Publicidade

Ilustrada
14/01/2009 - 08h39

Show com Jussara Silveira, Teresa Cristina e Rita Ribeiro é registrado em CD e DVD

Publicidade

MARCUS PRETO
Colaboração para a Folha de S.Paulo

É como conciliar personalidades tão dissonantes como as de Nara Leão, Gal Costa e Maria Bethânia num mesmo pacote, sem que as peculiaridades estéticas de nenhuma delas acabem por se anular nesse confronto.

Ana Quintella/Divulgação
Rita Ribeiro, Jussara Silveira e Teresa Cristina cantam juntas em "Três Meninas do Brasil"
Rita Ribeiro, Jussara Silveira e Teresa Cristina cantam juntas em "Três Meninas do Brasil"

Produto de espetáculo homônimo, a dobradinha de CD e DVD "Três Meninas do Brasil" registra o encontro das também pouco convergentes Teresa Cristina, Jussara Silveira e Rita Ribeiro iniciado no final de 2007, que rendeu raras apresentações ao vivo e um saldo artístico revelador.

Cantoras de escolas e estilos que pouco se visitariam no glorioso passado da MPB, as três meninas parecem interessadas na "graça da mistura", como prega a canção de Moraes Moreira e Fausto Nilo que batiza esse trabalho conjunto. E nem a falta de ousadia habitual dos arranjos de Jaime Alem - que acompanha Bethânia há quase duas décadas - compromete a vitalidade da experiência.

A ideia de juntar essas pequenas grandes diferenças saiu da cabeça de Rita Ribeiro, como também vieram dela as melhores escolhas do repertório. Como a inclusão da épica "Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer sem Sentir Dor", de Zé Ramalho e Octacílio Batista, lançada por Amelinha em 1982. Ou do samba-jóia "Poxa", de Gilson de Souza (só no DVD), recentemente regravado por Elymar Santos.

O flerte com esse cancioneiro popular mais deslavado, natural no trabalho de Rita, serviu para arrancar suas duas colegas do confortável (e pouco fértil) trono de "cantoras cult" onde elas se recostavam. Jussara e Teresa parecem revigoradas após percorrer versos como "Poxa, não entre nessa de mudar de assunto/ Não vê como é gostoso a gente ficar junto/ Mulher, o teu lugar é no meu coração", de "Poxa".

São soluções simples que funcionam de forma surpreendente. Quase uma iluminação para quem está acostumado a acreditar na sofisticação de Tom e Vinicius como o único caminho possível.

Diferenças

Juntas em 15 das 21 músicas, em duos ou em trio, elas não saem de cena. Assistem atentas, do canto do palco, aos solos das companheiras. São nesses momentos que cada uma mostra sua praia real.

Jussara se divide entre a altivez de Caetano Veloso ("A Dama do Cassino") e a doçura de Chico Buarque ("Ludo Real"), os dois compositores prediletos de sua matriz Gal Costa. Teresa apresenta um samba seu ("Cantar") e também recorre a Caetano ("Nu com Minha Música") para deixar escorrer sua pseudo-fragilidade, como uma típica filha de Nara Leão. Rita Ribeiro vai de Sérgio Sampaio ("Maiúsculo") a Marcio Greyck ("Impossível Acreditar que Perdi Você"), com a desenvoltura que só Maria Bethânia, que já emendou Maysa e "É o Amor", seria capaz de ter.

Mas estar sozinha não é a proposta, e as três logo se reúnem em uníssono, tomando emprestados versos de Zeca Baleiro em "Minha Tribo Sou Eu": "Eu não sou negão, eu não sou judeu/ Não sou do samba nem sou do rock/ Minha tribo sou eu." Parecem ter descoberto que, tomando contato tão íntimo com o que há de diferente nas outras, nunca foram tão elas mesmas quanto agora.

"Três Meninas do Brasil - Ao Vivo"
Artista: Jussara Silveira, Teresa Cristina e Rita Ribeiro.
Lançamento: Quitanda.
Quanto: R$ 28,90 (CD) e R$ 42,90 (DVD; classificação não informada).
Avaliação: bom.

Virgínia Rosa celebra Monsueto em CD

RAQUEL COZER
da Folha de S. Paulo

Divulgação
Cantora Virgínia Rosa interpreta músicas do carioca Monsueto, como "Mora na Filosofia" e "A Fonte Secou", no álbum "Baita Negão"
Cantora Virgínia Rosa interpreta músicas do carioca Monsueto, como "Mora na Filosofia" e "A Fonte Secou", no álbum "Baita Negão"

Depois de contribuir com o verso "vale a pena não dormir para esperar" no samba-canção "Faz Escuro Mas Eu Canto", que compôs em três dias de 1964 com o poeta Thiago de Mello, o sambista Monsueto sentiu falta de algo. Quis incluir um "cochila" na pausa após o "esperar". "Cansa demais a noi­te inteira sem dormir", tentou justificar, "uma cochilada alivia e dá força à esperança".

A soneca ficou de fora da ver­são final, mas era sempre lem­brada por refugiados que, no Chile, se fiavam naquela canção de esperança em tempos de di­tadura no Brasil. Quase 45 anos depois, a história é contada pe­lo co-autor no encarte de "Baita Negão", de Virgínia Rosa.

O quarto álbum da cantora paulista contempla em 11 faixas sambas feitos (alguns em par­cerias) pelo compositor, can­tor, ator e pintor carioca Mon­sueto Menezes (1924-1973). No disco, gravado com patrocínio da Petrobras, Virgínia busca ressaltar a verve criativa do Comandante como era conheci­do, graças a esquetes que fazia na TV Rio, que lançou gírias como "morou?" e "diz aí".

"Ele era uma figura interes­santíssima", diz a cantora, "e, embora suas músicas sejam conhecidas nas vozes de gente co­mo Caetano ['Mora na Filoso­fia', de Monsueto e Arnaldo Passos] e Alaíde Costa e Milton Nascimento ['Me Deixa em Paz', com Ayrton Amorim], pouca gente se lembra dele".

Resultado, talvez, da escassa discografia do sambista, que te­ve apenas um álbum lançado em vida, "Mora na Filosofia dos Sambas de Monsueto", de 1962, e uma coletânea póstuma, "Raízes do Samba", de 2000.

Em "Baita Negão", Virgínia interpreta, além das canções já citadas, sambas como "Lamen­to da Lavadeira" (que entrou em medley com "Ensaboa", de Cartola, no disco "Mais", de Marisa Monte) e "Eu Quero Es­sa Mulher Assim Mesmo" (também gravada por Caetano, em "Araçá Azul") _nesta últi­ma, Martinho da Vila divide os vocais com a cantora.

Para dar a dimensão da "multiplicidade" de Monsueto, con­vidou 11 produtores, um para cada faixa, incluindo Celso Fonseca (em "Mora na Filoso­fia"), Jair de Oliveira ("A Fonte Secou") e Proveta (no potpourri final, com participação de Oswaldinho da Cuíca).

"Queria que o CD refletisse es­ sa pessoa versátil que era o Monsueto", diz, sobre os vários produtores. "Mas, claro, pus ali muito da minha personalidade, que, modéstia à parte, é forte como a dele."

"Baita Negão*
Artista: Virgínia Rosa.
Gravadora: Selo Sesc.
Quanto: R$ 10 (em unidades do Sesc SP ou em www.sescsp.org.br/sesc).
Lançamento: 29 e 30/1, às 21h, no Sesc Pompeia (r. Clelia, 93, tel. 0/ xx/ 11/3871-7700; R$ 4 a R$ 16; não indi­cado a menores de 12 anos).

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca