08/07/2005
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16h30
da Folha Online
O filme foi rodado no sertão nordestino, mas os brasileiros ainda não assistiram --algo um tanto comum no cinema nacional. Além da falta de dinheiro para produzir o filme, a falta das "verdinhas" na hora da distribuição é outro obstáculo. Mesmo com essas dificuldades, "Cinemas, Urubus e Aspirinas", do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, 42, já foi visto e premiado pelos franceses, dando início a uma trajetória de sucesso no exterior, a exemplo de produções como "Central do Brasil", "Cidade de Deus" e "Carandiru".
"Até Pernambuco pode chegar até Cannes", diz o diretor em entrevista à Folha Online.
O longa-metragem, o primeiro de Gomes, recebeu o Prêmio da Educação Nacional, concedido em maio pelo Ministério da Educação da França no Festival de Cannes, concorrendo com outras 1.600 produções internacionais.
O filme mostra a viagem pelo Nordeste do Brasil de dois homens: um alemão que fugiu da guerra e um brasileiro que tenta escapar da miséria provocada pela seca. O estrangeiro passa a exibir filmes pelo sertão com patrocínio do fabricante da aspirina, famoso analgésico.
Entusiasmado com o sucesso do longa no exterior, que estréia no Brasil em novembro, Marcelo Gomes já vendeu o seu filme para cinco países: França, Grécia, Canadá, Equador e Venezuela. Seu currículo inclui ainda uma série de documentários institucionais.
Leia a seguir trechos da entrevista do cineasta.
Folha Online - Por que os brasileiros ainda não puderam ver o filme? O que acontece?
Marcelo Gomes - A gente fez um teste de cópia para levar para Cannes, e apenas alguns amigos assistiram. Mas não deu tempo, foi tudo uma correria. Primeiro a gente não tinha dinheiro para terminar o filme. Mandamos, então, para Cannes um cópia em DVD. Um pouco antes ganhamos um prêmio e com o dinheiro pudemos finalizar a primeira parcela, fizemos um acordo com o laboratório para a segunda parcela. A gente ainda tem muito pouco dinheiro para lançar o filme no Brasil, por isso não lançamos. É um filme com poucos recursos, de R$ 2 milhões, ainda inédito por aqui.
Folha Online - Qual a previsão de lançamento do filme no Brasil?
Gomes - Vamos lançar em novembro. Deverá ser exibido na Reserva Cultural, em São Paulo. Em outros cinemas, ainda estamos negociando. É importante deixar claro que este é o meu primeiro filme, eu não sou um diretor famoso, os atores são desconhecidos-- não são de novela, falando português mais claro.
Folha Online - O filme demorou sete anos para sair do papel. Como sentiu quando recebeu a notícia do prêmio em Cannes?
Gomes - Pensei: quero curtir muito, afinal passei sete anos batalhando por este filme. Foi uma prova de fogo, mas ao mesmo tempo foi muito bacana. Prova de fogo: passamos sete anos pensando, porque fazendo mesmo foram dois. Ele foi feito com carinho, é muito pessoal. Ver 2.000 pessoas assistindo ao filme, um público seleto e especializado, e depois elogiando, foi maravilhoso. Houve muitos aplausos. Estava em Cannes com a equipe toda. Todo mundo somou esforços para ir.
"MEU TIO VENDEU ASPIRINA E EXIBIU FILMES NO SERTÃO"
Folha Online - O que mais lhe encantou nos elogios da crítica?
Gomes - Houve uma compreensão do filme, o que me deixou com muito ânimo para lançar no Brasil. É um filme sobre pessoas que querem descobrir um caminho melhor para as suas vidas. São personagens que, apesar de contingências políticas e sociais adversas, precisam buscar o seu próprio mundo. Neste momento, você não tem mais o nordestino fugindo da seca ou o alemão da guerra, mas dois seres humanos. Isso faz com que o brasileiro e o nordestino estejam no mesmo patamar. Isso fez do filme universal, e garantiu a compreensão.
Folha Online - Como o mundo vê a produção nacional?
Gomes - Acho que eles têm uma grande curiosidade em relação ao cinema latino. Acho que o cinema argentino e mexicano ainda têm maior visibilidade que o brasileiro. Acho que isso acontece porque a Argentina e o México ainda participaram em maior número dos festivais internacionais.
Folha Online - Qual foi sua fonte de inspiração para escrever o roteiro?
Gomes - O meu tio-avô me contou esta história há dez anos. Depois disso, fui para a Inglaterra estudar cinema, voltei, mas a idéia ficou me martelando. Ele, inclusive, ainda mora em São Paulo e tem 97 anos. Quando ouvi a história, vi logo este elemento universal. O filme que se passa em 1942 poderia se passar agora, é muito contemporâneo, pois fala de solidão, de destino, de ter a compreensão, de aceitar pessoas de culturas diferentes. Meu tio realmente vendeu aspirinas e exibiu filmes pelo sertão nordestino na época.
"GOSTO DE SP, MAS QUERO VOLTAR LOGO PARA RECIFE"
Folha Online - Por que vocês não procuraram o laboratório farmacêutico para obter apoio já que falam da aspirina?
Gomes - (Risos) A gente pediu autorização para usar o nome, mas queríamos ter a maior liberdade possível. O filme não é sobre a aspirina, estamos falando sobre outras coisas.
Folha Online - Como você acabou se interessando por cinema?
Gomes - Fui estudar comunicação quando morava em Recife, porque era o curso mais próximo de cinema. Na mesma época, fundei um cineclube por lá. Tinha ansiedade pelo cinema. Quando acabou a faculdade, ganhei uma bolsa para estudar cinema na Inglaterra. Quando voltei, abri uma produtora de curtas, a Parabólica Brasil. Depois eu vim para São Paulo fazer documentários para a TV e fiquei preparando este projeto. No meio tempo, fui trabalhar no roteiro de "Madame Satã" e voltei para o Recife para rodar o filme.
Folha Online - Atualmente você está morando em São Paulo. Pretende se mudar para cá por causa do cinema?
Gomes - Eu já morei antes. Gosto muito de São Paulo, mas quero voltar logo para Recife. Recentemente eu ganhei um prêmio da Petrobras para produzir um documentário sobre o sertão. É meu projeto experimental poético sobre o sertão.
"A SECA DO SERTÃO LEMBRA A NEVE NA ALEMANHA"
Folha Online - Em "Urubus", o sertão também aparece com força. Qual a sua relação com a região?
Gomes - Ele é o grande teatro onde acontece o drama dos personagens. Eu falo que o filme não é sobre o sertão, ele é no sertão, o que tem uma carga dramática importante. A seca do sertão em algum momento lembra a neve na Alemanha. Gravamos na Paraíba, com 42 graus, filmava só sol a pino porque queríamos aquela luz. A gente sofreu muito para filmar nessas condições.
Folha Online - Vocês tiveram contato com o povo da região?
Gomes - Os encontros que nós tivemos com as pessoas foram maravilhosos. Embora eu conheça o sertão desde pequeno, aquelas pessoas participaram do nosso filme. E estão impressas nele. Todo o elenco é de nordestinos, menos o alemão. Acho que tudo isso imprime essa cor local ao longa.
Folha Online - Sobre o fato de o filme ser feito por nordestinos e chegar em Cannes, o isso significa para um cineasta que tem de sobreviver fora do eixo Rio-São Paulo?
Gomes -Eu acho que dá um alento para os cineastas que estão espalhados pelo Brasil. Mostra que é possível fazer cinema, tem que ter determinação, mas não é algo impossível. Cannes está aberto não só para cineastas que têm uma cinematografia mais estabelecida. Está aberto para cineastas que vêm de Pernambuco também.
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Cineasta premiado em Cannes enfrenta saga para estrear no Brasil
KARINA KLINGERda Folha Online
O filme foi rodado no sertão nordestino, mas os brasileiros ainda não assistiram --algo um tanto comum no cinema nacional. Além da falta de dinheiro para produzir o filme, a falta das "verdinhas" na hora da distribuição é outro obstáculo. Mesmo com essas dificuldades, "Cinemas, Urubus e Aspirinas", do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, 42, já foi visto e premiado pelos franceses, dando início a uma trajetória de sucesso no exterior, a exemplo de produções como "Central do Brasil", "Cidade de Deus" e "Carandiru".
| Reprodução |
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| O diretor pernambucano Marcelo Gomes, de 42 anos |
O longa-metragem, o primeiro de Gomes, recebeu o Prêmio da Educação Nacional, concedido em maio pelo Ministério da Educação da França no Festival de Cannes, concorrendo com outras 1.600 produções internacionais.
O filme mostra a viagem pelo Nordeste do Brasil de dois homens: um alemão que fugiu da guerra e um brasileiro que tenta escapar da miséria provocada pela seca. O estrangeiro passa a exibir filmes pelo sertão com patrocínio do fabricante da aspirina, famoso analgésico.
Entusiasmado com o sucesso do longa no exterior, que estréia no Brasil em novembro, Marcelo Gomes já vendeu o seu filme para cinco países: França, Grécia, Canadá, Equador e Venezuela. Seu currículo inclui ainda uma série de documentários institucionais.
Leia a seguir trechos da entrevista do cineasta.
Folha Online - Por que os brasileiros ainda não puderam ver o filme? O que acontece?
Marcelo Gomes - A gente fez um teste de cópia para levar para Cannes, e apenas alguns amigos assistiram. Mas não deu tempo, foi tudo uma correria. Primeiro a gente não tinha dinheiro para terminar o filme. Mandamos, então, para Cannes um cópia em DVD. Um pouco antes ganhamos um prêmio e com o dinheiro pudemos finalizar a primeira parcela, fizemos um acordo com o laboratório para a segunda parcela. A gente ainda tem muito pouco dinheiro para lançar o filme no Brasil, por isso não lançamos. É um filme com poucos recursos, de R$ 2 milhões, ainda inédito por aqui.
Folha Online - Qual a previsão de lançamento do filme no Brasil?
Gomes - Vamos lançar em novembro. Deverá ser exibido na Reserva Cultural, em São Paulo. Em outros cinemas, ainda estamos negociando. É importante deixar claro que este é o meu primeiro filme, eu não sou um diretor famoso, os atores são desconhecidos-- não são de novela, falando português mais claro.
Folha Online - O filme demorou sete anos para sair do papel. Como sentiu quando recebeu a notícia do prêmio em Cannes?
Gomes - Pensei: quero curtir muito, afinal passei sete anos batalhando por este filme. Foi uma prova de fogo, mas ao mesmo tempo foi muito bacana. Prova de fogo: passamos sete anos pensando, porque fazendo mesmo foram dois. Ele foi feito com carinho, é muito pessoal. Ver 2.000 pessoas assistindo ao filme, um público seleto e especializado, e depois elogiando, foi maravilhoso. Houve muitos aplausos. Estava em Cannes com a equipe toda. Todo mundo somou esforços para ir.
"MEU TIO VENDEU ASPIRINA E EXIBIU FILMES NO SERTÃO"
| Reprodução |
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| "Cinema, Urubus e Aspirinas foi ovacionado em Cannes |
Folha Online - O que mais lhe encantou nos elogios da crítica?
Gomes - Houve uma compreensão do filme, o que me deixou com muito ânimo para lançar no Brasil. É um filme sobre pessoas que querem descobrir um caminho melhor para as suas vidas. São personagens que, apesar de contingências políticas e sociais adversas, precisam buscar o seu próprio mundo. Neste momento, você não tem mais o nordestino fugindo da seca ou o alemão da guerra, mas dois seres humanos. Isso faz com que o brasileiro e o nordestino estejam no mesmo patamar. Isso fez do filme universal, e garantiu a compreensão.
Folha Online - Como o mundo vê a produção nacional?
Gomes - Acho que eles têm uma grande curiosidade em relação ao cinema latino. Acho que o cinema argentino e mexicano ainda têm maior visibilidade que o brasileiro. Acho que isso acontece porque a Argentina e o México ainda participaram em maior número dos festivais internacionais.
Folha Online - Qual foi sua fonte de inspiração para escrever o roteiro?
Gomes - O meu tio-avô me contou esta história há dez anos. Depois disso, fui para a Inglaterra estudar cinema, voltei, mas a idéia ficou me martelando. Ele, inclusive, ainda mora em São Paulo e tem 97 anos. Quando ouvi a história, vi logo este elemento universal. O filme que se passa em 1942 poderia se passar agora, é muito contemporâneo, pois fala de solidão, de destino, de ter a compreensão, de aceitar pessoas de culturas diferentes. Meu tio realmente vendeu aspirinas e exibiu filmes pelo sertão nordestino na época.
"GOSTO DE SP, MAS QUERO VOLTAR LOGO PARA RECIFE"
| Reprodução |
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| De orçamento baixo, o longa custo R$ 2 milhões |
Gomes - (Risos) A gente pediu autorização para usar o nome, mas queríamos ter a maior liberdade possível. O filme não é sobre a aspirina, estamos falando sobre outras coisas.
Folha Online - Como você acabou se interessando por cinema?
Gomes - Fui estudar comunicação quando morava em Recife, porque era o curso mais próximo de cinema. Na mesma época, fundei um cineclube por lá. Tinha ansiedade pelo cinema. Quando acabou a faculdade, ganhei uma bolsa para estudar cinema na Inglaterra. Quando voltei, abri uma produtora de curtas, a Parabólica Brasil. Depois eu vim para São Paulo fazer documentários para a TV e fiquei preparando este projeto. No meio tempo, fui trabalhar no roteiro de "Madame Satã" e voltei para o Recife para rodar o filme.
Folha Online - Atualmente você está morando em São Paulo. Pretende se mudar para cá por causa do cinema?
Gomes - Eu já morei antes. Gosto muito de São Paulo, mas quero voltar logo para Recife. Recentemente eu ganhei um prêmio da Petrobras para produzir um documentário sobre o sertão. É meu projeto experimental poético sobre o sertão.
"A SECA DO SERTÃO LEMBRA A NEVE NA ALEMANHA"
| Reprodução |
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| Em cena, a dupla de viajantes no sertão nordestino |
Folha Online - Em "Urubus", o sertão também aparece com força. Qual a sua relação com a região?
Gomes - Ele é o grande teatro onde acontece o drama dos personagens. Eu falo que o filme não é sobre o sertão, ele é no sertão, o que tem uma carga dramática importante. A seca do sertão em algum momento lembra a neve na Alemanha. Gravamos na Paraíba, com 42 graus, filmava só sol a pino porque queríamos aquela luz. A gente sofreu muito para filmar nessas condições.
Folha Online - Vocês tiveram contato com o povo da região?
Gomes - Os encontros que nós tivemos com as pessoas foram maravilhosos. Embora eu conheça o sertão desde pequeno, aquelas pessoas participaram do nosso filme. E estão impressas nele. Todo o elenco é de nordestinos, menos o alemão. Acho que tudo isso imprime essa cor local ao longa.
Folha Online - Sobre o fato de o filme ser feito por nordestinos e chegar em Cannes, o isso significa para um cineasta que tem de sobreviver fora do eixo Rio-São Paulo?
Gomes -Eu acho que dá um alento para os cineastas que estão espalhados pelo Brasil. Mostra que é possível fazer cinema, tem que ter determinação, mas não é algo impossível. Cannes está aberto não só para cineastas que têm uma cinematografia mais estabelecida. Está aberto para cineastas que vêm de Pernambuco também.
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