Publicidade

Ilustrada
15/12/2008 - 14h19

ILUSTRADA 50 ANOS: 1985 - Disco dos Smiths é lançado no Brasil

Publicidade

"Disco dos Smiths é lançado no Brasil", assinado por Fernando Naporano, foi publicado originalmente quinta-feira, 28 de novembro de 1985.

No país onde qualquer faísca é um trovão chapante, mais uma guerrinha é vencida. Durou um bom tempo, o suficiente para os aficionados perderem a paciência e os new-waves festivos se tornarem aptos a, ao menos, respeitar os admiráveis e mistificados The Smiths. Por fim, a WEA adquiriu os direitos de representação da gravadora Rough Trade e, aproveitando a aparição da onda "mix" por aqui, lançou esta semana um compacto com doze polegadas com três bonitas faixas, sendo que "The Boy With the Thorn in His Side" é a principal. Trata-se do enésimo single desta banda que já tem 3 LPs, que serão, aos poucos, lançados no Brasil.

Na verdade, isto significa uma pequena manifestação de uma das mais importantes revoluções da indústria fonográfica: os famosos "singles" (que geralmente têm de duas a quatro faixas), os badalados EPs ("extended plays", que são pequenos LPs com média de quatro a seis faixas) e o império "mix" (na sua maior parte com versões prolongadas e/ou alternadas da gravação oficial apresentada no LP).

Ethan Miller/Reuters
Morrissey, ex-vocalista dos Smiths
Morrissey, ex-vocalista dos Smiths

Claro que um disco é muito pouco, mas, afinal, pode funcionar como teste no Brasil para este produto, que na Europa tornou-se mais importante que os LPs. As razões básicas que levam o público aos singles são deveras simples: muitas pessoas, dado o caráter descartável do pop atual, não têm paciência para ouvir um disco inteiro; outras, gostam apenas de uma ou duas faixas; o custo é relativamente mais barato que o dos álbuns.

Pois bem, e temos "The Boy With the Thorn in His Side", que, para alguns, poucos importou, e, para outras opiniões críticas, como a de Janice Long no jornal inglês Melody Maker, é mais um adorável trabalho do quarteto de Manchester que, com méritos, virou a banda independente mais popular da Inglaterra. Apesar de no ano de 1985 o vocalista e letrista Steven Morrissey ter declarado coisas como "todo trabalho dos Smiths é maravilhoso" ou que "a imagem do grupo é tão forte que provoca adoração absoluta ou ódio assassino" e ter confessado serem "provavelmente extraordinárias" estas suas mais recentes canções, não obstante de serem boas (notoriamente "Asleep"), estão longe de suas melhores criações. Não trazem o "niilirismo" de "Jane", o impacto melódico de "This Charming Man", a contundência confessional de "Heaven Knows I'm Miserable Now", a memorialística de "Back to the Old House", muito menos a dor passional de "William, It Was Really Nothing" ou o rude protesto de "Meat Is Murder".

Por acaso ou não, em termos de vendagem, este foi o que menos emplacou na carreira dos Smiths, pois, ao contrário dos seus demais discos, não ficou infinitas semanas nos primeiros lugares (no momento está na 15ª posição). A capa desta vez traz o escritor Truman Capote, inteligentemente fotografado por Cecil Beaton. A prensagem do vinil nacional é muito boa, estando inclusive acima da média das outras edições da WEA. Quanto à cor da capa, está levemente alterada, mas tudo bem.

A faixa-título "The Boy With the Thorn in His Side" é marcada por uma indomável rispidez musical, construída através do violão e da cortante guitarra de Johnny Marr (o autor de todas as músicas do grupo). A ótima cadência do baixo de Andy Rourke e da bateria de Mike Joyce dá plena liberdade aos intensos rodeios vocais de Morrissey, que delicia-se em prolongar os finais de frase. Musicalmente é um "hillibilly" bastante pop, com personalíssimo estilo da banda.

No outro lado, ouvimos "Rubber Ring", que apresenta um delicado tom funkeado, crescente e monocórdico. Depois, "Asleep", simplesmente com a envolvente voz de Morrissey e o tênue piano tocado por Marr. É uma lindíssima balada de fundo intimista, com uma edificante letra onde o autor busca adormecer profundamente os infernos amorosos, numa concepção que alude ao poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges nestes seus versos: "Sentir que a vigília é outro sono/ Que sonha não sonhar e que a morte/ Que teme a nossa carne é essa morte/ De cada noite, que se chama sono".

Assim, neste poético sono de Morrissey encerra-se esta curta aventura "rockmântica-existencial", que mesmo não sendo o que de melhor os Smiths já fizeram, não deixa de ser um elegante lançamento. Espera-se que os próximos singles sejam bem recebidos, isto se o fabuloso catálogo da Rough Trade, Korova, Blanco Y Negro, ZTT e Island não ficarem limitados aos chavões, nem aos grupos de maior renome, como os Smiths.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca