Yeats e Joyce resgataram identidade da Irlanda
colaboração para a Folha Online
Para o leitor que pensa na Irlanda como um país distante e desconhecido, uma boa fonte de conhecimento sobre o país está em sua literatura. Uma amostra preciosa deste saber é parte fundamental de obras-primas de dois gênios da literatura moderna: William Butler Yeats e James Joyce.
Foi principalmente a partir desses escritores, surgidos na virada do século 19 para o 20, que a própria cultura da Irlanda viveu seu momento de renascimento, em um momento crucial na própria história do país.
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| James Joyce reflete sobre a a identidade do homem urbano de sua época |
Dominada por séculos pelo Império Britânico, cresciam nesta época movimentos que lutavam pela independência do país. E nesse contexto, para afirmar sua diferença para com os ingleses, o resgate da identidade nacional era essencial.
Um dos primeiros e mais importantes escritores a se preocupar com a questão foi o poeta William Butler Yeats (1865-1939). Em seus versos, Yeats busca inspiração nos mitos e antigas tradições célticas para fazer reflexões profundas sobre a condição humana, marcadas também pelo tom espiritualista.
De forma simbólica, fazia referência também à opressão política, cultural e religiosa que vitimava a Irlanda há tempos. Em uma de suas mais famosas peças de teatro, "Cathleen Ní Houlihan", o simbolismo em prol de uma Irlanda independente é evidente.
No enredo, a pátria é representada por uma senhora que pede a um jovem noivo que deixe seu casamento para lutar e recuperar seus "belos campos verdes", representação para as províncias da Irlanda na época.
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| W.B Yeats, ao lado de seu pai, se inspirou em mitos e antigas tradições célticas |
Diversidade
Yeats e sua geração seriam precursores de uma leva de gênios que contribuiriam para realçar a cultura original de diferentes modos. Ainda em sua época, muitos deles, como George Moore (1852-1933), buscariam esse resgate compondo ou traduzindo livros na língua original dos celtas, o gaélico, então em vias de esquecimento.
Outro tema que viria à tona nos séculos 19 e 20 seria o exílio, vivenciado por milhões de irlandeses que tiveram de deixar o país para escapar da Grande Fome, desencadeada por uma praga que atingiu as plantações do país por volta de 1840 e dizimou um terço da população.
Nesse tema, o nome mais proeminente é James Joyce (1882-1941), outro gigante da literatura moderna. Sob sua inovadora narrativa --que faz uma imersão profunda dentro da mente de seus personagens-- Joyce também voltaria suas reflexões para a identidade, porém, focando o homem urbano de sua época.
Em suas histórias, os personagens estão imersos em questões religiosas e políticas em ebulição na Irlanda da época. Para o leitor iniciante, uma boa introdução é o livro de contos "Dublinenses".
Reconhecimento
Uma sucessão extraordinária que revelou gênios como Oscar Wilde, Samuel Beckett, Seamus Heaney, Sean O'Casey, entre outros, acabaria consolidando a literatura irlandesa como uma das mais prodigiosas do século 20, dada seu enorme reconhecimento por críticos e estudiosos de todo o mundo.
Para a professora da USP Munira Mutran, a peculiaridade desta consolidação --intimamente ligada ao processo político do país-- tornou a literatura irlandesa riquíssima para refletir sobre assuntos que até hoje permeiam a sociedade e o ser humano em geral.
"Há muita coisa a ser vista na literatura irlandesa e a produção atual é de uma qualidade extrema", diz, citando nomes contemporâneos do teatro como Brian Friel, Tom Murphy, Sebastian Barry, Thomas McLaughlin e Marina Carr. Para ela, a literatura irlandesa pode ser vista como um painel onde questões delicadas do homem moderno são delineadas.
Ainda hoje, na opinião de estudiosos, a Irlanda continua construindo sua identidade. Se antes era a dominação estrangeira que colocava desafios aos escritores para resgatar a cultura original, hoje a dificuldade vem de fora.
O crescimento econômico e o intenso desenvolvimento vividos pela Irlanda durante o século 20 atraiu imigrantes de todo o mundo.
Para a professora da USP Laura de Izarra, "hoje os escritores fazem uma re-escrita, a partir do olhar do estranho. O estrangeiro passa a sofrer tudo aquilo que o irlandês sentiu quando foi oprimido ou quando teve de deixar sua terra".



