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25/09/2005 - 11h33

Nova novela das sete da Globo satiriza o país com western

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MARCELO BARTOLOMEI
Colaboração para a Folha de S.Paulo, no Rio

Quando começar o primeiro capítulo de "Bang Bang", a novela das sete que a Globo estréia no dia 3, a emissora inicia testes de uma nova linguagem e diferentes estéticas em relação ao seu tradicional padrão de produção.

Os quatro primeiros minutos da novela serão em anime (técnica de desenho animado japonesa) na tentativa de atrair o público jovem, minimizar os efeitos da violência na TV e escapar das críticas por causa do horário. Além disso, recursos de computação gráfica --antes utilizados em minisséries-- estarão no folhetim.

"Bang Bang", um faroeste cujo cenário é baseado nos clássicos do western norte-americano, é de autoria de Mário Prata, 59, roteirista conhecido pelo texto leve, com pitadas de humor e que estava afastado da emissora havia 20 anos -seu último trabalho foi "Um Sonho a Mais" (1985), em parceria com Lauro César Muniz.

"É uma novela muito específica, pois todo o seu universo é criado. É diferente de fazer novela de época ou contemporânea, quando você pesquisa e transpõe os elementos para as telas. É um faroeste, mas não uma cópia, pois tem um olhar muito nosso. Temos apenas uma referência ao western norte-americano, que era muito violento. É a novela mais difícil que já fiz", diz Ricardo Waddington, 44, diretor de núcleo.

A Globo muda o estilo de fazer novela no horário num momento em que a concorrência avança, mas aposta e está ciente dos riscos. "Eu chamo esta novela de abusada. Para mim não existe moderno ou antigo. Novela é uma linguagem por si mesma. Como conteúdo e narrativa, ela traz um abuso. Nos pediu um elenco, uma trilha, uma cenografia, um figurino, um tratamento estético, tudo abusado. Acho qualquer novela arriscada hoje em dia", diz.

Também é a estréia de Fernanda Lima numa novela, e como protagonista. "Ou gostam da novela ou não. Ela não vai fazer conchavo com o público. Ou compra, ou não compra. Aposto que compre... A Fernanda Lima fez testes e foi aprovada, está se dando muito bem. Eu estou acostumado a lançar gente na televisão, e tem dado certo. Gosto da novidade na escalação porque dá mais credibilidade ao personagem, frescor, oxigênio e uma temperatura que outra atriz, que traria a lembrança de outro personagem, não teria."

Referência

O projeto é antigo e tem 16 anos, segundo Prata. A referência ao faroeste é uma homenagem à infância do autor. "Eu ia fazer essa novela na Manchete, mas deu no que deu... [A falência da emissora foi decretada em 2000] Foi cansativo chegar até aqui porque eu convenci a Globo aos poucos. Caí na mão de dois diretores maravilhosos, que entenderam o que eu queria desde o momento em que leram o primeiro capítulo. Não adiantaria fazer se fosse com nomes brasileiros e gravada no Maranhão, por exemplo."

Albuquerque, a fictícia cidade onde se passa a história, é uma referência direta ao seu mais famoso trabalho na Globo --"Estúpido Cupido" (1976). "Conheci a cidade cenográfica no início da semana passada. Fiquei olhando e, num canto, sozinho, comecei a chorar. A Rede Globo virou uma indústria", analisa.

O deserto onde se passa a novela (e onde a equipe gravou as primeiras cenas e outras que serão usadas ao longo da atração) é em San Pedro de Atacama, no Chile. A produção se preocupou em adaptar figurino e cenário, por exemplo, ao clima do deserto. "É uma cidade cenográfica [que fica na Central Globo de Produção, o Projac, na zona oeste do Rio] que precisa ter poeira. A roupa das pessoas tem poeira. Isso será visível na tela", diz Waddington.

Cuidados

O desenho animado entra na novela para amenizar a violência, garante Waddintgon, para quem o horário seria impróprio para seguir a cartilha dos animes japoneses ou até mesmo do western americano. "Pegamos o conteúdo pesado e colocamos numa linguagem lúdica. Entra no recurso que o Quentin Tarantino usou em "Kill Bill", por exemplo, de uma situação muito violenta: põe o conteúdo adulto no desenho, que é de imagem lúdica."

Em Albuquerque, é proibido andar armado. Coincidência ou não, em outubro será votado o referendo sobre a comercialização de armas no Brasil. A novela terá duelos, mas traduzidos em cenas de ação. "Não haverá sangue na novela. O espectador não verá a pessoa morrendo. Tentamos contar essa história de faroeste de uma maneira mais lúdica e bem menos violenta do que o cinema americano e do que os desenhos japoneses. Tudo isso sem tirar o drama e a aventura, que são os ingredientes da dramaturgia", afirma o diretor de núcleo.

O anime de estréia foi realizado por seis profissionais da equipe de efeitos visuais da novela, comandada por Gustavo Garnier, 49. Demorou dois meses para ser concluído. "Seria bom se tivéssemos um no início, um no meio e outro no final", diz o animador.

Além da seqüência em animação 2D, haverá intervenções virtuais em cerca de 30% da novela. O deserto é uma das reconstruções necessárias por meio do computador. "Uma das nossas funções é complementar", diz Garnier. "Usaremos computação gráfica direto. Vamos colocar Albuquerque no meio do deserto. Temos um grande cromaqui [tela azul que, ao fundo, permite a inclusão de imagens no computador] em volta da cidade cenográfica", reafirma Waddington.

Há seqüências inteiras, como a do capítulo 3, por exemplo, virtuais. "Os sonhos do personagem Jeff Wall Street (Guilherme Fontes) serão todos em computação gráfica", conta Garnier.

Uma outra América

Apesar de estar ficcionalmente situada nos EUA, "Bang Bang" será muito brasileira, segundo Prata. Linguagens à parte, a comparação a "Que Rei Sou Eu?" (1989), de Cassiano Gabus Mendes, é inevitável. "Ela tinha uma estrutura de personagens de narrativa política. Aqui, não. Temos um xerife que baixará umas medidas provisórias absurdas, mas a novela não é focada nisso, não pretende discutir nenhum assunto. Vamos brincar com o cotidiano."

"É uma grande sátira, não é uma farsa. Toda a referência da novela é no real, no sentido de fazer o público acreditar que aquilo até poderia acontecer. Não é uma fábula. O Prata se apropria de situações atuais e joga para aquele momento", diz Waddington.

A novela, segundo o diretor, não será datada. "Não teremos uma citação ao episódio chamado "mensalão", mas, sim, histórias que envolvam corrupção." "Bang Bang" começa com a lembrança de uma chacina ocorrida 20 anos atrás, quando o protagonista Ben Silver (Bruno Garcia) fica órfão. De volta à cidade, busca vingança. A direção geral é de José Luís Villamarin. Ao lado de Prata, colaboram no roteiro Ana Ferreira, Chico Mattoso, Filipe Miguez, Márcia Prates e Reinaldo Moraes.

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