fez ainda uma escala em Iguaçu - e, no desembarque, altivo ainda, mencionou sua idade para fugir dos jornalistas. "Estou cansado, afinal sou um homem de 85 anos, não acham?" Ele completa esses 85 anos, esqueceu-se de dizer, no próximo dia 24 de agosto, já de volta à Argentina. E quer que a data transcorra sem festas. Borges não gosta de somar anos à sua conta que ele imagina chegar a ser centenária, como a da mãe, que morreu aos 99 anos de idade. Repete sistematicamente que prefere a morte. "Seria um alívio", diz com enfado sobre o tema. E a certeza de que viverá muito tempo, senão física, pelo menos literariamente, perpassa seus olhos embaçados e sempre semicerrados. Borges enxerga tudo, mas não vê nada há muito tempo. Nem mesmo livros ele lê, e com fino senso de humor cutucou um repórter mais afoito, que tentava cavar sua opinião sobre a literatura brasileira contemporânea. "Não consigo ler nada desde 55". Ele apenas vê vultos, luz e cores. E só enxerga porque esse privilégio não vem dos olhos - brota, antes, da alma.
Jorge Luis Borges teve dificuldades para entrar no carro, muitos fãs cercavam seus passos. É, Borges tem fãs no Brasil, que lhe prepararam uma acolhida discreta mas calorosa. Gente disposta a sair de casa numa noite de inverno ameno de São Paulo apenas para vê-lo de longe, acompanhá-lo uns poucos metros pela calçada e despedir-se sem ao menos ouvir sua voz. Mas que saiu dali completamente recompensada.
"Vim para desfazer a mágoa que tenho desde que, em Buenos Aires, assisti a um teatro de revista onde falavam mal de Borges. Gozavam de sua idade e de suas posições políticas, e saí triste de lá. Adoro Borges". A advogada Adélia Dias Batista, 50, deixou a filha sozinha em casa, prestes a viajar para Campinas, e arrastou o marido Cleômines para o aeroporto. O casal recorta artigos sobre os escritor, lê seus livros e, quando vai à Argentina, freqüenta os lugares onde Borges supostamente poderia ser encontrado. Mas o encanto só foi quebrado, realmente, ontem: viram o homem a metros de seus olhos. Como viu, também, o espanhol Juan Manuel Córdoba, 36, desenhista, que se apaixonou por Borges quando morou na Argentina, entre 50 e 67. "Vibrei quando ele ganhou o Prêmio Cervantes", comentou.
Num canto, máquina fotográfica a postos, o professor de Língua e Literatura Espanhola e Hispano-americana da USP, Jorge Schwartz, não escondia a emoção. Foi apresentado ao mundo fantástico de Borges em 69, quando estudava na Universidade Hebraica de Jerusalém. No mesmo ano, viu o mestre numa palestra na escola. E rendeu-se definitivamente. Hoje, é uma das maiores autoridades em Borges no Brasil. E se irrita quando falam de postura política - considerada reacionária por muitos - de seu ídolo. "Nada disso importa. O que vai permanecer é essa literatura imaculada que ele produz". Ele procurou informações sobre o pouso do avião diversas vezes, contornando o nervosismo pelo atraso. "Borges já deu até mesmo declarações racistas, contra os negros. Mas nem isso importa. Aliás, acho que ele tem melhorado muito nesse aspecto, está menos irreverente. E quem apoiou o presidente Hipólito Irigoyen, em 27 (foi o único eleito pela Union Civica Radical, o mesmo partido de Raul Alfonsín, atual presidente) tido como um dos precursores da abertura Argentina, não muda jamais. Borges é Borges".
Visto de perto, Borges é fatalmente Borges. Separando-se ética e estética, é Borges mesmo, o maior escritor vivo deste planeta. Que, da janela do carro, vendo alguma coisa que ele deve entender como um vulto chegar-se, acena e despede-se polidamente. Sorrindo, apesar de todo o cansaço imposto pela vida entre os mortais.
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