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06/01/2009 - 08h34

Massimiliano Fuksas revela detalhes de seu primeiro projeto em SP

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SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo

Massimiliano Fuksas promete construir duas enormes lagartas de madeira, integradas à floresta nativa que sobrou num terreno de Higienópolis, em São Paulo --é sua proposta para a nova sede do Istituto Italiano di Cultura. Na Itália, o pavilhão que o arquiteto fez para a Fiera di Milano lembra uma avalanche de vidro esbranquiçado, como a neve que cobre os Alpes.

Divulgação
Maquete do projeto de Massimiliano Fuksas para a nova sede do Istituto Italiano di Cultura
Maquete do projeto de Massimiliano Fuksas para a nova sede do Istituto Italiano di Cultura

Fuksas acredita que a arquitetura serve para "criar emoções a partir da topografia", ou seja, fazer prédios que se ligam ao entorno de forma orgânica.

Este italiano é hoje um dos maiores nomes da arquitetura contemporânea: são dele a fábrica da Ferrari, na Itália, o Centro da Paz, em Israel, além de projetos sob medida para Giorgio Armani e Alessi.

São todas construções que têm como espinha dorsal a tentativa de emocionar. É uma tarefa que prescinde do modernismo, escola que, segundo ele, ficou no século passado e hoje deu lugar a uma espécie de "teoria do caos" na arquitetura.

"Ainda bem que não há um só estilo hoje", diz o arquiteto, que compara a construção à cozinha molecular de Ferran Adrià.

Fuksas esteve em São Paulo para apresentar seu projeto para o Istituto Italiano di Cultura e falou à Folha, por telefone.

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Folha - Como será seu primeiro projeto em São Paulo?
Massimiliano Fuksas - Será um projeto muito orgânico, que acredita na sustentabilidade, no ambiente. Vou construir com lâminas de madeira submersas na água esverdeada. Vamos erguer tudo isso no mesmo terreno [de um casarão na avenida Higienópolis]. São duas esferas de madeira, que se parecem com dois animais ao mesmo tempo estranhos e domésticos. É muito, muito matérico.

Folha - Integrar-se ao entorno deve ser a principal meta da arquitetura contemporânea?
Massimiliano Fuksas - Acho que a linguagem da arquitetura é a junção entre criar emoções e a topografia, projetos que tenham relevância topográfica. A arquitetura deve se aproximar dos acidentes no terreno, transformar o lugar. É a principal ideia que norteia o projeto que fiz para o aeroporto de Shenzhen [em Bao'na, na China].

Folha - Isso, no entanto, já era um preceito do modernismo, ao mesmo tempo que o que o sr. faz tende a refutar a tradição modernista.
Massimiliano Fuksas - O moderno é uma coisa do século passado. Podemos dizer que aquele foi o século do moderno. Este século tem outros elementos, que, podemos dizer, são mais próximos da teoria do caos, da imprevisibilidade do que faz o homem, começando com a meteorologia e chegando até a economia. Tudo isso também tem se demonstrado parte da teoria do caos. A arquitetura, na minha opinião, é uma filosofia científica.

Folha - Se o século passado foi o século do modernismo, existe hoje outro estilo dominante? Há unidade linguística na arquitetura atual?
Massimiliano Fuksas - Ainda bem que não há hoje uma unidade estilística. Acho que não devemos buscar um estilo, mas voltar a colocar o homem no centro do palco. Não sei bem como fazer isso, mas é importante pensar nisso.

O estilo do século 21 é não ter um estilo. É o problema de contrastar as formas, ir contra o que virou a regra da arquitetura comercial norte-americana, por exemplo, que constrói os mesmos prédios em todos os lugares do mundo, em vez de pensar no cenário local, na arquitetura. Ocorreu uma má interpretação da globalização.

Folha - O retorno em peso do neoclássico na arquitetura comercial é um sintoma dessa falta de estilo?
Massimiliano Fuksas - Esse neoclássico é de mentira, é uma coisa um tanto tardia. É difícil porque é importante agora, na arquitetura comercial, encontrar uma forma de dar um verniz clássico e cultural às construções feitas para as classes que enriqueceram nos últimos anos e não consumiam arquitetura ainda e não tinham essa identidade.

Folha - Enquanto isso, a arquitetura de autor se volta para formas orgânicas e a biologia como fontes mais atuais de inspiração.
Massimiliano Fuksas - Acho que sim, basta olhar para o que faz Ferran Adrià na cozinha molecular.
Não precisa fazer o que ele faz, mas é importante buscar dentro de cada ciência as técnicas mais avançadas.

Folha - O sr. já afirmou que há um problema de escala na arquitetura contemporânea, que não consegue responder às necessidades do homem. A biologia influencia a escala?
Massimiliano Fuksas - Tudo está mudando. É preciso que haja uma nova densidade, áreas de grande densidade habitacional ao lado de áreas livres. Isso sim é uma molécula importante para fazer funcionar uma cidade.

Há uma crise enorme na habitação, e é um problema não só quantitativo, mas qualitativo.
As moradias devem ser encaradas como moléculas que dão vida a um corpo. A cidade é complexa demais, e não podemos renunciar à sua densidade. Às vezes acho que esquecemos a razão de ser da arquitetura, que é melhorar a vida do homem.

Folha - Mas o sr. é um otimista.
Massimiliano Fuksas - Acho que porque começa a haver uma consciência maior do poder político, dos governos do mundo. É importante juntar todas as forças num só projeto, sem pensar no passado ou no mundo acadêmico. O neoclássico, por exemplo, já não tem razão de existir. No lugar disso, começam a surgir propostas, ofertas que acreditam nas emoções positivas, que descartam a angústia. Precisamos fazer cidades, bairros e casas não guiados pelo medo, mas pela vida, a esperança.

 

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