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05/02/2009 - 08h18

Diretora Cibele Forjaz abre sede de sua companhia em São Paulo

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo

"Comigo-ninguém-pode", exclama a diretora teatral Cibele Forjaz, 42, ao tirar da mochila a nova aquisição para o jardim da Casa Livre, sede de sua companhia, no centro de São Paulo, a ser aberta amanhã.

22.jan.2009/Eduardo Knapp/Folha Imagem
Diretora teatral Cibele Forjaz na sede da sua companhia em SP
Diretora teatral Cibele Forjaz na sede da sua companhia em SP

Ainda que denote uma planta, a expressão soa curiosa na boca de alguém que anda de braço dado com a discrição. Um metro e quarenta e três de altura, Cibele fala baixo, vai à ponta do assento quando deseja sublinhar pontos de seu discurso e raramente apela ao gesto.

Comedimento que não a impediu de se tornar uma das encenadoras mais inventivas de
sua geração, forjada no fim dos anos 80, nos corredores da USP.

Há sete anos, em "Woyzeck, um Brasileiro", releitura da peça inconclusa de Georg Büchner em que um soldado alemão virava operário brasileiro, ela sorteava cenas aleatórias a serem apresentadas em cada apresentação.

Em 2004, "Arena Conta Danton", outro Büchner desconstruído, dividia a plateia em dois e trazia um rodízio do elenco nos papéis (às vezes, de um ato para o outro) que reeditava o "sistema coringa" implantado por Augusto Boal no Arena sessentista.

Lenise Pinheiro/Folha Imagem
Cena da peça "Vemvai - O Caminho dos Mortos", dirigida por Cibele Forjaz
Cena da peça "Vemvai - O Caminho dos Mortos", dirigida por Cibele Forjaz

Atualmente, em "Rainha[(s)] - Duas Atrizes em Busca de um Coração", Cibele se vale da situação-base de "Mary Stuart", o embate entre duas rainhas, para fazer um ensaio sobre o feminino e o jogo teatral. E brinca mais uma vez: são as favas depositadas pelo público na bacia-urna que selam o destino das personagens.

Seu teatro lúdico já lhe rendeu dois prêmios Shell (o mais prestigioso das artes cênicas no país): um pelo projeto de ocupação do Arena que resultou em "Arena Conta Danton" e outro pela direção de "Vemvai - O Caminho dos Mortos".

Esta, um mosaico das relações entre vida e morte construído a partir de ritos ameríndios, reestreia amanhã, na programação de inauguração da Casa Livre.

"É um vaudeville ameríndio, com muitas portas, truques, sumiços e reaparições", diverte-se a diretora, que muda o tom ao falar da relação do brasileiro médio com o universo indígena. "O contato com esse mundo foi, para a cia. Livre, um soco no estômago. Por omissão, somos cúmplices de um massacre cultural. É um absurdo que pessoas escolarizadas não saibam absolutamente nada sobre a diversidade do país."

Ela seguirá na trilha indígena em "Raptada pelo Raio", que deve estrear em abril.

Filha do Oficina

Divulgação
Cena de "Rainha[(s)] - Duas Atrizes em Busca de um Coração", em cartaz em São Paulo
Cena de "Rainha[(s)] - Duas Atrizes em Busca de um Coração", em cartaz em São Paulo

Em 91, recém-formada, Cibele ensaiava um texto inspirado na obra de Florbela Espanca. Na sala ao lado, Zé Celso Martinez, Raul Cortez e comparsas preparavam "As Boas", de Jean Genet, o retorno do Oficina às montagens, depois de uma década de leituras e performances: "Levei um choque, foi uma revolução. O teatro dos anos 80 tinha sido formalista, limpo, quase artes plásticas. Nunca tinha visto atores sendo tão explícitos. O Oficina falava direto para mim", lembra.

Depois de uma temporada de "revisão de paradigmas" nos EUA, ela se juntou à trupe de Zé Celso para criar a luz de "Hamlet" (93). E ficou por dez anos. Sobre os princípios do teatro coral aprendidos no Oficina, Cibele fundou a Livre, em 2000, com "atores-criadores que não seguem um ícone, mas constroem juntos um caminho". "Toda Nudez Será Castigada" (2000), de Nelson Rodrigues, e "Um Bonde Chamado Desejo" (2002), de Tennessee Williams, foram belos cartões de visita para o grupo.

"A grande virada foi a ocupação do Arena, em 2004. Entrevistar os monstros que fizeram a história daquele lugar, restabelecer um elo quebrado pela ditadura abriu para nós o veio do improviso, da incompletude da obra sem o público, do teatro-jogo", diz.

Afora os pontos de inflexão aqui e ali na carreira, o que ela vem maturando desde os 20 e poucos anos é um teatro antropofágico, que não "copia nem nega, mas come e retrabalha à sua maneira".

Com Cibele e seu apetite criativo ninguém pode.

Arte/Folha Online
 

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