"Odeio a comparação com 'Cidade de Deus'", diz Danny Boyle
PEDRO DIAS LEITE
de Londres para a Folha
"Na fase de produção, falavam a toda hora que era um mistura de 'Cidade de Deus' com 'Oliver Twist' [obra de Charles Dickens]. Odeio essa comparação", diz o britânico Danny Boyle, 52, sobre "Quem Quer Ser um Milionário?".
| 11.jan.2009/Paul Buck/Efe |
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| Danny Boyle com o Globo de Ouro por "Quem Quer Ser um Milionário?" |
A comparação, por mais que irrite o diretor de "Transpotting" e "A Praia", não é sem sentido --além das semelhanças já apontadas, Boyle chegou a cogitar cortar o cabelo de um dos atores porque o achou parecido com o personagem Zé Pequeno, de "Cidade de Deus".
"Milionário" conta a história de um adolescente indiano, Jamal, que, após uma infância dura nas ruas de Mumbai, consegue participar do "Show do Milhão" local, onde fica a uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias (cerca de R$ 1 milhão).
A grande questão, além da que pode deixar Jamal milionário, é como o jovem sem educação consegue saber as respostas para chegar aonde até então ninguém havia chegado. Entre os cenários do programa e os dramas da vida real, o filme constrói a história de Jamal, de seu irmão, Salim, e de sua amada, Latika, em meio ao caos da enorme metrópole indiana, para tentar responder se ele é: a) trapaceiro; b) sortudo; c) gênio; ou d) predestinado.
O ritmo e o clima do filme mostram ainda a influência de Bollywood, a vibrante indústria cinematográfica da Índia. Quase toda a equipe e os atores são locais --o garoto que interpreta Jamal, Dev Patel, é britânico e nunca havia pisado em Mumbai, mas Salim (Madhur Mittal) e Latika (Freida Pinto) são indianos, como todos os outros.
"Se você leva 150 pessoas, é um exército invasor, que derruba tudo. Deixam você fazer o que quiser, mas te odeiam. Já fiz um filme assim, 'A Praia', com Leonardo Di Caprio ganhando US$ 15 milhões, na Tailândia. Esse é diferente. Dessa vez, levamos dez pessoas, todo o resto era de Bollywood."
O resultado é a mistura entre "a tradição europeia, de realismo", e "a fantasia indiana", segundo o diretor. O trecho do filme em que se faz o retrato da infância dos personagens é falado em hindi, em parte porque a produção não conseguia encontrar atores jovens, locais, que soubessem inglês o suficiente para atuar.
Mumbai, alvo de atentados que deixaram quase 200 mortos em novembro, também tem papel central, com suas favelas intermináveis e sem esgoto.
"Ela é tão extraordinária que se transforma em um personagem, com sua onda de energia que dura 20 horas por dia", diz Boyle. Muitas das cenas, captadas com câmeras pequenas para filmar a multidão sem chamar a atenção, "têm pessoas olhando para a câmera e erros de continuidade --deixei assim de propósito, porque mostrava exatamente como é lá".
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