Catherine Deneuve relembra o início da carreira e a relação com cineastas
ARNAUD DESPLECHIN
Texto publicado originalmente na "Film Comment"
Arnaud Desplechin é cineasta francês, diretor de "A Amada" (2007) e "Reis e Rainha" (2004), entre outros filmes. Tradução de Clara Allain.
É claro que há sua beleza chocante, direta. Catherine Deneuve é bela de uma maneira direta. E porque ela carrega essa beleza deslumbrante com grande serenidade.
E há sua audácia --Catherine é audaciosa!
Sua velocidade --é a atriz mais veloz do mundo (ela rejeita a ênfase; a estupidez a entedia).
Sua rebelião: nunca jogar os jogos dos adultos! Ela certa vez descreveu Mastroianni como "um garoto", porque ele nunca se esqueceu da criança que tinha sido. Devido a sua rebelião, Catherine é a atriz favorita de todas as crianças francesas. Porque é uma menina.
Um de seus segredos: nunca se queixar, nunca explicar --uma rainha!
| 16.mai.2008/Jean-Paul Pelissier/Reuters |
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| Catherine Deneuve comenta trabalho com grandes diretores como Luis Buñuel, François Truffaut, Roman Polanski e Lars Von Trier |
Catherine Deneuve - Isto vai ser sério?
Pergunta - É para a "Film Comment". É um pouco como uma "Cahiers du Cinema" dos EUA.
Deneuve - Eu não leio "Les Cahiers"; compro, mas não leio. Essas revistas são na realidade para pessoas que refletem sobre o cinema, que pensam o cinema. Não são feitas para pessoas como eu. Na verdade, não leio muito sobre filmes.
Pergunta - Eu leio "Les Cahiers" desde que tinha 16 anos.
Deneuve - Para mim há duas coisas: ação e reflexão. E constato que sou mais uma pessoa de ação. Sou leitora lenta, então prefiro passar esse tempo assistindo a um filme.
Pergunta - Mas, quando a sra. começou, esse sonho de estar no cinema não se materializava em conversas? Chama minha atenção quantas das pessoas com quem a sra. trabalhou em seus primeiros filmes eram ligadas à nouvelle vague: Doniol-Valcroze, Vadim, Delerue, Coutard... Eles não adoravam falar de cinema?
Deneuve - Sim, mas essas pessoas gostavam mais de fazer piadas que de falar seriamente. Eram como eu, mais ligadas à ação.
Pergunta - A sra. nunca foi à Cinémathèque?
Deneuve - Às vezes. Um dos primeiros filmes que fui ver na vida foi "A Selva Nua". Fiquei tão impressionada! Eu era jovem... É sobre formigas que devoram tudo. É um filme muito belo em Technicolor, com Eleanor Parker, uma linda ruiva americana, e Charlton Heston. Era um filme de aventura americano com uma história muito improvável.
Recordo-me desse filme porque foi um dos primeiros que vi na vida --esse e "A Mulher do Rio", com Sophia Loren. Você a vê num arrozal, um pouco como Silvana Mangano em "Arroz Amargo" --um filme muito belo, muito realista, em que ela perde seu filho... Esperei ter um namorado cinéfilo para começar a ir ao cinema. Eu não ia por conta própria, apenas porque queria.
Pergunta - Então a sra. não era cinéfila na época em que fez seus primeiros filmes?
Deneuve - Sim, eu era, eu já tinha assistido a muitos filmes. Eu era muito jovem quando tive um namorado, então comecei a assistir a filmes interessantes aos 15 anos, mais ou menos na época em que fiz "Les Portes Claquent" [As Portas Batem] (1960). Ver "Ivã, o Terrível" exerceu um efeito tremendo sobre mim.
Pergunta - Isso foi na Cinémathèque?
Deneuve - Não. Foi na margem esquerda (do Sena), e isso para mim foi como viajar a um país estrangeiro. Ir a um bairro diferente era realmente...! E, como meu namorado morava na margem esquerda, fomos ver o filme num cinema na rue de Rennes.
Pergunta - Era o Arlequin, um cinema que pertencia ao Partido Comunista.
Deneuve - Sim, o Arlequin. Meu namorado era muito jovem, muito comunista, muito objetor de consciência, todas essas coisas.
Pergunta - Antes disso, a sra. não ia ao cinema com freqüência?
Deneuve - Muito pouco. Não saíamos muito como família.
Pergunta - Apesar de seu pai e sua mãe serem atores?
Deneuve - Meu pai trabalhava no teatro e era dublador, mas não vivíamos naquele meio. Minha mãe nos criou muito normalmente e muito seriamente, e o cinema não fazia parte de nossa vida de família.
Pergunta - A sra. tampouco ia ao teatro com muita freqüência, é verdade?
Deneuve - Quase nunca. Minha mãe trabalhava no teatro. Ela foi decana no Odéon antes de chegar aos 30 anos! Tinha começado lá ainda criança. E descobri, muito mais tarde, que minha avó tinha sido ponto no Odéon. É claro que fui assistir a minha irmã, Françoise Dorléac, quando ela estava em "Gigi".
Pergunta - Suas duas irmãs começaram a atuar antes da sra.
Deneuve - Mas minha irmã mais nova, Sylvie, só o fazia casualmente. Esteve num filme chamado "Les Petits Chats" [Os Gatinhos]. Fui figurante com ela algumas vezes. Também fez uma ponta em "Os Amores de Colegiais" (1957). E, como era época das férias escolares e eu queria ganhar um dinheirinho, apareci naquele filme também. Eu devia ter 13 anos na época.
Pergunta - Quem a sra. curtia mais --atores ou diretores?
Deneuve - É estranho, mas os atores nunca me fascinaram muito --com a exceção de Marilyn Monroe. Para mim, sempre foi o filme em primeiro lugar. Quando era adolescente, eu não era nem um pouco cinéfila; fui parar no cinema por coincidência. Foi minha irmã quem começou a trabalhar no teatro, o percurso clássico. O primeiro papel de minha vida foi ao lado dela, fazendo o papel de sua irmã.
Por essa razão sempre me senti um pouco à margem, até conhecer Jacques Demy. Foi então que me dei conta de que o cinema poderia ser outra coisa, quando comecei a ter um relacionamento (profissional) com alguém que realmente me queria, para esse filme em particular. Foi então que deixou de ser coincidência. Demy me tinha visto num filme chamado "L'Homme à Femmes" [O Homem das Mulheres, 1960], com Danielle Darrieux.
Pergunta - Demy lhe tinha oferecido o papel em "Os Guarda-Chuvas do Amor" (1964) muito antes de o filme ser feito. As filmagens tiveram que ser adiadas...
Deneuve - Sim, porque eu estava grávida.
Pergunta - A sra. já tinha feito o trabalho de Marc Allégret, mas aquilo foi uma coisa pequena, e então veio o filme de Pierre Kast, "Vacances Portugaises" [Férias Portuguesas, 1963].
Deneuve - Aquilo foi um papel pequeno. Esse, para mim, é o filme mais nouvelle vague que fiz na vida! Havia Doniol-Valcroze, Aptekman, Françoise Arnould, Françoise Brion... Foi quando me dei conta de que estava grávida. Eu devia ter apenas 19 anos.
Pergunta - Mas foi apenas depois de fazer "Os Guarda-Chuvas" que o cinema virou sua paixão?
Deneuve - Sim. Acho que o fato de o filme ser musical contou muito. Fizemos o filme com muito pouco, e acho que isso o beneficiou. Tínhamos que ser muito, muito criativos. Acabei passando muito tempo com Jacques. Eu estava presente a todas as gravações. Depois disso, trabalhei com a música do filme. E então eu estava grávida, de modo que ele adiou as filmagens. Rodamos o filme dois meses depois que dei à luz.
Pergunta - Além do trabalho de atriz, a sra. estava muito presente durante o trabalho de direção.
Deneuve - Com certeza, porque a preparação realmente era responsável por metade do filme. Era um filme que já existia antes mesmo de ser rodado. Eu me lembro de que, quando ouvimos a música, todos nós ficamos incrivelmente comovidos, apesar de ainda não haver imagens. Jacques era muito exigente, mas também muito tímido, e gostava de rir. Eu me reconheci completamente em sua maneira de trabalhar.
O processo de produção do filme era cheio de brincadeiras, e eu achei isso muito atraente: tudo me pareceu extraordinário. E acho que senti que Jacques me via como indispensável. Compreendi que o cinema tinha o potencial de ser assim: encontros entre pessoas que querem fazer coisas muito incomuns.
Se o filme não tivesse se saído bem, acho que teria sido uma história diferente --aquilo confirmou para mim que o mais importante era fazer coisas que você quer fazer com pessoas em quem confia e cujas idéias não lhe parecem convencionais demais. Para mim, alguma coisa mudou definitivamente quando trabalhei com Jacques. Alguma coisa profunda aconteceu em torno do relacionamento que podemos ter com um filme.
Pergunta - A sra. sabe o que teria querido fazer se as coisas não tivessem acontecido dessa maneira?
Deneuve - Eu provavelmente não teria feito nada. Eu teria me casado com meu namorado, que tinha ido para a guerra na Argélia, teria tido filhos e me divorciado três anos depois, com certeza! Acho que eu teria gostado de ser arquiteta. Sim, coisas que mais tarde eu desejei que meus filhos fossem. Arqueóloga --obviamente, isso não tem nada a ver com ser atriz! Para mim é absolutamente fascinante, então tentei incentivá-los... Especialmente meu filho, que era muito meticuloso, muito organizado. Minha filha diz: "Você tentou comigo, mas não por muito tempo". É que com Chiara foi mais difícil. Isso me teria feito feliz: antropóloga ou arquiteta. [Ela pensa mais um pouco e depois começa a rir.]
Pergunta - Aquele filme me comove profundamente. Freqüentemente, no cinema, um personagem só conquista o direito de ser herói se seus sentimentos são absolutos. Os sentimentos triviais precisam ser mantidos escondidos. Acho emocionante que nada de Geneviève seja escondido. Ela está grávida, é jovem, odeia seu amante porque está entediada. É a natureza trivial de suas emoções que me espanta. Outra atriz e outro diretor teriam exigido da personagem que provasse seu "absoluto" ao público. Para mim ela prova seu "relativo", e isso é muito mais comovente.
Deneuve - Isso é Demy, exatamente isso! É todo um jeito de filmar, como olhar a situação desde uma altura particular.
Pergunta - Como a sra. acha que Elia Kazan teria filmado essa heroína trivial --mas não tola?
Deneuve - É engraçado que você mencione Kazan, porque quando assisti a "Os Guarda-Chuvas" de novo, alguns anos atrás, isso me chamou a atenção: é exatamente o mesmo final que "Clamor do Sexo". Adoro esse filme. É uma das histórias de amor mais lindas que já vi no cinema. E a cena final é exatamente a mesma que a de "Guarda-Chuvas". Ele está na fazenda, com suas calças de trabalho, sua mulher, a criança, e ela volta... Foi tão comovente enxergar essa semelhança. Acho que é um dos filmes mais loucos, mais audazes sobre o tema do amor. Especialmente pelo fato de um rapaz fazer uma moça despertar para a vida de tal maneira! "Clamor do Sexo" trata tanto do amor desenfreado. A idéia de que o amor pode fazer você enlouquecer. É isso o que acontece: você fica insano! Saber como transmitir isso, fazer atores representarem assim. E é uma mulher muito jovem! Chegando ao ponto de vê-la partir para o hospital, porque ela está morrendo de amor, quer morrer. Aquele filme me nocauteou.
Pergunta - Geneviève também é muito jovem em "Guarda-Chuvas".
Deneuve - Sim, e isso é o suficiente. As duas são muito jovens.
Pergunta - Muitas outras coisas que fazemos quando somos jovens --como os personagens de Kazan ou os de "Guarda-Chuvas"-- fazemos por coincidência, ou por razões triviais.
Deneuve - É claro.
Pergunta - Mas é como recapturar tudo isso, o significado que a sra. atribui a isso com o tempo, como o usa e como transforma escolhas triviais numa escolha artística.
Deneuve - Sim, concordo plenamente.
Pergunta - Quando considero todos seus filmes, vejo uma qualidade singular que não enxergo em outros atores. O que vejo é a marca de uma autora. Além da excelência de sua atuação, o que seus filmes parecem compartilhar é seu olhar.
Deneuve - Sim, você tem razão, é isso que é: um olhar. Acho que sempre tendi a isso. Talvez por nunca ter feito escola de atuação e nunca ter trabalhado com atores. Eu só os encontrava nos sets de filmagem --nunca tive realmente amigos atores, com a exceção de minha irmã. Eu sempre estava ao lado do diretor ou do roteirista. Não escolhi que fosse assim --simplesmente aconteceu.
Pergunta - A sra. falou antes de sua paixão por Marilyn. Mais tarde, a sra. tingiu seu cabelo de loiro, e esse gesto me fascina.
Deneuve - Foi um gesto de amor.
Pergunta - Existe uma ambigüidade nesse gesto. Foi uma rebelião ao estilo de Monroe, um sonho ao estilo de Demy, ou classicismo hitchcockiano? É como a pergunta que um jovem cineasta se poderia fazer: de que serve o cinema?
Deneuve - O cinema me ajudou a amadurecer, isso é certo. Eu realmente era ignorante de muitas coisas. É difícil imaginar como o fato de fazer parte de uma família grande muda seu relacionamento com o mundo de fora. Porque uma família grande é ao mesmo tempo muito protetora e muito fechada. Foi quando me dei conta de que eu tinha o anseio de partir. Achei isso um pouco preocupante, então saí de casa ainda bastante jovem.
Pergunta - A sra. tingiu seu cabelo por amor, como afirmação. Do mesmo modo, escolheu um sobrenome, o sobrenome de sua mãe.
Deneuve - Era impossível para mim ter o mesmo sobrenome que minha irmã Françoise. Ou, pelo menos, foi o que minha família disse na época. Françoise estudara no Conservatoire, tinha trabalhado no teatro. Quanto a mim, eu nem sequer tinha certeza se continuaria a ser atriz. Para aquele primeiro filme, meus pais sugeriram o sobrenome de minha mãe. Se eu tivesse que refazer aquilo, não tomaria essa decisão. Amo profundamente minha mãe, mas não gosto de seu sobrenome de solteira. É difícil de pronunciar. Prefiro meu sobrenome verdadeiro [Dorléac].
Pergunta - Eu o interpretei como uma declaração de independência.
Deneuve - Eu não o inventei! Minha mãe falou: "Você vai usar meu sobrenome de solteira". Eu falei "sim, OK". Não vi aquilo como algo permanente. Não achei que eu continuaria a trabalhar no cinema. Minha cabeça estava em outro lugar inteiramente.
Pergunta - A sra. era bastante jovem quando conheceu Kast, Varda, Demy, Chabrol...
Deneuve - O encontro com Chabrol não foi grande coisa. Vou lhe contar o que aconteceu. Ele queria fazer um curta com Stéphane Audran naquele papel. Estava determinado a ter uma grávida fazendo o papel da mulher de Francis Blanche em "As Maiores Vigarices do Mundo" (1964). Stéphane deu à luz uma semana antes do previsto. Eu estava grávida ao mesmo tempo e dei à luz uma semana depois dela, então estava grávida de quase nove meses quando rodamos o filme. Foram apenas dois dias.
Pergunta - Cercada por todas aquelas pessoas --estou pensando também em Polanski ou Rappeneau--, o cinema não lhe parecia um campo de batalha entre o antigo e o moderno?
Deneuve - Não, eu não tinha consciência de que tudo aquilo estava acontecendo, porque minha vida era muito distante daquele ambiente. Eu sempre mantive minha vida amorosa muito reservada, na medida em que consigo, e sempre escolhi os filmes que quis fazer. Aqueles eram dois mundos separados que nunca se misturavam. Em última análise, o cenário do cinema não fazia parte de minha vida, de maneira alguma.
Pergunta - A experiência de fazer "Repulsa ao Sexo" (1965) em Londres com Polanski durante a revolução pop exerceu um efeito mais forte sobre a sra. que a guerra dos modernos, na França?
Deneuve - É engraçado, porque nós três éramos franceses: Roman, que, apesar de ser polonês, falava francês o tempo todo, Gérard Brach e eu. Éramos realmente os Três Mosqueteiros. Todas as outras pessoas no set eram britânicas. Roman sabia exatamente como fazer para ser respeitado pela equipe; não era de se deixar dominar. Mas, pelo fato de falarmos francês, vivemos a experiência de fazer aquele filme um pouco pelo lado de fora, num ambiente singular. Éramos um núcleo no interior da equipe.
Pergunta - Como o filme que a sra. fez com Demy, "Repulsa ao Sexo" exige uma proximidade entre o diretor e a atriz.
Deneuve - Sim, eu me sentia muito, muito próxima de Roman. Aquele é o filme que sinto que eu ajudei a fazer. Os produtores estavam acostumados a produzir pornô. Era um filme de orçamento pequeno, e, para eles, nada de grande importância... A experiência com Roman foi muito importante para mim.
Pergunta - É um papel assustador. Quando penso em alguns de seus outros papéis em "A Bela da Tarde" (1967), "Tristana" (1970), "Liza" (1972)... É preciso ser corajosa para isso! Se olharmos sua carreira...
Deneuve - Para mim essa coisa de "carreira" não existe.
Pergunta - Outra atriz teria aceito esses papéis porque são escandalosos.
Deneuve - Não, não. Para mim, de jeito nenhum.
Pergunta - Mas o que me chama a atenção em sua performance é que a sra. aceita o papel porque acha que talvez não seja tão escandaloso assim, afinal. Ou que o escândalo é também uma parte inerente da vida.
Deneuve - Sim, isso é absolutamente verdade. Pareceu interessante e normal. Recordo-me de ter encontrado um jornalista em Los Angeles na época em que saiu "Os Ladrões" (1996), de Téchiné, que me disse: "Você não sabe como vocês têm sorte, vocês atrizes da Europa. Uma atriz americana jamais aceitaria representar uma lésbica num filme, após uma certa idade e em determinado ponto de sua vida ou carreira. É arriscado demais." Admito que sempre ziguezagueei. Você sabe, realmente depende de que filmes lhe são oferecidos.
Talvez as pessoas aceitem mais minhas escolhas, enquanto, no caso de outra pessoa, diriam "que estranho que ela fez aquilo". A porta que se abriu para mim depois de "A Bela da Tarde" foi tão grande que muitas coisas puderam passar por ela. É um filme que ficou maior com o tempo. Saiu-se bem quando foi lançado, mas apenas mais tarde se tornou mítico, quase um filme cult. E aquele personagem virou até certo ponto um símbolo, uma heroína estranha. E, porque eu a representei, as pessoas supunham coisas a meu respeito.
Pergunta - Confesso que prefiro "Tristana".
Deneuve - Eu definitivamente prefiro "Tristana" a "A Bela da Tarde"!
Pergunta - A sra. representou Tristana da mesma maneira em que representou Marie em "A Farsa do Amor e da Guerra" (1966). Não, estou me expressando mal. As duas personagens são muito diferentes, mas a sra. não caiu na armadilha "gótica" com a primeira. Por outro lado, a sra. enfatiza o lado fantástico da segunda. E as duas personagens compartilham a eloqüência de sua perspectiva sobre a vida, ou sobre a ficção. Eu me referi a isso antes como sendo a marca da autora.
Deneuve - Talvez seja uma incapacidade de fazer de outra maneira. Talvez seja uma escolha que não é realmente uma escolha. Talvez seja uma impossibilidade de fazer qualquer outra coisa.
Pergunta - Sua performance como Tristana é estupenda. Os saltos que a personagem faz, da dor à inocência, da alegria ao desespero. E então a amargura. É uma jornada e tanto.
Deneuve - Sim, a experiência de fazer aquele filme foi única. E é raro representar um personagem que passa por tantos estados emocionais.
Pergunta - No diário que a sra. escreveu no set de "Tristana", a sra. registrou que as primeiras cenas que rodou foram as cenas de sua amargura, ambientadas no hall. A sra. escolheu seu próprio figurino e fez sua própria maquiagem. Enquanto Buñuel está em outro lugar, rodando outra cena, a sra. se confere um rosto fantasmagórico...
Deneuve - Eu tinha mencionado a Buñuel a rainha malévola de "Branca de Neve". Com Buñuel, a experiência foi única, porque ele era muito modesto e gostava de fazer piadas sobre as coisas. Truffaut era igual. Quando estávamos filmando, nunca falava comigo de modo direto.
Pergunta - A sra. menciona que durante a filmagem da cena da sacada, Buñuel disse: "Nada de psicologia". Essa cena fez história! Por causa dela, Hitchcock escreveu uma carta a Buñuel lhe falando de sua admiração e dizendo que tinha inveja dessa tomada. Uma cena tão escabrosa, tão chocante, não pode ser explicada com a psicologia.
Deneuve - Às vezes você tem que aceitar que a imagem é mais poderosa que você, que as intenções do diretor são mais fortes que você. Por isso a performance exigia ser extremamente permeável, aberta, sem nenhum pensamento por trás. Quando me disse: "Você sorri", a idéia era ficar tão impávida possível enquanto sorria e me abster de colocar uma intenção atrás do sorriso. Já havia intenção suficiente ali, para começar!
Ao mesmo tempo, Buñuel era extremamente modesto. Mesmo com os atores, parecia... Eu sentia por ele. Era evidente que aquela não era sua etapa favorita do processo de criação cinematográfica. Era algo pelo qual ele era obrigado a passar: para que o filme exista, é preciso que os atores representem papéis. Mas o que ele dizia era mínimo. Era mais o que dizia fora do filme, ou o que estava escrito. Mas era realmente preciso tentar imaginar, ou adivinhar, o que ele teria a dizer. Ele era muito grosseiro em sua maneira de falar. Na verdade, isso me fazia rir.
Pergunta - A sra. já trabalhou com vários diretores muito mais velhos: Buñuel, Melville, Oliveira. Mas, olhando sua carreira, nunca tive a impressão de que fossem relacionamentos filiais, e sim que poderiam ser mais bem caracterizados como fraternos.
Deneuve - Acho que isso se deve a meu lado masculino.
Pergunta - Também estou pensando, neste momento, em "Dançando no Escuro". Sua personagem está num canto do teatro, de mau humor, e a sra. diz "não quero fazer papel de cachorro". Mas começa a latir, mesmo assim. A sra. está de mau humor, mas faz assim mesmo. Não se trata de submissão, mas de diálogo.
Deneuve - Seria difícil explicar exatamente o que aconteceu naquele momento. Porque, na realidade, eu não deveria latir. Também é verdade que eu lembrei que tinha feito a mesma coisa em "Liza". Sou em quem late quando gravamos o som. Fiz o papel de cachorro. Eu tinha dito a Ferreri: "Como estou representando a cadela, também farei o cão!" E assim eu tinha gravado o cachorro latindo, também. Por sinal, eu estava grávida de Chiara quando fiz aquele filme.
Não sei o que aconteceu com Lars von Trier. Alguma coisa, um pouco de desfaçatez... E não sou uma garota muito descarada. Acho que é preciso ter muita confiança para ser capaz de fazer isso. Você precisa ser capaz de pensar: "Sei subconscientemente que, se não funcionar, ele não vai incluir no filme".
O que me assusta mais quando estou com um diretor e a sensação não é boa é quando penso: "Ele não tem ponto de vista, não sabe exatamente o que está fazendo, não será capaz de julgar". Quando é assim, não posso me dar por inteiro, porque não haverá ninguém para me segurar. Assim, qualquer coisa que eu fizer estará ali. Para mim, isso é o pior. Não confiar, sentir desconfiança. Eu me contenho, quando, na realidade, quero me entregar quando estou filmando. Mas é verdade que, para me entregar, preciso sentir muita confiança. E isso não tem nada a ver com idade ou experiência. Tem a ver com intuição.
Pergunta - Ou a sra. precisa ter bom gosto suficiente para os dois.
Deneuve - Se percebo que o diretor e eu não temos o mesmo gosto, então recuo para dentro de minha concha. É uma coisa terrível. Esse é o perigo para os atores, de maneira geral. O maior perigo é o medo ou a falta de confiança. Sem confiança, você não pode se atirar em certas direções. Acho que isso acontece mais com atores que com atrizes.
Pergunta - "Film Comment" é uma revista americana, então eu deveria realmente estar lhe fazendo perguntas sobre o método, a invenção desse ou daquele personagem, como a sra. encontrou um certo gesto. Mas a sra. certa vez deu uma resposta que me comoveu muito: "Meu relacionamento com o personagem é feito de coisas mentais que não se devem colocar em palavras. Fazê-lo seria imodesto. O momento mais decisivo de meu trabalho em torno de um personagem acontece quando estamos filmando. Esse momento é tão tenso, tão exaustivo que, quando termina, preciso de portas corta-fogo entre o set e mim. De volta a meu camarim ou ao hotel, eu me isolo, porque o estado em que fico no set é exaustivo demais."
Deneuve - É verdade que, quando estamos filmando, sou capaz de me concentrar muito rapidamente, mas isso me cansa. Me põe num estado! Um estado que lembra um transe. Então, o que preciso é ou um truque para atingir um tipo de transe calmo ou um truque para atuar como sonâmbula.
Pergunta - Emmanuelle Devos me disse certa vez que as pessoas freqüentemente perguntam: como a sra. inventa um personagem? Quando, é claro, há toda uma preparação prévia.
Deneuve - Não para mim.
Pergunta - Mas no final, o que fica, o que o público vai ver, são os 5% que restam. Esses 5% são o que acontece durante a tomada. E o tempo de uma tomada é absoluto.
Deneuve - Não há dúvida de que algumas coisas começam a acontecer antes: algumas são subconscientes, outras são conscientes. Em meu caso, acontece em relâmpagos. Sou incapaz de trabalhar sozinha, sem um diretor, sem alguém para me conduzir. Mas isso não condiz em nada com minha idéia de o que deve ser um personagem de filme. Eu preciso absorver o que vai acontecer no set naquele dia, a locação, a luz.... Preciso saber o que acontece antes na história. Para mim, isso é o mais importante: me relacionar com o personagem, em relação a onde estamos no filme.
Talvez isso tenha a ver com o fato de que nunca fiz papéis de personagens típicos. Mesmo com "Tristana", que exigia um pouco de trabalho desse tipo. Mas Buñuel e eu conversávamos fora do set, jantávamos juntos. O mesmo acontecia com André Téchiné. A gente se encontra, mas sempre termina falando de outra coisa. E, mesmo que tenhamos acabado falando de outro assunto, algo de útil terá resultado disso. Tivemos uma conversa sobre outro assunto, mas ao mesmo tempo estamos conscientes do que nos cerca, da razão de estarmos aqui --as questões estão muito presentes em nossas cabeças. Mas nunca é simples e direto, nunca.
Pergunta - Agora vou fazer um desvio: um dia eu me dei conta de que o ódio ao kitsch é uma tendência no cinema moderno. Para o público, o kitsch pode ser OK.
Deneuve - Sim, mas não para você!
Pergunta - É tão mais agradável quando é mais enxuto. Então aqui estão três princípios antikitsch: primeiro, rapidez. "Deneuve atua rápido demais. Truffaut fala rápido demais. Godard edita rápido demais." Fantástico! Nunca se pode ser suficientemente rápido.
Deneuve - Téchiné também. Hoje em dia é uma loucura! Às vezes eu digo a ele: "Você não nos está dando tempo suficiente para entender!" Ele já fala rápido demais, de qualquer maneira. Mas ele mal suporta os silêncios entre as falas. Quer que tudo seja muito veloz. É uma urgência intensa que vem se acentuando mais em seu trabalho. Eu digo isso a ele!
Pergunta - Outro filme que se recusa a ceder ao kitsch é "Guarda-Chuvas". Demy prefere o trivial à pose heróica. Geneviève não precisa ser uma personagem abstrata ou uma vítima para ser fascinante.
Deneuve - Sim, isso mesmo.
Pergunta - Agora um terceiro princípio. Ouvi um programa sobre Truffaut no rádio neste verão. Ele estava falando de roteiros. Estava irritado com uma cena inicial. "Um homem caminha pela rua, com pressa." Sim, mas como sabemos que está com pressa? E por que está com pressa? Será que precisa ir ao banheiro? Está caindo numa demência profunda? Está sendo perseguido pela máfia? O risco está em representar as palavras "com pressa", quando na realidade é preciso representar a cena. E como o público vai interpretá-la.
Deneuve - Sim, é claro! É verdade que eu preferiria estar na situação que na "sentença" ou nas "palavras". É a situação que me transporta.
Pergunta - Quando vejo a sra. atuar, sinto que nos está contando alguma coisa. E essa alguma coisa me comove. Em seus diários de filmes, uma vez, quando se irritou ao trabalhar com Stuart Rosenberg, ("Um Dia em Duas Vidas", 1969), a sra. escreveu: "Sua câmera sugestiva me aborrece".
Deneuve - Stuart era adorável, mas era muito passivo. Não era nem sequer devagar. A passividade é terrível. Eu gostava dele. Mas a passividade cria um ambiente pesado, que não é conducente. Eu estava sofrendo um pouco. Então, para acrescentar intensidade! Ao mesmo tempo, eu adorava Jack Lemmon, que era um ator tão leve, tão maravilhoso. Mas estava passando por um momento difícil em sua vida...
Pergunta - Um papel que adoro, que é bastante escandaloso, é no filme "Crime e Paixão" (1975), de Robert Aldrich.
Deneuve - Sim, com Burt Reynolds. Tinham me avisado sobre o diretor: "Ele é misógino! É muito intransigente com as atrizes." Foi a primeira vez em que estive num set em que havia duas câmeras rodando continuamente. Eu tinha conversado com Aldrich e dissera a ele: "Se essa posição de câmera é boa para a tomada ampla, como pode também ser boa para o close?*". Nós nos demos bem. Mas me recordo de ter pensado: "Uma das duas não pode estar no lugar certo, evidentemente! Não se pode ter uma posição boa para duas tomadas diferentes." O que ele queria captar a cada vez era a intensidade. É verdade que freqüentemente, quando você tenta usar os closes depois, ficam horríveis.
Pergunta - A continuidade me assusta. Adoro os cortes abruptos no cinema mudo.
Deneuve - O cinema mudo é outra coisa inteiramente.
Pergunta - Adoro ver uma tomada ampla de Lillian Gish, em desespero contido. Então, quando a câmera chega mais perto, o desespero se torna mais extremo. Ou o contrário: a tomada ampla que a mostra torcendo as mãos, aflita, e depois volta para seu rosto, que está impassivo.
Deneuve - É engraçado porque fiz uma entrevista, não faz muito tempo, em que eu disse que adoraria fazer um filme mudo. Mas teria que ser moderno. Um filme curto, moderno, mudo. Acho que eu realmente gostaria desse exercício.
Pergunta - Téchiné filma com duas câmeras. Mas me parece que busca a descontinuidade em primeiríssimo lugar.
Deneuve - Com certeza. Ele começou a mudar sua maneira de filmar em "Minha Estação Preferida" (1993), quando usou duas câmeras. Ele queria filmar os dois atores ao mesmo tempo. Chegou a fazer seqüências muito longas, com as câmeras montadas num carrinho. Você pode ver as câmeras se atravessando na tomada. Então ele tem que cortar. Mas filmar dessa maneira confunde muito as pessoas. É complicado para o operador da câmera. Muda muitas coisas. Foi assim que ele começou. Então, quando fizemos "Os Ladrões", ele queria filmar closes dos dois atores simultaneamente. Quando conhecemos Julien Hirsch, quando fizemos "Les Temps Qui Changent" [Tempos que Mudam, 2004], ele passou a fazer algo completamente diferente.
Pergunta - E o que dizer de Michael Mann? Procura a continuidade ou a descontinuidade? Ele tem câmeras por toda parte.
Deneuve - Assisti a "Miami Vice" de novo. Eu não tinha gostado realmente da primeira vez. Mas, mesmo assim, é toda uma outra maneira de filmar; é fascinante. Há uma força, uma energia incrível. Seus filmes são muito longos, mas não há tomadas gratuitas. Quando decide filmar a nuca de um ator, há uma tensão real. Está ali, não é de maneira alguma apenas um efeito. É surpreendente. Ele faz você sentir o peso das coisas.
Pergunta - A sra. mencionou anteriormente o sonambulismo. Encontrei uma frase que Truffaut disse a seu respeito: "Catherine é uma 'atriz desacelerada', é um pouco lenta."
Deneuve - Verdade?
Pergunta - "As atrizes que atingem um status mítico são um pouco mais lentas que as outras." Isso me trouxe à mente aquelas palavras que a sra. empregou: transe e sonambulismo.
Deneuve - Sim, talvez. É verdade. Mas é espantoso, mesmo assim. O que é irritante é quando você tem que representar algo anódino. Às vezes assisto a filmes de ação e penso: "Meu Deus, eles devem ter se entediado tanto! Quantas vezes tiveram que repetir aquilo?*". Acho isso terrível. Você tem que fazer isso, tem que ver aquilo, então tem que entrar num carro... Isso se aplica sobretudo aos filmes de ação.
Pergunta - Sim, mas o carro, os olhares, o tédio... Isso é exatamente James Stewart em "Um Corpo que Cai"! A sra. conheceu Hitchcock. A sra. tinha um projeto com ele...
Deneuve - Sim, eu deveria fazer um filme com Hitchcock. Era ambientado no norte também, como "Cortina Rasgada". Seria uma história de espionagem. Na época, ainda não passava de uma sinopse. Almocei com ele em Paris, e ele morreu alguns meses mais tarde. Eu teria adorado trabalhar com ele.
Pergunta - Ele filma aquelas coisas mundanas, mas mesmo assim a sra. sente a tensão. Com ele, o ator tem plena consciência de que está sendo filmado. Como num filme de Oliveira!
Deneuve - Sim, mas nesses filmes é muito engraçado. Truffaut também tinha isso, de tempos em tempos. Aquele jeito inteligente e astuto de saber que certas coisas precisam ser filmadas de certa maneira. Ele aprendera isso com Hitchcock, observando-o e fazendo aquele livro com ele ["Hitchcock/ Truffaut"]. Uma maneira inimitável de filmar. François falava livremente sobre o que fazia e como filmava as coisas. Cara a cara: tinha que ser uma conversa reservada, nunca um debate público.
Pergunta - A sra. conversou muito com Truffaut e Belmondo no set de "A Sereia do Mississippi" (1969)?
Deneuve - Foi uma filmagem muito singular. Ele estava escrevendo os diálogos enquanto trabalhávamos. Deslizavam as cenas do dia seguinte debaixo da porta do quarto do hotel, durante a noite.
Pergunta - No roteiro e em sua própria cópia do livro, Truffaut sublinhou todas as pistas que nos ajudam a entender em que etapa o casal está, fisicamente. É muito sugestivo e muito tosco.
Deneuve - Sim, concordo. É um filme nada modesto. Foi difícil para mim, em alguns momentos. Mas, sim, esses momentos são precisos: se ela sente que ele está desconfiado, ou se as coisas foram bem e ela sente que pode abusar de sua confiança... Sim, é tosco. Mas o relacionamento dela com Belmondo é difícil.
Pergunta - Belmondo está maravilhoso no filme, mas o público francês não gosta de ver um homem representando um papel feminino.
Deneuve - Especialmente não quando esse homem é Jean-Paul Belmondo! Mesmo ele próprio. Era esse o problema. Ele queria trabalhar com François [Truffaut], mas acho que se deu conta de que era um filme mais para mim que para ele. Além disso, ele estava noivo de uma atriz, e isso não facilitava as coisas. Houve um choque real. Ele parou de filmar. Estávamos rodando uma cena difícil, e Jean-Paul não gostou dela. François disse: "Vamos ensaiar mais um pouco". E Jean-Paul deve ter achado que era tarde demais, que já era hora de almoçar, então foi embora.
François ficou um pouco surpreso e depois disse: "Está bem, não vamos rodar. Não vamos rodar hoje." Ele e eu almoçamos juntos em Marselha. Quando Jean-Paul voltou, uma hora e meia depois, e não encontrou ninguém lá, foi uma catástrofe terrível. Acho que, para François, tinha sido um misto de fatores. Ele não conseguia sentir aquela cena, e a atitude de Jean-Paul tinha agravado isso. Eu me lembro, fiquei tão perturbada! Achei que era uma insensatez, fiquei em pânico. Especialmente porque eu vinha passando muito tempo com François, conversando, e percebi desde o início que isso era um problema para Jean-Paul.
Pergunta - A cena final na neve foi mais ou menos improvisada, não foi?
Deneuve - Ele queria que fosse como um desenho animado. Quando chegamos a Grenoble, ele queria que o final fosse.... Foi então que fui a rainha malévola, aquela que envenena Branca de Neve.
Pergunta - E Hitchcock, qual de seus filmes o fez querer conhecê-la?
Deneuve - Foi por meio de François. Porque eles costumavam se encontrar quando Hitchcock vinha a Paris, então nós já tínhamos nos encontrado.
Pergunta - E a sra. nunca esteve pessoalmente com Renoir?
Deneuve - Não.
Pergunta - Existem filmes de Renoir que significam muito para a sra.?
Deneuve - Oh, sim, "O Rio Sagrado".
Pergunta - Demy não conhecia Renoir?
Deneuve - Não, quando Jacques estava em Los Angeles, rodando "Model Shop", nós às vezes almoçávamos na casa de Cukor, mas nunca com Renoir. Ele já devia estar muito cansado. Isso me lembra, eu assisti a "As Mulheres". É bom, mas quanta crueldade! Cukor não gostava realmente de mulheres.
Pergunta - Adoro "Rich and Famous".
Deneuve - Sim, Jacqueline Bisset e Candice Bergen. Foi bom.
Pergunta - Seu filme favorito de Godard? Entre os recentes.
Deneuve - Não, não entre os recentes. Quando ouço as palavras de seus filmes recentes, acho que são absolutamente maravilhosas. Fico incrivelmente comovida. Mas, quando assisto aos filmes, não consigo me identificar realmente com eles. Dos filmes de Godard, eu diria provavelmente "O Demônio das Onze Horas". Mas não conheço suficientemente os filmes de Godard.
Pergunta - Um filme favorito de Scorsese?
Deneuve - Ahnn... Não, não "A Época da Inocência". "Cassino" é realmente brilhante. Ah sim, já sei: "Touro Indomável".
Pergunta - Obviamente, porque a sra. é mulher e adora identificar-se com Jake LaMotta.
Deneuve - É sobretudo por causa de De Niro. Assistir a um ator tornar-se aquilo para um filme, vê-lo conseguir ser filmado desse jeito por seu diretor, acho isso... A única coisa que me irrita um pouco nos filmes de Scorsese são as mulheres. Acho elas um pouco pisoteadas.
Pergunta - "Alice Não Mora Mais Aqui" é maravilhoso!
Deneuve - Ah, sim, mas Ellen Burstyn é uma atriz maravilhosa. Com essa exceção, ele não se interessa muito pelas mulheres, não é verdade?
Pergunta - Tenho a impressão de que "O Último Metrô" (1980) foi mais formativo, exerceu um efeito maior sobre a sra. que "A Sereia do Mississippi".
Deneuve - Sim, você tem razão. "A Sereia do Mississippi" é muito mais complicado. Mas "O Último Metrô" foi muito diferente. Para começo de conversa, conversávamos muito, passamos muito tempo juntos. Ele [Truffaut] nunca assistia às tomadas do dia. Dizia: "Vou vê-las no final de semana". Eu costumava vê-las. Ele me pedia para lhe dizer o que eu tinha visto. Conversávamos muito sobre cinema, sobre atores. Essa era sua paixão. Os filmes, é claro, mas principalmente os atores e as atrizes. E, porque ele era tão apaixonado por isso, você não podia se impedir de ouvi-lo. Ele e eu conversávamos muito naquela época.
Pergunta - No artigo que escreveu sobre a sra., Truffaut disse: "Catherine não é uma flor. Uma mulher, uma flor, essas coisas são tolas. Catherine é um vaso no qual o público coloca o buquê". A sra. mesma descreveu o trabalho que faz como sendo uma página em branco sobre a qual o filme é escrito.
Deneuve - A idéia de François sobre o vaso é muito verdadeira. A página em branco... Sim, é verdade, eu realmente prefiro começar sem intenção nenhuma, em vez de chegar com minha própria idéia. Sou incapaz de decidir o que é uma personagem. Ao mesmo tempo, a partir do momento em que aceitei o papel e li o roteiro, sei que as coisas vão circular em minha cabeça. Isso não vai acontecer o tempo inteiro, mas nunca vai parar por completo. Mas não sou obcecada; não tenho dificuldade em sair do personagem, à noite. Sempre fico feliz quando estou filmando e sempre fico feliz por deixar o set à noite _é verdade que sempre há uma espécie de fadiga nervosa. Que eu sei que fica escondida em algum lugar durante as filmagens. Há algumas coisas que se encaixam em seus lugares sem que eu faça nada. Hoje sei disso.
Pergunta - Certo, agora vou começar um jogo bobinho com a sra.. É um quiz. Mas não quero incomodá-la...
Deneuve - Não, vá em frente!
Pergunta - Picasso ou Matisse?
Deneuve - Eu diria Picasso.
Pergunta - Rolling Stones ou Beatles?
Deneuve - Rolling Stones.
Pergunta - Cidade ou campo?
Deneuve - Cidade, mas gosto do campo, mesmo assim.
Pergunta - Renoir ou Bresson?
Deneuve - Como você é cruel, me perguntando isso! Vou dizer Bresson. Não... Oh, Renoir, quando eu era mais jovem. Agora, acho que eu provavelmente diria Bresson.
Pergunta - Locação ou estúdio? Me surpreendi muito ao ler que a sra. gosta de rodar em estúdios.
Deneuve - Prefiro paisagens naturais. Mas, em alguns filmes, as paisagens naturais são tão estreitas, o barulho é tão alto, a presença da equipe é tão forte, que fica muito difícil encontrar intimidade.
Pergunta - Flaubert ou Stendhal?
Deneuve - Stendhal.
Pergunta - Pollock ou Warhol?
Deneuve - Pollock.
Pergunta - Beethoven ou Mozart?
Deneuve - Que difícil... Sabe o que é, eu poderia traçar uma linha pelo meio e dizer: essa é minha noite, esse é meu dia. Direi Mozart porque quero parar de chorar.
Pergunta - Shakespeare ou Molière?
Deneuve - Bem, Shakespeare, sim.
Pergunta - Essa pergunta foi fácil demais. Shakespeare ou Strindberg?
Deneuve - Essa é difícil! Ainda direi Shakespeare.
Pergunta - Fácil demais. Strindberg ou Tchekov? Agora estou sendo canalha.
Deneuve - Amo tanto os mundos dos dois! Não posso fazer uma escolha.
Pergunta - Tenho uma solução: Nicholas Ray ou Téchiné?
Deneuve - (rindo, ela canta) Téchiné, Téchiné!
Pergunta - A sra., evidentemente, está ligada ao que eu chamaria de o novo realismo francês: Téchiné, Garrell, a oportunidade perdida com Pialat...
Deneuve - Oh, aquela oportunidade perdida! Que pena...
Pergunta - Apesar disso, há uma frase de Godard da qual gosto muito porque ela menciona algo que a sra. compartilha com a nouvelle vague. Godard disse que prefere "imprimir uma expressão" a "expressar uma impressão". Isso é semelhante a sua idéia da página em branco.
Deneuve - Sim, é muito belo. É exatamente isso.
Pergunta - Constato que, quando a sra. está atuando, antes de expressar suas impressões, o que é valioso e é sem dúvida uma das tarefas do ator, a sra. primeiro imprime uma expressão. A sra. a imprime na tela. É isso o que acho tão único na sra. Então, para concluir meu quiz: Stanislavski ou Brecht?
Deneuve - Oh, Brecht! Por outro lado, quando penso nas situações de alguns de meus personagens... eu já fui cega, muda, amputada, assassina, vampira, mãe, mãe adolescente, lésbica, alcoólatra, ladra...
Pergunta - Então o que dizer daquela atriz muito reservada, burguesa?
Deneuve - É inacreditável! Fico chocada quando as pessoas falam a meu respeito e me resumem como loira, fria e solene. As pessoas se apegam a qualquer coisa que reforce suas próprias idéias preconcebidas sobre uma pessoa.
Pergunta - Isso me chama a atenção igualmente em Truffaut. Foi o único do grupo que realmente tinha sido um bad boy, mas assistimos a seus filmes como se fossem burgueses. O que amo nele é sua tendência ao extremo. Com a sra. também, há um lado malcomportado que se manifesta nos papéis que a sra. escolhe e a maneira como os representa. A sra. deve saber que, quando aceita determinado papel, as pessoas ficarão chocadas, que há uma transgressão...
Deneuve - Nunca penso no público até depois de o filme estar pronto! Mesmo depois de ser feito, sempre tenho a esperança de que o filme e o público se encontrem no meio, mas, se as pessoas não gostam dele, embora isso me incomode, não atrapalha o prazer que senti em fazê-lo. Acho que tenho públicos diferentes. O número de pessoas que falaram comigo sobre "Um Conto de Natal"... Pessoas que talvez nunca tivessem ousado falar comigo antes.
É muito estranho. Eu posso ter passado uma hora sentada ao lado de alguém, e, justamente quando a pessoa está prestes a ir embora, ela diz algo que estava morrendo de vontade de me dizer. Este é um dos filmes sobre os quais as pessoas mais me falaram. Há algo de jubiloso no personagem, algo de que as pessoas realmente gostam. A cena com Amalric no jardim deixa as pessoas fascinadas. Ela é ao mesmo tempo insolente e verdadeira, e o que estão dizendo é que é de muito mau gosto --porque esse não é o tipo de palavras que deveriam ser ditas entre mãe e filho-- e que as comove. É muito estranho. As pessoas freqüentemente dizem "adorei seu último filme, foi maravilhoso". Mas, neste caso, há aquele aspecto jubiloso da personalidade dela.
Pergunta - É a Frente da Libertação do Ator. Quando personagens e atores têm consciência do que são e o que estão dizendo na tela. Sendo que, normalmente, o personagem é um idiota, o ator é um animal e o diretor manipula ambos.
Deneuve - Sim!
Pergunta - Esqueci de lhe fazer algumas perguntas. Posso?
Deneuve - Sim, vá em frente.
Pergunta - A sra. não deve ter conhecido Bazin, já que não fazia parte da mesma turma...
Deneuve - Não. François falava sobre ele. Muito.
Pergunta - Que atores americanos exerceram um efeito sobre você? Cooper?
Deneuve - Sim, mas ao mesmo tempo, estranhamente, eu os achava muito assexuados. Muito sexy e muito assexuados. Os atores vieram mais tarde, para mim. James Dean, sim, eu o achava muito comovente, diferente, surpreendente. Eles vieram mais tarde para mim: Pacino, De Niro. Esses dois em especial. Mas há muitos outros atores americanos que amo. Francamente, acho muito mais fácil pensar nos nomes dos atores americanos que nos dos europeus. Com a exceção dos britânicos. Adoro os atores britânicos.
Pergunta - Realmente? Quem?
Deneuve - Estão todos mortos: Lawrence Harvey, Tom Courtenay, Peter Finch... e Albert Finney, que hoje me lembra tanto do pai de Chiara, fisicamente. É fantástico o quanto me lembra Marcello.
Pergunta - A sra. disse algo sobre Mastroianni uma vez que eu adoro. Disse que no cinema, diferentemente do teatro, não há homens e mulheres, apenas meninos e meninas.
Deneuve - Bem, é verdade!
Pergunta - Concluo com Truffaut e outro trecho do mesmo texto: "Se a humanidade se divide entre exibicionistas e voyeurs, Catherine é voyeur, logo está mais próxima da vida." Acho isso perfeito.
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