Ilustrada
11/12/2008 - 10h36

ILUSTRADA 50 ANOS: 1983 - David Bowie se afasta do "glitter"

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"O deus-diabo da era do rock e da técnica", assinado por Pepe Escobar, foi publicado originalmente quinat-feira, 28 de abril de 1983.

Esta é a história exemplar do corpo-a-corpo entre o artista moderno e seu tempo. David Bowie e estes anos loucos não apenas foram feitos um para o outro; até certo ponto, criaram-se um ao outro, e não uma só vez, mas infinitamente.

David Bowie - nascido vagamente classe média em um subúrbio londrino de sólida tradição proletária, em 1947 - surgiu para o mundo em 72: cabelos alaranjados, lamê, andrógino, metálico, estridente. Choque radical: não tanto pela insinuante decadência, produto da era da lua, mas pela teatralidade com que se apresentava. A convicção emocional sempre foi a matéria-prima do rock'n roll, desde suas origens no blues e no folk. Bowie preferiu transgredir: manipulativo, surreal, até mesmo camp. A mensagem era muito menos perturbadora do que o mensageiro. Ele aparecia através de seu alter-ego, Ziggy Stardust: um messias sintético, alien que caiu na Terra para atuar uma paródia do rock-estrelato. Um deliberado camaleão: sem passado, sem identidade. Para uns, o futuro. Para outros, um posador sem alma.

Divulgação
David Bowie como Ziggy Stardust, o "messias sintético"
David Bowie como Ziggy Stardust, o "messias sintético"

A verdade era mais complexa. Bowie era um produto típico do ecletismo da era Sgt. Pepper. Um outsider, claro, mas nem sempre escolhendo exaltar esta condição. Preferia se deixar influenciar por tudo: o estilo vocal de Anthony Newley, a visão de mundo cabaré-kitsch de Jacques Brel, mímica (estudos com Lindsay Kemp), misticismo (flerte com Zen), arte de vanguarda (experimentos em multimídia à la Warhol). E mergulhava na poesia simbolista, mesclada com a boemia artística de Oscar Wilde. Acima de tudo, um objetivo: fazer rock'n roll.

Bowie chegou muito tarde para os anos 60. Mas já no álbum "Hunky Dory" inventava-se pela primeira vez, não como o imaturo romântico do início da carreira, mas no calculado papel de revisionista cool dos anos 70, criando imagens de segundo mão a partir de detritos culturais, forjando uma nova síntese. O artista como herói auto-referente, a metalinguagem, precursores (Dylan, Lou Reed, Warhol) tratados como pedras de toque culturais - toda esta bagagem modernista empregada por Bowie já havia sido enterrada na literatura, mas era nova para o rock. Agora, preparava-se o terreno para uma nova geração de rock'n rollers, frios, sexualmente ambíguos, emergindo das cinzas dos 60 para forjar uma irônica consciência futurista.

Com "Ziggy Stardust", Bowie tornou-se o avatar de uma nova era. Nos LPs seguintes, ele continuou mantendo em permanente transformismo sua persona de eterno outsider/camaleão sem face (cuja utilização, como símbolos e desorientação analógicos ou expressivos, que já havia descoberto no tempo de "Space Oddity", em 68). Continuava elaborando equivalentes alegóricos para a morte do mito dos anos 60. Mas, no processo, já inventava cenários alternativos para a própria época. Na era do artifício, era o artífice-mestre.

Que habilidade! Qualquer quimera subjetiva que criasse funcionava como fantasia de massa. Mas esta habilidade dependia de sua recusa em se engajar em qualquer destas intenções. Redefinindo o conceito de estrelato com uma série de personificações brilhantes, expandiu suas possibilidades de utilização: qualquer garoto de subúrbio podia ser um criador: ele era apenas mais um. E, porque era intelectual e alienado, foi capaz de entender o rock'n roll criticamente - como misto de construção artística, fenômeno social e força cultural -, de uma maneira a que seus predecessores, vivendo o mito por dentro, nunca poderiam aspirar.

Conferindo novos matizes às noções de elegância e estilo, Bowie abandonou o "glitter" pelos efeitos dramáticos grandiloqüentes, adotou um estilo visual rígido e foi gravar na Filadélfia um LP funky: "Young Americans". Outro ousado experimento de adaptação de sua mensagem a formatos da mídia. Continuou elaborando conexões, inventando paralelos, brincando com contextos - recriando branco como negro, sexo como política, política como sexo; método paródico, involutivo - e transformou a soul music em plástico (era o auge da discoteca), mecanizando todos seus componentes formais, para criar sua própria versão de soul, transfigurada pela persona. Toque de extrema classe, épico senso do momento histórico e suas possibilidades: estava remodelada a música negra para ouvidos brancos.

Ex-andrógino do lamê, ex-gélido e cansado aristocrata do rock, Bowie ficou um ano sem conseguir trabalhar, no limbo, talvez maquinando seu próximo e mais inteligente movimento. Reemergiu em Berlim, seguindo os passos de Christopher Isherwood, descobrindo a agonia da Europa em um estudo de gravação junto ao muro. Agora era o art-rocker tecnocrático de vanguarda: sério, insular, definitivamente anticomercial. Seqüência lógica, depois do LP "Station to Station" (pop tratado como ruído eletrônico experimental). Bowie e o mágico de estúdio Brian Eno compõem a "trilogia de Berlim" (ruído eletrônico experimental tratado como pop): os álbuns "Low", "Heroes" e "Lodger", fascinante e ultramoderna dança de fragmentos elípticos com rigoroso acabamento formal e uma descontração emocional inédita em Bowie. "Lodger", o clímax da trilogia, condensa todas as estratégias influenciadas por Brian Eno e dispersas nos dois primeiros álbuns em um estilo fluido, sintetizando ao mesmo tempo todos os temas da carreira de Bowie: o eterno viajante perdido no mundo, em busca do lar, do amor e das raízes, mas capaz de se definir apenas através do movimento. Não por acaso, são os temas da melhor literatura americana contemporânea.

Apenas cultivando a mobilidade, Bowie poderia prescindir dos lucrativos compromissos de uma estrela do rock para participar de projetos como a versão teatral de "O Homem Elefante", sem recurso a maquilagens "monstruosas". Interpretou músicas de Jacques Brel, Dimitri Tiomkin e Brecht. Compôs e produziu para outros artistas. Fez cinema com diretores de máximo prestígio, como Nicolas Roeg ("O Homem que Caiu na Terra"), Nagisa Oshima ("Merry Christmas, Mr. Lawrence"), e certamente marcará sua definitiva interpretação nas telas em "The Hunger", de Tony Scott (irmão de Ridley Scott, o diretor de "Alien" e "Blade Runner"), onde é um aristocrata que vive há 300 anos, envolto em um triângulo amoroso com uma sensual doutora especializada em geriatria e uma mulher-vampiro que vive impunemente desde o Egito antigo. Goza de uma liberdade que qualquer artista invejaria. Trocou a RCA, depois de muitos anos, pela EMI, passou com os exercícios de cut-up e justaposição de palavras em "Let's Dance", voltou ao som de suas raízes, o rhythm'n blues.

Bowie construiu uma série de extraordinárias imagens que provavelmente permanecerão como um documento central desta época. Praticamente sozinho, ele colocou o rock em uma nova era - redefinindo rebelião como entretenimento e entretenimento como subversão, sempre modificando a percepção formal de seu público, e o provocando para possibilidades inimagináveis. Mostrou e continua mostrando que é possível escapar da classe social, dos compromissos ideológicos, do sexo com que se nasceu, da personalidade imposta pelas circunstâncias. Daí sua influência determinante para milhões, em todo o mundo. Através de Bowie, aprenderam que é possível manter um distanciamento estético frente às próprias criações. Que a apresentação de uma obra é tão importante quanto sua essência. Que a construção de uma imagem exige tanto engenho, poesia e arte quanto a música em sua base. E que nossa condição a definiu Conrad - "Vivemos como sonhamos - sós" - mas ao menos temos todas as possibilidades de viajar pela vida e pelo sonho como e com quem escolhermos.

 

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