03/03/2005
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09h00
da Folha de S. Paulo
Sob o bigode de Saddam Hussein, o Iraque viu campanhas de assassinato e de extermínio durante quase três décadas de ditadura. Sob a barba de "urso" de Salam Pax, o mundo teve acesso ao dia-a-dia dos iraquianos "comuns" e conheceu os últimos momentos de um sistema totalitário de um país invadido pelos EUA.
Com relatos em seu blog, Pax, pseudônimo de um arquiteto iraquiano de 30 e poucos anos, se tornaria a única fonte autóctone de notícias antes, durante e nos momentos imediatamente posteriores à guerra.
Se o fim do regime de Saddam mudou a realidade do país, a vida de Pax tomaria rumos inesperados. Viu seu diário virtual (dearraed.blogspot.com) transformar-se em livro de sucesso, "O Blog de Bagdá" (Companhia das Letras), e foi "adotado" pelo jornal britânico "The Guardian", onde se tornou colunista. Um outro "mimo" do periódico está fazendo com que a realidade descrita por Pax seja mostrada em imagens. Após um curso básico de operação de câmera, fez a série de curtas "Baghdad Blogger: Video Reports from Iraq" (blog de Bagdá: relatos em vídeo do Iraque), que mostra o pós-guerra no país.
Os programas podem ser vistos apenas no programa "Newsnight", da BBC britânica, e mostras internacionais de cinema. Leia trechos da entrevista que Pax concedeu à Folha, por e-mail.
Folha -Por que você decidiu fazer uma versão em vídeo de seu "O Blog de Bagdá"?
Salam Pax - Foi logo após a publicação do livro. Eu estava em Londres, e a mulher que cuida do departamento de filmes do "Guardian" [Guardian Films] atirou uma pequena câmera DV [digital] para mim e disse: "Se joga". Como estava acostumado a escrever um diário, era inevitável que aquilo se tornasse um diário em vídeo. Eles me colocaram nesse curso sobre filmagens: coisas básicas --eu nunca pegara em uma câmera antes. Era uma aposta.
Folha -Há alguma negociação em curso para exibir o filme no Brasil?
Pax - Os filmes da série "O Diário de Bagdá" são um trabalho em desenvolvimento, não há um filme propriamente dito. Adicionamos novos segmentos sempre que eles vão a algum festival. Os filmes estão previstos para ser exibidos na TV, e não pensamos em transformá-lo em um longa --às vezes ele funciona, às vezes não. A menos que algum festival brasileiro solicite, não há planos de levá-los aos cinemas; talvez se as TVs se interessarem, você os veja; por enquanto, você terá que ficar atento no "Newsnight" (BBC2), onde fazemos dois segmentos a cada dois meses.
Folha -Seus curtas e seu blog usam instrumentos ágeis e de fácil acesso. Quais possibilidades se abrem nessa democratização da tecnologia, seja como expressão artística ou como arma política?
Pax - A tecnologia abriu o jogo. Peço desculpas a todos os cineastas porque me sinto um intruso. Nunca fui propriamente treinado e não tenho o background correto, mas veja o que a tecnologia me permitiu fazer. A mesma coisa com o blog --publicidade pessoal. Você desenvolve o seu próprio público e, se você for talentoso ou se você estiver no momento certo no local certo, ganha um monte de atenção (e foi isso que aconteceu comigo). Isso reescreve as regras do jogo dos meios de comunicação. Acho excitante, mas não compro a discussão do blogueiro como jornalista. Não acho que jornalistas devam se preocupar com seus empregos; eles apenas deveriam estar preparados para serem desafiados. Um dos lemas dos blogueiros é "nós podemos checar seu rabo".
Folha -Há um renascimento das artes no Iraque?
Pax -As pessoas estão mais preocupadas em seguir suas vidas do que focar em arte. A vida diária se tornou muito mais difícil. Mas há pequenas fagulhas aqui e ali. Já o cinema é realmente uma arte perdida no Iraque; o último filme produzido no país foi há duas décadas. Não importa o que você pense sobre "Underxposure" [exposição insuficiente, exibido no Festival de Roterdã] como filme; Odey Rasheed [diretor] é um herói, e é uma obra linda, que sopra um novo ar no cinema local.
Folha -O que mais te impressionou nos seus registros do Iraque?
Pax -Durante os últimos 30 anos, todos viviam como se estivessem em uma grande caixa preta com uma tampa estreita no topo. Agora que essa tampa foi aberta, as pessoas estão explorando todas as atividades e emoções que elas não podiam. Repentinamente, você percebe que não conhecia tão bem assim seu país, porque aquilo com o que você cresceu era uma farsa. Agora, tudo parece surpreendente e assustador, as regras estão mudando a cada semana. Esse é um tempo muito excitante para viver. Isso é o que estou documentando nos meus diários, de um ponto de vista pessoal. Nem tudo é bom: expressar sua raiva através da violência tem nos levado para onde estamos agora, mas, do lado positivo, temos novos jornais e canais de TV. A verdade é que estou fazendo os filmes como uma desculpa para me questionar sobre coisas novas que vejo no meu país e tento descobrir por que eu não as via anteriormente.
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BRUNO YUTAKA SAITOda Folha de S. Paulo
Sob o bigode de Saddam Hussein, o Iraque viu campanhas de assassinato e de extermínio durante quase três décadas de ditadura. Sob a barba de "urso" de Salam Pax, o mundo teve acesso ao dia-a-dia dos iraquianos "comuns" e conheceu os últimos momentos de um sistema totalitário de um país invadido pelos EUA.
Com relatos em seu blog, Pax, pseudônimo de um arquiteto iraquiano de 30 e poucos anos, se tornaria a única fonte autóctone de notícias antes, durante e nos momentos imediatamente posteriores à guerra.
Se o fim do regime de Saddam mudou a realidade do país, a vida de Pax tomaria rumos inesperados. Viu seu diário virtual (dearraed.blogspot.com) transformar-se em livro de sucesso, "O Blog de Bagdá" (Companhia das Letras), e foi "adotado" pelo jornal britânico "The Guardian", onde se tornou colunista. Um outro "mimo" do periódico está fazendo com que a realidade descrita por Pax seja mostrada em imagens. Após um curso básico de operação de câmera, fez a série de curtas "Baghdad Blogger: Video Reports from Iraq" (blog de Bagdá: relatos em vídeo do Iraque), que mostra o pós-guerra no país.
Os programas podem ser vistos apenas no programa "Newsnight", da BBC britânica, e mostras internacionais de cinema. Leia trechos da entrevista que Pax concedeu à Folha, por e-mail.
Folha -Por que você decidiu fazer uma versão em vídeo de seu "O Blog de Bagdá"?
Salam Pax - Foi logo após a publicação do livro. Eu estava em Londres, e a mulher que cuida do departamento de filmes do "Guardian" [Guardian Films] atirou uma pequena câmera DV [digital] para mim e disse: "Se joga". Como estava acostumado a escrever um diário, era inevitável que aquilo se tornasse um diário em vídeo. Eles me colocaram nesse curso sobre filmagens: coisas básicas --eu nunca pegara em uma câmera antes. Era uma aposta.
Folha -Há alguma negociação em curso para exibir o filme no Brasil?
Pax - Os filmes da série "O Diário de Bagdá" são um trabalho em desenvolvimento, não há um filme propriamente dito. Adicionamos novos segmentos sempre que eles vão a algum festival. Os filmes estão previstos para ser exibidos na TV, e não pensamos em transformá-lo em um longa --às vezes ele funciona, às vezes não. A menos que algum festival brasileiro solicite, não há planos de levá-los aos cinemas; talvez se as TVs se interessarem, você os veja; por enquanto, você terá que ficar atento no "Newsnight" (BBC2), onde fazemos dois segmentos a cada dois meses.
Folha -Seus curtas e seu blog usam instrumentos ágeis e de fácil acesso. Quais possibilidades se abrem nessa democratização da tecnologia, seja como expressão artística ou como arma política?
Pax - A tecnologia abriu o jogo. Peço desculpas a todos os cineastas porque me sinto um intruso. Nunca fui propriamente treinado e não tenho o background correto, mas veja o que a tecnologia me permitiu fazer. A mesma coisa com o blog --publicidade pessoal. Você desenvolve o seu próprio público e, se você for talentoso ou se você estiver no momento certo no local certo, ganha um monte de atenção (e foi isso que aconteceu comigo). Isso reescreve as regras do jogo dos meios de comunicação. Acho excitante, mas não compro a discussão do blogueiro como jornalista. Não acho que jornalistas devam se preocupar com seus empregos; eles apenas deveriam estar preparados para serem desafiados. Um dos lemas dos blogueiros é "nós podemos checar seu rabo".
Folha -Há um renascimento das artes no Iraque?
Pax -As pessoas estão mais preocupadas em seguir suas vidas do que focar em arte. A vida diária se tornou muito mais difícil. Mas há pequenas fagulhas aqui e ali. Já o cinema é realmente uma arte perdida no Iraque; o último filme produzido no país foi há duas décadas. Não importa o que você pense sobre "Underxposure" [exposição insuficiente, exibido no Festival de Roterdã] como filme; Odey Rasheed [diretor] é um herói, e é uma obra linda, que sopra um novo ar no cinema local.
Folha -O que mais te impressionou nos seus registros do Iraque?
Pax -Durante os últimos 30 anos, todos viviam como se estivessem em uma grande caixa preta com uma tampa estreita no topo. Agora que essa tampa foi aberta, as pessoas estão explorando todas as atividades e emoções que elas não podiam. Repentinamente, você percebe que não conhecia tão bem assim seu país, porque aquilo com o que você cresceu era uma farsa. Agora, tudo parece surpreendente e assustador, as regras estão mudando a cada semana. Esse é um tempo muito excitante para viver. Isso é o que estou documentando nos meus diários, de um ponto de vista pessoal. Nem tudo é bom: expressar sua raiva através da violência tem nos levado para onde estamos agora, mas, do lado positivo, temos novos jornais e canais de TV. A verdade é que estou fazendo os filmes como uma desculpa para me questionar sobre coisas novas que vejo no meu país e tento descobrir por que eu não as via anteriormente.
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