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Ilustrada
07/01/2009 - 08h33

"Noite do Barqueiro" marca 30 anos da carreira do ator Helio Cicero

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo

Após ouvir um chamado, um homem veste suas certezas, deixa a família e lança-se ao mar, rumo a um farol. A meio caminho, uma tempestade o forçará a atracar numa ilha, onde terá por companheiros medo e hesitação, mas também a possibilidade de "se saber" _como dirá a certa altura.

Na peça "A Noite do Barqueiro", que estreia nesta sexta, em São Paulo, o dramaturgo Samir Yazbek e o ator Helio Cicero partem da situação acima descrita para "falar daquilo que nos incomoda, nos faz gente, nos eleva e destrói, faz nossa trajetória enquanto artistas", nas palavras do primeiro.

"A ideia era que o texto espelhasse nossas inquietações em relação aos principais impasses do homem contemporâneo", afirma Yazbek, ao que Cicero completa: "Para onde vai tudo isso? Que tipo de chamado buscamos atualmente?".

Segundo o autor, o personagem do título foi talhado à imagem de um anjo caído, um ser "apartado de suas origens, que se perdeu". A tormenta que arranca do viajante suas convicções também traz "uma inversão de expectativa, no sentido do que consiste a travessia dele", observa Yazbek:

"Ela se torna absolutamente não geográfica, não externa, mas para dentro de si, de autotransformação. Nesse processo, a perda das ilusões, a dor e o enfrentamento da morte têm um peso decisivo para que ele continue sonhando, mas com os pés no chão".

O verniz metafísico da dramaturgia abre espaço para o teatro "mais simbólico, mais
poético, porém compreensível, não hermético" que move Cicero. Com o monólogo, o ator de 53 anos brinda aos seus 30 de carreira. "Caí no teatro absolutamente por acaso. Sou filho de motorista de caminhão e costureira", conta.

Boi Voador e Antunes

Depois de trabalhar como eletrotécnico e em farmácia e escritório de contabilidade, Cicero se formou na Escola de Arte Dramática da USP e enfileirou trabalhos com o dramaturgo Zé Vicente e o ator e diretor Antonio Abujamra. No meio da década de 80, fundou com o diretor Ulysses Cruz a cia. Boi Voador, na qual encenou textos de Guimarães Rosa, Jorge Amado e William Shakespeare.

O reconhecimento definitivo na cena paulistana veio com a filiação ao CPT de Antunes Fi­
lho, na virada para os anos 90. Ali, participou de montagens como "Paraíso Zona Norte", de Nelson Rodrigues, e "Vereda da Salvação", de Jorge Andrade. O encontro com Yazbek se deu em 1998, em "O Fingidor", texto no qual o escritor Fernando Pessoa se disfarça de datilógrafo para trabalhar com um crítico de sua obra _o espetáculo reestreia em 4/4, no Tuca. De lá para cá, foram quatro colaborações entre os dois, cofundadores da cia. Arnesto nos Convidou. A próxima é "Raízes", prometida para agosto.

"A Noite do Barqueiro"
Quando: estreia sexta, às 21h; sáb., às 20h; dom., às 18h; até 15/2.
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, tel. 0/xx/11/3340-2000).
Quanto: de R$ 5 a R$ 15.
Classificação: não indicada a menores de 14 anos.

 

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