ILUSTRADA 50 ANOS: 2008 - Wagner Moura faz o Hamlet da sua geração
"Moura faz o Hamlet da sua geração", assinado por Sérgio Salvia Coelho, foi publicado originalmente quarta-feira, 25 de junho de 2008.
Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de "fazer seu Hamlet" com a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração.
Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra-prima de Shakespeare, síntese do teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, que assumia o papel de construir o moderno teatro brasileiro; e, em oposição, um Marcelo Drummond se estraçalhando como um camicase nos caóticos anos 90, na montagem do Oficina.
| Lenise Pinheiro/Folha Imagem |
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| Wagner Moura encena "Hamlet" no teatro Faap, em São Paulo |
Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou.
Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.
Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O "ser ou não ser" tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro.
Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com "Hamlet": tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do "Púcaro Búlgaro": coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava "O Que Diz Molero", e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual.
Rei coletivo
Em uma metalinguagem, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita pelo elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.
Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso. Humano em sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a dor no centro do cômico.
Georgiana Góes é uma adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora, façanha de Rodrigo Amarante.
Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final. Já Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, clowns meticulosos, sabem honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (Horácio) e Felipe Kouri completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.
Esse "Hamlet" é indispensável e antológico por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo contagiante pela própria grandeza do teatro. Na ratoeira de "Hamlet", o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito.
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