Ilustrada
15/12/2008 - 16h10

ILUSTRADA 50 ANOS: 1984 - Kerouac, na estrada da beatitude

Publicidade

"Kerouac, na estrada da beatitude", assinado por Pepe Escobar, foi publicado originalmente domingo, 5 de fevereiro de 1984.

Jack foi o rei beat. O termo "beat generation" é seu. Mas, quem diria, chegou aos ouvidos públicos através do solene New York Times, em um artigo de Clellon Holmes de novembro de 1952. "On The Road" só apareceu cinco anos depois: a narração agora mítica de uma odisséia através da América sob o ponto de vista de uma juventude "louca para viver, louca para falar, louca para se salvar". Burroughs, Ginsberg, Corso, Ferlinghetti e até Norman Mailer se identificaram com beat. Mas Kerouac se afigurou como o Grande Libertador - um viajante solitário contra o sonambulismo da era Eisenhower. A rebelião beat veio com sexto fácil, drogas e jazz. O reino beatnik (o "nik" anexado depois do lançamento do Sputnik) até se expandiu para o outro lado do Atlântico, gerando os "angry young men" do teatro e literatura ingleses. No primeiro mundo, com ramificações em Ipanema e travessas da Augusta, clubes de jazz, bares e cafés transformaram-se em templos da nova religião. "On The Road", a crônica-elegia do narrador Sal Paradise de sua louca escapade com seu best friend Dean Moriarty, foi o guia.

Stanley Twardowicz/AP
O escritor Jack Kerouac em 1967
O escritor Jack Kerouac em 1967

A dança infatigável da prosa de Kerouac surge de duas fontes íntimas e contraditórias. Primeira e mais brilhante: seu uso impetuoso da linguagem, um fluxo de consciência jornalístico sempre comparável aos tórridos solos de sax dos enfurecidos grupos negros de jazz com os quais ele dizia manter eterna ligação espiritual. Jack ficava possesso. Nem se incomodava em trocar de lauda ao escrever em velha Underwood: enfiava um rolo de papel de embrulho e saía martelando furiosamente um longo e histérico crescendo verbal, com medo de parar e perder algum precioso riff de palavras.

Mas a circunstância mais triste de seu gênio está no distanciamento de toda a loucura que celebrava, de toda a utopia com alta taxa kármica que imortalizou. Jack vivia fechado em si. Só poderia ficar à margem e registrar a loucura de seus romances, imolando-se em uma chama de glória orgiástica. Toda a loucura de Jack estava nas suas palavras. Ele socava as teclas enquanto em sua volta a vida soltava faíscas. Ao final de tudo, amargo e dissoluto, não sabia mais se a viagem tinha valido a pena.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca