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13/01/2009 - 08h12

"A Noviça Rebelde" e outros dois musicais chegam a SP em 2009

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LUCAS NEVES
SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

"Estar preparado é tudo." A frase de Hamlet, que o diretor teatral Charles Möeller, 41, toma emprestada, resume o pragmatismo que guia a parceria com o também diretor Claudio Botelho, 44, talvez a mais bem-sucedida dos palcos brasileiros.

Divulgação
Atriz Kiara Sasso, que interpreta a protagonista de "Noviça Rebelde", em cena do espetáculo
Atriz Kiara Sasso, que interpreta a protagonista de "A Noviça Rebelde", em cena do espetáculo

Em 18 anos de colaboração, eles impuseram um padrão inédito de produção para os musicais nacionais, reavivaram um gênero esquecido e tornaram-se grife no meio.

No caminho, conquistaram público ("A Noviça Rebelde", assinada pelos dois, foi o maior sucesso da temporada 2008 no Rio, com mais de 130 mil espectadores) e crítica (levaram três prêmios Shell no ano passado e concorrem a seis neste). Em 2009, trarão três espetáculos a São Paulo.

"Faltava um olhar acabado de produção. Não adianta falar: 'Eles [os americanos] têm o dinheiro, mas nós, a bossa' ou 'sou pobre, mas talentoso'. Isso é bobinho. Aí você vê tudo meio porco, mal-acabado", diz Möeller, que começou aos 17, como ator do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho:

"Não sei como teria sido minha vida se não tivesse passado por lá, mas não acredito naquele medo e ódio para a criação".

No trabalho em dupla, Botelho responde pela direção musical e Möeller orienta os atores. Os espetáculos são ensaiados por oito semanas, 12 horas por dia. No caso de "Noviça", atual carro-chefe, há 40 atores em cena e outros tantos de "stand-by" para eventuais substituições _o que também se aplica ao time de músicos:

"É uma empresa muito grande que não pode ficar sem aquela receita. A máquina não pode parar. O teatro se profissionaliza, deixa de ser uma ação entre amigos _o que eu acho romântico, maravilhoso, já fiz muito, mas hoje não tem mais espaço", afirma Botelho.

A visão comercial, dizem os dois, não interfere na concepção dos musicais _levando, por exemplo, à repetição de fórmulas de sucesso comprovado. "Sempre fazemos nossa própria negação, puxamos nosso tapete. Depois de 'Noviça', vamos trazer bonecos 'losers' que trepam em cena ['Avenida Q']", aponta Möeller.

"Tenho um pouco de medo da maquininha [de repetição], sim. O desafio é continuar produzindo sem cair nela", completa Botelho.

Patrocínio

Embora habituada a ter casa cheia, a dupla Möeller/Botelho não prescinde, em suas montagens, do patrocínio via Lei Rouanet _que canaliza para a produção cultural uma fatia do IR devido pelas empresas.

Para trazer "A Noviça Rebelde" a SP, eles pediram ao MinC (Ministério da Cultura) aval para captar R$ 5,2 milhões em patrocínio _R$ 3 milhões a mais do que o orçamento da montagem original, no Rio, para a qual o MinC autorizou captar R$ 2 milhões. Para SP, o MinC liberou R$ 3,3 milhões.

Botelho diz que "não é nem discutível" a necessidade do patrocínio. Sem ele, diz o diretor, "os ingressos teriam que custar entre R$ 500 e R$ 600". No Rio, custam entre R$ 60 a R$ 180.

A produtora Aniela Jordan diz que o salto no custo da remontagem relaciona-se ao fato de que "São Paulo é mais cara; você compete com muito mais espetáculos e os salários são maiores". Ela cita adaptações necessárias no teatro, o pagamento de passagens e hospedagem dos artistas que vêm do Rio e a contratação de parte do elenco aqui como outros fatores do "custo São Paulo".

Para Botelho, questionar os custos do musical revela certa rejeição a esse gênero teatral, que ele julga ter "revitalizado o teatro, nos últimos dez anos".

"Eu vi uma multidão de talentos começar a trabalhar [nos musicais]. Antes, era gente que só fazia aula e ficava esperando para fazer teste no Antunes Filho e ganhar um salário de R$ 500", afirma o diretor.

Quando "A Noviça Rebelde" emplacou no Rio, a produção fez novo pedido na lei. Queria captar R$ 1,3 milhão, para "prorrogar por quatro meses a temporada". O pedido foi negado, mas a temporada foi estendida. "Achamos que valia o investimento", diz Jordan.

Sobre seu aval a uma remontagem com custo superior ao da montagem original, o MinC diz: "A montagem no Rio previa temporada de quatro meses. Em São Paulo, a temporada é de seis meses. A segunda montagem ocorre fora da cidade-sede da proponente e da equipe de técnicos e artistas contratados, o que aumenta custos".

Ufanismo bobo

Pedro Carrilho/Folha Imagem
Diretores Claudio Botelho (à esq.) e Charles Möeller na plateia do Oi Casa Grande, no Rio
Diretores Claudio Botelho (à esq.) e Charles Möeller na plateia do Oi Casa Grande, no Rio

Além dos três espetáculos que chegam neste ano a São Paulo depois de temporadas cariocas, Charles Möeller e Claudio Botelho preveem estrear quatro produções no Rio.

"Gloriosa", com Marília Pêra, está em cartaz desde a última sexta. A peça mostra a trajetória de Florence Foster Jenkins, socialite norte-americana que, no começo do século 20, lançou-se cantora lírica sem ter qualquer vocação para tal.

Em março, sobe o pano para "Avenida Q", espécie de "Vila Sésamo" impróprio para menores de 18 anos em que bonecos contracenam com atores. Na vizinhança decadente que serve de cenário à ação, vivem figuras como um comediante desempregado e uma terapeuta sem clientes. A montagem original, em Nova York, recebeu três prêmios Tony em 2004.

Em junho, a dupla apresenta "O Despertar da Primavera", que parte da peça homônima,
de Frank Wedekind (1864-1918), para contar a história de jovens que descobrem o desejo, a maternidade e a morte na Alemanha do fim do século 19.

Já "Gypsy", considerado por parte da crítica o grande musical dos últimos cem anos, está prometido para outubro. A produção, musicada por Stephen Sondheim, flagra a mudança de perfil do showbiz americano na época da Grande Depressão, quando o vaudeville (mais ligado ao circo) perde espaço para o burlesco (de verniz erótico).

A sequência de adaptações de títulos da Broadway torna inevitável a pergunta: não há aqui personagens/personalidades à altura dos americanos?

"Fizemos um dos primeiros musicais sobre um compositor brasileiro ['Ô, Abre Alas', perfil
de Chiquinha Gonzaga, em 98], antes de virar fórmula para atrair público. Não quero ter
essa cobrança, isso é ufanismo bobo. Você não questiona um diretor que passa a vida deitado sobre Shakespeare ou o Berlin Ensemble [grupo fundado por Bertolt Brecht]", diz Möeller.

A "cota nacional" deve aumentar em breve: Botelho conta ter sido procurado por Danilo Caymmi para criar um musical sobre o pai, Dorival. Há também o projeto de levar aos palcos o romance "Era no Tempo do Rei", de Ruy Castro, com músicas de Carlos Lyra.

Editoria de arte/Folha imagem
 

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