"O mercado resolve o problema da cultura", diz Maria Rita Kehl
DAYANNE MIKEVIS
PAULA CARVALHO
da Folha Online
A psicanalista Maria Rita Kehl afirmou que a relação entre cultura e política fica mais difícil de se perceber quando há liberdade, ao iniciar sua fala no debate "Cultura e Política", evento que integra ciclo da comemoração dos 50 anos da Ilustrada.
Kehl concentrou sua fala entre os dois temas e a relação com o mercado.
Além dela, integram a mesa o cineasta Cacá Diegues, o compositor Caetano Veloso e o poeta Ferreira Gullar. A mediação é feita do editor de política da Folha, Fernando de Barros e Silva.
A psicanalista disse que durante os anos da ditadura a indústria cultural se desenvolveu no Brasil. Ela também citou o crescimento da Rede Globo e de uma visão criada do país, que beira à "esquizofrenia", pois a TV vende uma imagem modernizada do Brasil.
"Passamos do revólver para o talão de cheques em dois, três anos", comentou, ao falar do fim da ditadura durante os anos 1980. Kehl também disse que a ditadura "se retirou, não caiu".
Ela afirmou ainda que muitos dos jornalistas que escreveram na Ilustrada adotaram rapidamente o pensamento comercial. "O mercado resolve o problema da cultura", sentenciou a psicanalista.
Ela também falou da produção cultural em si e a relação com o mercado. "Se o mercado pautar a produção cultural, a experiência fica difícil e a experiência é tudo", disse a psicanalista.
Ela exemplificou um outro caso com a disputa entre José Celso Martinez Correa e seu teatro Oficina contra o grupo Silvio Santos. "Eu acho que o Zé Celso está indo muito mais longe, eu acho que ele quer provar que tem coisas que valem mais que o dinheiro e que a arte vale mais que o dinheiro", disse Kehl.
"Há um certo preconceito", afirmou Kehl sobre os investimentos do Estado na cultura, dizendo que ninguém reclama quando o poder público intervém em bancos, em companhias.
Kehl definiu cultura de esquerda aquela manifestação artística que mostra uma alternativo à mesmice da sociedade.
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