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Ilustrada
14/12/2008 - 10h52

Intelectual é fonte de pensamento independente no jornal

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RAFAEL CARIELLO
da Folha de S.Paulo

O jornalismo cultural e os intelectuais vinculados ao mundo acadêmico sempre tiveram uma relação tensa e indissolúvel. Tanto quanto a ligação dos cadernos de cultura com o mercado. É das características desse triângulo "amoroso" que resulta o tipo de jornal que o leitor terá nas mãos.

Para Marcos Nobre, professor de filosofia política da Unicamp, o impasse em que se encontra hoje o jornalismo cultural deriva de sua relação quase simbiótica com o mercado. E se o papel dos cadernos de cultura, mais do que qualquer outra seção do jornal, é o de romper parâmetros, sua oportunidade e agenda futura estão dadas.

O parâmetro a ser rompido hoje, diz Nobre, é o de que o único elemento unificador da cultura, e legitimador da agenda jornalística, é o mercado.

"A Ilustrada anda no fio da navalha para não fazer do consumidor de cultura o seu denominador comum. A Ilustrada corre o risco permanente de se tornar um Guia da Folha explicado", ele diz. "Também porque, durante algum tempo, teve-se a ilusão de que essa seria uma saída para a tensão entre jornalistas e acadêmicos que tem caracterizado o pêndulo do jornalismo cultural nos últimos 30 anos."

Que tensão é essa, afinal? O jornal precisa dos intelectuais e da universidade, segundo Nobre, como garantia de certa opinião independente de interesses comerciais, além de tecnicamente competente para a avaliação dos produtos e eventos noticiados.

Durante algum tempo --que teve como auge os anos 80-- intelectuais também confluíram para o jornal. "Quando se consolida a universidade --depois do bem-sucedido processo de implantação do sistema de pós-graduação--, ela é ao mesmo tempo impedida de se apresentar ao público de maneira mais ampla pela repressão da ditadura militar. Acadêmicos passaram a ocupar os jornais como forma direta e explícita de intervenção política."

Um dos canais de veiculação dessa cultura e crítica represadas foi, nos anos 80, o caderno *Folhetim,* que teve como um de seus editores o hoje crítico de arte Rodrigo Naves. Em entrevista para o livro "Pós-Tudo - 50 Anos de Cultura na Ilustrada" (Publifolha), ele diz que o jornal abriu espaço para assuntos, autores e artistas até então "recalcados", segundo a expressão do editor da Ilustrada, Marcos Augusto Gonçalves.

"Houve uma renovação temática e autoral", diz Naves.

O historiador Milton Ohata, editor de ensaios e obras de ciências humanas na editora Cosac Naify, cita o trabalho de Naves como um momento marcante de boa resolução nes­sa tensão entre universidade e jornal que lhe parece improvável de ser repetido. "Aquilo marcou muito toda a minha geração", diz Ohata.

Para Marcos Nobre, tal confluência entre universidade e jornal não tem resultado, em geral, num encontro harmonioso. Ao contrário, há "um conflito entre produção acadêmica e produção jornalística que permanece". "Até hoje, quando se quer desqualificar um acadêmico, diz-se que ele é jornalista. E quem trabalha em jornal entra em desespero diante de textos de acadêmicos que não conseguem formulações adequadas à linguagem jornalística."

Produtos demais

Uma primeira tentativa de fazer os dois mundos convergirem mais fortemente na definição de agenda do debate cultural no país ocorreu, a seu ver, com a criação do caderno Mais!. Ocorre que o momento era justamente o de uma revolução na quantidade de produtos culturais ofertados.

"A descoberta da produção cultural mundial em tempo real teve muito de deslumbramento. E provocou uma reação que perdura até hoje: a de que a cultura se estilhaçou e que não forma mais um todo homogêneo." Daí a impressão de que só pelo mercado é possível unificar tal cultura "estilhaçada".

Contra essa tentativa de continuar a cobrir a cultura como se fosse possível abarcar a totalidade dos produtos e assuntos, Nobre propõe uma agenda para o jornalismo cultural em que a aproximação com os intelectuais teria papel importante.

Os principais pontos são: 1) politizar a cobertura de cultura, apresentando os projetos conflitantes de vida cultural no país, e 2) "produzir conversas". "É muito mais produtivo co­brir menos coisas, mas fazer uma discussão sobre alguma coisa, do que tentar abraçar tudo. Menos coisas com mais densidade. Menos espelho do que acontece, e mais escolha do que deve ser discutido a fundo. A quantidade tem atrapalhado, e muito", ele diz.

O antropólogo Hermano Vianna acrescenta um projeto extra: diz que o próprio "mercado" em que o jornalismo cultural se baseia já não é a totalidade do mercado, que nem forma estabelecida tem.

Caberia perguntar, ele diz: "O que é o mercado? Como funciona? Como fazer uma crítica consistente do funcionamento contemporâneo do mercado?".

"Por exemplo: falar em mercado da música hoje, o que significa? As tais grandes gravadoras em atuação no Brasil não têm nem cem artistas contratados. E esse número declina todos os dias."

 

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