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Ilustrada
05/10/2000 - 18h04

Paulo Coelho diz que errou ao vender "O Alquimista" para a Warner

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CECILIA NEGRÃO
da Folha Online

O escritor Paulo Coelho lança amanhã o livro "O Demônio e a Senhora Prym".

Em entrevista à Folha Online, o escritor comenta sua mais recente obra e diz que errou ao vender "O Alquimista" para a Warner Brothers. "Proibi a venda de direitos de todos os meus livros. Ver os personagens com rostos e roupas seria decepcionante", diz.

Folha Online - Como surgiu a idéia de escrever o "O Demônio e a Senhora Prym"?

Paulo Coelho -
O tema do bem e do mal tem sido uma preocupação constante para mim. Numa sociedade que muda constantemente de valores - onde um dia podemos matar de fome as crianças do Iraque porque é "um preço justo" , segundo Madeleine Albright, no outro dia deixar que o Timor Leste caia numa onda de violência com apoio da Indonésia, porque a comunidade internacional está mais preocupada com os encontros do Banco Mundial - quando vemos a violência e a corrupção em todos os níveis, sempre com boas justificativas para que a situação continue assim, onde buscar um código de valores que não seja manipulado pela mídia e pela sociedade?

Eu pensava no tema, andando numa montanha dos Pirineus, quando vi uma fonte, onde um sol despeja água na boca de um sapo. Era uma cidade pequena, procurei saber a origem daquele monumento - que simbolicamente para mim refletia a volta da luz e da fertilidade num mundo conturbado. Ninguém na cidade soube me responder. Resolvi, unindo com o que pensava (os valores), contar uma história sobre aquela fonte. Daí saiu o livro.

Folha Online - Muitos críticos pregaram seu fim após o lançamento de seus primeiros livros. Hoje, com 27 milhões de exemplares vendidos em mais de 170 países, como o senhor analisa seu sucesso?

Paulo Coelho -
Na verdade, nunca me detive para analisar o sucesso. O que vejo, isso sim, é que tenho leitores que me acompanham desde o primeiro livro, e outros novos - tanto que o novo livro sai com a maior tiragem já feita, 210 mil exemplares. Entretanto, não posso sentar e dizer "conquistei um publico", porque cada livro é um desafio de mergulho no fundo da minha alma.

Folha Online - Ainda sobre seu sucesso no exterior, como o sr. vê a boa recepção de seus livros em lugares como o Irã?

Paulo Coelho -
Existe uma linguagem simbólica que está além das diferenças culturais. Já conversei com leitores no Japão, Austrália, Irã, Israel, e sinto que estamos todos conectados em mudanças importantes no momento presente, como o despertar da espiritualidade e os riscos de fundamentalismo que isso acarreta. Há uma grande cumplicidade entre o escritor e seus leitores.

Folha Online - Algum novo projeto? Filmes, novelas, no Brasil ou exterior?

Paulo Coelho -
Quanto a filmes, o único projeto - já concretizado - foi proibir a venda de direitos de todos os meus livros. Não consegui recuperar os de "O Alquimista", comprados pela Warner Brothers, embora já tenha oferecido o dobro do que pagaram. Maktub, todo mundo pode cometer erros. Mas não tenho interesse em vender os outros livros para outro meio, pois penso que o leitor é um co-criador da obra, e ver os personagens com rostos, roupas, etc. seria decepcionante.

Folha Online - Existe a possibilidade de o senhor se candidatar à vaga dos escritores Barbosa Lima Sobrinho e/ou Afrânio Coutinho, na ABL?

Paulo Coelho -
Nenhuma. Evidente que, como todo escritor brasileiro, gostaria de um dia fazer parte da ABL. Mas não é o momento.

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