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05/08/2005 - 09h38

Mestres cantam a tragédia de Candeia

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LUIZ FERNANDO VIANNA
da Folha de S.Paulo, no Rio

Para amigos que conviveram com ele, como Paulinho da Viola e Wilson Moreira, participantes da homenagem de hoje, Candeia era grande, mas real. Para muita gente do samba, no entanto, ele é um mito. Compreende-se: sua biografia se assemelha à de um herói trágico.

Quando criança, ele lamentava que suas festas de aniversário não tinham crianças. Seu pai, Antônio Candeia, aproveitava o 17 de agosto para chamar os amigos adultos para um longo pagode temperado a feijão e cachaça.

De tanto ouvir, tornou-se um mestre precoce do samba. Aos 17 anos, venceu a disputa de sambas-enredos na Portela para o Carnaval de 1953. Ao lado do parceiro Waldir, 59, ainda venceria outras cinco vezes na escola.

Jovem forte, tornou-se um policial severo, violento mesmo. Dava duras em prostitutas, supostos malandros --certa vez abordou o ainda desconhecido Paulinho da Viola em um salão de sinuca-- e prendia sem parcimônia.

"Candeia queria ser bom em tudo. Se era policial, tinha que prender. Mais novo, como não tinha habilidade para jogar bola, foi ser centroavante rompedor. Fazia gol de ombro, do jeito que desse", conta o amigo e biógrafo João Baptista Vargens, autor de "Candeia - Luz da Inspiração".

A rima de valentia com boemia lhe custou caro. Na manhã de 13 de dezembro de 1965, ao voltar de uma noitada, Candeia se envolveu em uma briga de trânsito no centro do Rio. Esvaziou a tiros os pneus do caminhão que se chocara com seu carro. Em resposta, o dono do caminhão atirou cinco vezes. Uma bala pegou a medula e o deixou paraplégico.

"Não há dúvida de que sua obra amadureceu bastante depois do acidente. Ao ficar preso a uma cadeira de rodas, teve tempo para pensar na vida", afirma Vargens.

Muitas de suas letras passaram a falar de sua situação. "Sentado em trono de rei/ Ou aqui nesta cadeira/ (...) De qualquer maneira/ Meu amor eu canto", disse em "De Qualquer Maneira". "Me sinto igual a uma folha caída/ Sou o adeus de quem parte/ Para quem a vida é pintura sem arte", lamentou em "Pintura sem Arte".

Mas, na segunda parte da mesma música, ele reconhecia o valor da dor e levantava as "flores mortas pelo chão". A partir do final dos anos 60, Candeia assumiu uma atitude praticamente inversa à do policial repressor, transformando o seu sofrimento em matéria-prima de uma reviravolta típica dos heróis trágicos.

Tornou-se um líder político, mas não partidário, o que era quase impossível naqueles anos de ditadura. Foi um porta-voz da cultura negra, dos sambistas alijados das escolas de samba cada vez mais comerciais e de um nacionalismo que incomodava numa época em que era bom para o Brasil o que fosse bom para os EUA.

"Depois de sua morte, soubemos que a ditadura o vigiava, porque ele tinha uma postura rebelde e estava mobilizando estivadores e outros grupos esquecidos", conta Vargens.

O centro da mobilização era o Quilombo, ou Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. Foi criado em 1975 depois de sua ruptura com a Portela e para ser mais do que uma mera agremiação carnavalesca.

Para Wilson Moreira, diretor do Quilombo e seu parceiro em "Me Alucina", "Quero Estar Só" e vários sambas, "Candeia estava liderando alguma coisa grande". Para o compositor e escritor Nei Lopes, sua "firme postura política" foi decisiva para a retomada do movimento negro no Rio.

"Hoje, as idéias de Candeia ecoam como utopia. Mas não se pode negar que seu pensamento foi muito além do que supõe a vã filosofia", diz Lopes.

Para coroar o destino trágico, Candeia morreu cedo (aos 43 anos, em 16 de novembro de 1978) e no auge. Tinha lançado nos anos anteriores cinco discos solo, discos coletivos --como os três da série "Partido em 5"-- e começado a se tornar mito.

"Candeia era o cara!", exalta Luiz Carlos da Vila, outro destaque da noite de hoje, parceiro póstumo de Candeia em "A Luz do Vencedor" e autor da maior homenagem feita ao mestre, o samba "O Sonho Não Acabou", que ele torce para ser profético: "O sonho não vai acabar/ E ninguém irá esquecer/ Candeia".

Homenagem a Candeia
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, 0/xx/ 11/3871-7700)
Quando: hoje e amanhã, às 22h30, e domingo, às 19h30
Quanto: ingressos esgotados

Homenagem a Nelson Sargento
Onde: Traço de União (r. Cláudio Soares, 73, Pinheiros, 0/xx/11/ 3031-8065)
Quando: hoje, às 22h
Quanto: R$ 20

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